sábado, 3 de abril de 2010

Emoções em disputa:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A disputa presidencial deste ano tem uma característica especial: todos os candidatos estão tentando convencer o eleitorado de que são mais preparados que os adversários para dar continuidade ao governo Lula, devido à ampla popularidade do presidente. Mesmo que Lula já tenha escolhido a ex-ministra Dilma Rousseff para representá-lo, na sua própria base partidária, o deputado Ciro Gomes, do PSB, insiste em que é mais bem preparado do que ela para dar continuidade ao governo.

E na oposição, o pré-candidato do PSDB, ex-governador paulista José Serra, faz questão de elogiar o governo Lula, aparecendo para o eleitorado como um candidato oposicionista não a Lula, mas a Dilma ou à política do Banco Central.

O economista político Alexandre Marinis, sócio da consultoria Mosaico, ressalva que “política não é estatística”, e que a candidatura de Dilma tem uma série de características sem precedentes na história do país que não permitem ser modeladas estatisticamente.

Mas ele tem estudos que mostram uma forte correlação entre a popularidade do presidente da República e os votos válidos que seus candidatos recebem nas eleições, não apenas a nível federal, mas também para os governos estaduais e municipais.

Na prática, diz Marinis, o fato de Lula ter em torno de 80% de popularidade não quer dizer que Dilma já está eleita, mas historicamente a popularidade do presidente e a votação de seu candidato têm uma correlação muito forte.

Também o cientista político Alberto Carlos de Almeida, especialista em análise da opinião pública, autor do best-seller “A cabeça do brasileiro”, acha uma bobagem esses livros de neurocientistas que definem a emoção do eleitor como um fator chave para o resultado das eleições.

De acordo com Alberto Carlos de Almeida, “é uma obviedade dizer que a emoção conduz o voto do eleitor”.

Lembra que o filósofo escocês David Hume (17111779) escreveu no século XVIII que “A razão é a escrava das paixões”.

“Você precisa querer uma coisa para ir atrás dela, não é racional”. Em uma eleição em que os dois candidatos não têm carisma, e Lula tem carisma demais, mas não está conseguindo transferir votos para Dilma na proporção de sua popularidade, Alberto Carlos de Almeida diz que, pensando na emoção, “o que está em jogo aí é qual dos dois candidatos poderia dar melhor continuidade ao Lula”.

De um lado, o presidente já escolheu a Dilma como sua preferida. A oposição, contrariando o DNA de oposição, tem que dizer que ela é que vai dar continuidade, porque Serra é mais bem preparado.

“Aí é que está a grande emoção que vai ser disputada”, ressalva Almeida, afirmando que a missão de Serra é “misturar os baralhos”.

Toda a estratégia do governo é separar os baralhos, enquanto a oposição terá que tentar dizer para o eleitor que não faz mal misturar os baralhos .

“ Quando você e s t á e m uma eleição, você precisa crescer em cima do mercado do adversário . O mercado eleitoral é restrito, e essa é uma guerra de ocupação de terreno. O voto dos pobres tem que ser conquistado, e o Serra tem que fazer um discurso convincente para esse pessoal”.

O economista político Alexandre Marinis lembra que os 80% de popularidade de Lula conferem à candidata Dilma Rousseff “um grande potencial eleitoral”, embora isso não queira dizer necessariamente que a forte relação entre popularidade e voto transformará Dilma em vencedora nas eleições.

Apesar de os 80 % de aprovação a Lula conferirem a Dilma grande potencial eleitoral, Marinis acha que, em termos de estratégia de campanha para o tucano José Serra, há duas frentes em que ele pode trabalhar dentro do contexto de continuidade que o eleitorado quer.

Uma delas é a desconstrução da imagem de Dilma, ressaltando o fato de que de que ela não tem experiência política. É o que o slogan do PSDB está falando, em experiência.

“Mas eu tenho minhas dúvidas se esta estratégia é suficiente para se contrapor à candidatura governista”, diz Marinis.

Olhando historicamente o impacto que a popularidade do presidente tem nas intenções de votos para os candidatos governistas, fica claro que esse impacto é muito forte.

“Se você olha qual era a taxa de aprovação dos presidentes nas últimas quatro eleições presidenciais, e quais foram os votos válidos que cada um dos candidatos governistas teve, com dados oficiais do TSE, a correlação é muito grande”, ressalta Marinis.

Em 1994, 55% dos eleitores aprovavam o governo de Itamar Franco, e Fernando Henrique, que era seu ministro da Fazenda, teve 54% dos votos válidos; em 1998, Fernando Henrique era aprovado por 58% da população, e teve 53% dos votos válidos na reeleição; em 2002, Fernando Henrique teve 35% de aprovação, e Serra alcançou 39% de votos válidos no segundo turno; e na eleição de 2006, Lula tinha a aprovação de 63% e teve 61% de votos válidos no segundo turno.

“É óbvio que a Dilma não vai ter 80% dos votos válidos.

Se fosse outro candidato, eu diria que ele estaria eleito. Pelo fato de ser a Dilma, você tem uma série de variáveis que não se consegue embutir nos modelos, e nas pesquisas qualitativas”, ressalva o economista político Alexandre Marinis.

“Política não é estatística, tem uma série de nuances.

Mas dá para afirmar categoricamente que a popularidade do presidente é um ativo extremamente forte da candidatura da Dilma”, destaca. (Continua amanhã)

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