sábado, 18 de novembro de 2017

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso


Eu não quero entrar em detalhes, mas há pessoas da direita que são pessoas perigosas. Um dos candidatos propôs me matar quando eu estava na Presidência. Na época, eu não prestei atenção. Mas hoje eu tenho medo, porque agora ele tem poder, ainda não, ele tem a possibilidade do poder.


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Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, ex-presidente da República em palestra na Universidade Brown, nos EUA, quinta-feira, 16/11/2017.

*Murillo de Aragão: A inevitável política

- O Estado de S.Paulo

Platão: ‘A punição que os bons sofrem quando se recusam a agir é viver sob o governo dos maus’

A sociedade está despertando para a política. Finalmente está descobrindo que todos nós somos políticos, até quando queremos ficar longe da política. A omissão é uma atitude política. Votar em branco é uma ação política. Falar mal de políticos é um ato político. Não querer falar de política também é um ato político. Tudo é política, mesmo quando não queremos que seja.

A política nos envolve e nos sufoca praticamente desde que nascemos. E termina sendo algo inescapável. Assim como a morte e o nascimento, a política é uma das poucas questões inevitáveis na vida. Podemos até evitar a vida em sociedade, mas nunca nos livraremos da política. Pois ao nos livrarmos da vida em sociedade estamos mandando uma mensagem política. Ela é como uma sina que nos persegue. E nem adianta desligar o noticiário quando o volume de informações políticas ultrapassa o necessário e se torna uma pregação fundamentalista.

Imagine se alguém decidir não falar sobre política. Ou nem sequer votar. Ou virar morador de rua. Ou invadir um espaço público, tomar banho na fonte da praça, viver de caridade e dormir embaixo de pontes ou viadutos. Tudo o que fizer vai ter repercussão, com maior ou menor intensidade, e sempre será uma expressão política.

Demétrio Magnoli: Falência dos políticos

- Folha de S. Paulo

Os partidos que investem na postulação de Huck apostam no clássico golpe do outsider

Aécio Neves enxerga no ensaio de candidatura de Luciano Huck a "falência da política". É mais um álibi de uma figura incapaz de admitir suas responsabilidades. O espectro de Huck emerge da falência dos políticos —especialmente do PSDB.

A leitura superficial das mais recentes pesquisas de opinião indica a probabilidade de um segundo turno entre Lula (algo em torno de 35%) e Jair Bolsonaro (perto dos 15%). Seria o cenário dos sonhos de Lula: nada mais perfeito que concorrer com um ultranacionalista primitivo, autoritário, cercado por um cortejo sombrio de policiais dos costumes.

A hipótese não deve ser descartada, mas colide com a principal informação das sondagens: cerca de 50% do eleitorado rejeita as duas candidaturas salvacionistas, que são as únicas amplamente conhecidas. É como se metade dos cidadãos estivesse pedindo uma alternativa moderada, limpa e reformista.

Em tempos normais, o PSDB seria o estuário dessas expectativas. Contudo, sob o comando de Aécio, os tucanos afundaram no lodo.

João Domingos: A ruína dos partidos

- O Estado de S.Paulo

A menos de um ano da eleição, o jogo não é favorável nem a um nome nem a um projeto

Todo partido político que mereça esse nome tem por objetivo a conquista do poder. Portanto, quando PCdoB, PDT, PMDB, Podemos, PPS, PSB, PSD, PSDB, PSOL, PT, Rede Sustentabilidade e a legenda que vier a acolher o deputado Jair Bolsonaro (RJ) anunciam a intenção de disputar a Presidência da República no ano que vem, estão fazendo o que se espera deles, a legítima disputa pelo poder.

Eles vão para a disputa tendo à frente um quadro diverso de todos os verificados de 1989 para cá, quando a eleição direta para presidente foi retomada. Ao contrário das anteriores, não é possível dizer hoje, a menos de um ano para a eleição de 2018, que o jogo é favorável a um partido, a um nome, a um projeto.

O que se pode dizer, no momento, é que os três principais partidos, PMDB, PSDB e PT, enfrentam uma rejeição muito grande do eleitorado. A ruína partidária é tão visível que lideranças e pensadores das três legendas vêm insistindo na necessidade da busca de iniciativas que as tirem do atoleiro a tempo de evitar o desastre na eleição do ano que vem.

Julianna Sofia: Incontinência

- Folha de S. Paulo

A pouco mais de um mês para o encerramento do ano, o mercado acredita que o governo Michel Temer entregará um rombo fiscal abaixo da meta ultraelástica de deficit de R$ 159 bilhões. Analistas consultados pelo Ministério da Fazenda estimam que as contas fecharão 2017 com um resultado primário negativo em R$ 157,4 bilhões. Para 2018, apostam numa cova quase tão profunda: R$ 156,4 bilhões.

Os números são assustadores, mas não trágicos o suficiente para fazer o Palácio do Planalto conter gastos. A complacência do próprio mercado com as cifras abissais talvez explique parte da incontinência.

A equipe econômica anunciou nesta sexta (17) um desbloqueio de despesas de R$ 7,5 bilhões. A base fisiológica de Temer no Congresso pressionava por uma liberação de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões. No Ministério da Fazenda, a intenção era aproveitar a melhora na arrecadação e o dinheirinho a mais com o ágio de leilões nos setores de energia, óleo e gás para reduzir mais o deficit.

Huck está vivendo a pressão de ser candidato, diz Freire

Presidente do PPS abre as portas do partido para apresentador de TV, mas mantém ‘ponte’ com governador de São Paulo

Pedro Venceslau e Gilberto Amendola / O Estado de S.Paulo

Ao mesmo tempo que abre as portas do PPS para a candidatura do apresentador e empresários Luciano Huck disputar o Palácio do Planalto em 2018, o deputado Roberto Freire, presidente da sigla, mantém uma ponte segura com o governador Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB.

O tucano, que é um aliado histórico, “puxou” quatro deputados para o seu secretariado e, com isso, permitiu que Freire assumisse o mandato na Câmara. “Temos que começar a discutir uma candidatura única das forças que fizeram oposição aos governos ‘lulo-petistas’. O Alckmin é um dos nomes que pode representar essa unidade. Ele tem um diferencial, que a experiência de um governo com capacidade de diálogo”.

Freire, porém, faz questão de ressaltar que o PPS porém também pode fazer “a escolha pelo novo”. Segundo o dirigente, ainda não há martelo batido sobre uma possível entrada de Huck na legenda. O apresentador faz parte de um movimento, o Agora!, que planeja lançar candidaturas independentes dentro de partidos no processo eleitoral.

O movimento está conversando com o PPS em vários estados: Rio de Janeiro. São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco.

“O PPS trabalha com afinco por essa interação com o Agora!. Faz tempo que avaliamos que o tempo dos partidos está acabando. Somos um pouco a representação do passado, e eles do futuro”, disse Freire.

Dora Kramer: Para pior nos atender

- Revista Veja

Reforma não segue critério das obras de melhoria para o público

O governo anuncia uma reforma de ministério para dezembro, iniciada com a troca de guarda nas pastas das Cidades, dos Direitos Humanos e da Secretaria de Governo (articulação política), ocupadas por tucanos insatisfeitos e/ou insatisfatórios. Michel Temer acrescenta ao plano a ideia de aproveitar o ensejo para antecipar a saída daqueles que serão candidatos, anteriormente prevista para abril de 2018, e que já reclamam da pressa manifestando disposição de ficar onde estão até o prazo final permitido por lei.

Não existe perspectiva de reformulação de fato, por várias razões. Há o problema de alguns que não têm mandato com a perda do foro especial de Justiça, há a incerteza dos que podem até lá estar inelegíveis por prisão ou condenação e há a resistência de todos eles a abrir mão de gordas verbas do Orçamento da União. Só no Ministério das Cidades a coisa chega à casa dos 15 bilhões de reais.

Sérgio C. Buarque: A refundação do Estado

- Revista Sera?

O principal problema do Brasil é o Estado, grande, ineficiente, injusto e corrupto, capturado e dominado pelo patrimonialismo e pelo corporativismo, que se apropriam de grandes fatias dos recursos públicos. Mas a solução e o desenvolvimento futuro do Brasil dependem também do Estado. Precisamos de outro Estado. Como sugeriu Tibério Canuto em reunião da Roda Democrática no Nordeste, precisamos refundar o Estado brasileiro. E não se trata de rever o seu tamanho, mas redefinir seu papel e suas funções, suas prioridades e a estrutura organizacional.

O Brasil tem uma carga tributária de 35% do PIB, pouco menos que a Alemanha (cerca de 36,1% do PIB), e muito acima da Coréia do Sul com apenas 24,4% do PIB. E por que o resultado é tão diferente nesses países? O IDH-Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil é 0,754, muito abaixo da Alemanha, com 0,926, e da Coréia do Sul, com 0,901. Com um Estado muito mais leve que o brasileiro, a Coréia do Sul tem alto nível de educação, competitividade e qualidade de vida. Na avaliação do PISA, que mede a qualidade da educação no mundo, o Brasil ficou em 65º numa lista de 70 países, e a Coréia do Sul é o 7º melhor. Para onde estão indo os enormes recursos que o Estado arrecada? Estão saindo pelo ralo, numa mistura de apropriação indébita, privilégios, supersalários, insolvência do sistema de previdência, ineficiência, desperdício e corrupção.

Adriana Fernandes: É preciso falar dela

- O Estado de S.Paulo

As dúvidas sobre a trajetória da dívida prometem dar muita dor de cabeça em 2018

É preciso voltar a falar dela. A dívida pública brasileira é um grande problema para a economia e continuará sendo ainda por muitos anos. A incógnita é quando será interrompida a trajetória atual de crescimento explosivo da dívida do setor público.

A despeito do discurso do governo de que a economia vive um processo de estabilização dos problemas fiscais, que será favorecido pela redução dos juros, a preocupação com a dívida voltou ao radar dos investidores. Eles fazem as contas e traçam novas projeções. Os números não são nada animadores.

O ruído em torno da dívida aumentou depois que ficou mais claro que o andamento das reformas fiscais robustas está ameaçado e sendo empurrado para o futuro.

Na esteira da onda de otimismo com a retomada da economia, a agenda reformista é colocada de lado à medida que avançam as negociações políticas para as eleições do ano que vem. Tudo que se quer no momento é espaço político para ajudar em 2018. A aposta é que o crescimento salvará as contas públicas e conterá o avanço do endividamento.

João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina

(trecho)

“…E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”

Maria Rita - Bola pra frente

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Opinião do dia: Norberto Bobbio

No que diz respeito ao pensamento político em particular, que é objeto do presente texto, a cultura italiana daqueles anos, para a qual se volta Gramsci, havia demonstrado escasso interesse pela tradição do pensamento liberal e democrático, cujo conhecimento havia sido, ao contrário, amplo e difuso na segunda metade do século XIX, quando fora introduzida em nosso país a obra de John Stuart Mill. Das duas faces da teoria política a que se voltava para o Estado e as suas razões (a “razão de Estado”), e a que se voltava para o indivíduo e os seus direitos, os estudos italianos olhavam bem mais para a primeira do que para a segunda.

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Norberto Bobbio (18/10/1909-9/1/2004), ‘Ensaio sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil’. p.91, 2ª edição, Editora Paz e Terra, 2002.

Roberto Freire: Uma reforma para modernizar o Brasil

- Diário do Poder

Apesar de todas as dificuldades próprias de um momento ainda delicado, o país dá sinais cada vez mais consistentes de que está no rumo certo para a retomada do crescimento. Depois de superar a maior recessão de sua história republicana, o Brasil pavimenta o caminho das reformas e fundamenta as bases para a superação da crise e o início de um ciclo mais próspero na economia. Nesse sentido, a entrada em vigor da reforma trabalhista é fundamental para a modernização do país e um melhor andamento do ambiente de negócios.

Foram nada menos que 74 anos sem praticamente nenhuma alteração significativa na legislação trabalhista brasileira, o que só revela o seu grau de anacronismo. Aprovada por decreto-lei em 1º de maio de 1943, em pleno Estado Novo de Getúlio Vargas, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já não dava conta de um novo mundo que emergiu a partir do processo de globalização e se modifica continuamente em meio à revolução tecnológica experimentada pela sociedade.

As novas regras aprovadas pelo Congresso Nacional e sancionadas pelo presidente da República alteram mais de uma centena de dispositivos da CLT e se orientam por um entendimento que hoje é seguido pelas democracias mais avançadas do mundo: o acordado entre empregador e empregado sempre deve prevalecer diante do legislado. Na prática, a partir de agora, o término do contrato de trabalho poderá ser definido de forma consensual – a demissão por acordo, antes uma ferramenta meramente informal, passa a estar abrigada na lei e com vantagens para o trabalhador.

Eliane Cantanhêde: O Rio de Janeiro chora

- O Estado de S.Paulo

Governadores, secretários, deputados, membros do TCE, empresários... Quem escapa?

Aos que até hoje condenam a transferência da capital da República, ironizam a “ilha da fantasia” e imaginam que Brasília é a origem de todos os males e o centro da corrupção brasileira: já imaginaram se a capital continuasse no Rio de Janeiro?

A Lava Jato explodiu esquemas em vários Estados do País, inclusive no DF, mas nada tão avassalador quanto no Rio, pela abrangência, pelos valores e pela diversidade de órgãos, partidos, personagens. Onde o MP, a PF e a Justiça mexem, há escândalos. Nada escapa.

O símbolo disso é o ex-governador Sérgio Cabral, que se arvorava até candidato à Presidência da República, enquanto dilapidava o patrimônio público e vivia como magnata com sua mulher, Adriana Ancelmo. Só faltou um apartamento com R$ 51 milhões em dinheiro vivo.

Merval Pereira: Um tapa na sociedade

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- O Globo

Toda a cúpula do PMDB do Rio está neste momento na cadeia, com exceção do governador Pezão, que continua no posto apesar de todas as acusações, e do ex- prefeito Eduardo Paes, que está no exterior, também envolvido em várias denúncias. É um fato político relevante, essa prisão em massa de um grupo político inteiro, e a revelação de que todas as campanhas eleitorais dos últimos anos foram realizadas com o suporte de dinheiro desviado de obras públicas as mais diversas. A delação premiada do marqueteiro Renato Pereira é das peças mais devastadoras politicamente já surgidas nesses tempos de Lava Jato.

Não houve praticamente um setor da administração que não tivesse sido acionado para alimentar essa máquina partidária que domina o Estado há décadas. Nos votos dos juízes do Tribunal Regional Federal da 2 ª Região ( TRF- 2), a crise econômica do Estado foi atribuída à corrupção desenfreada desse grupo político, e a prisão foi apontada como a única maneira de estancar a prática de atos ilegais, que continuaram mesmo depois da prisão do ex- governador Sérgio Cabral.

É alta a probabilidade de que a Assembleia Legislativa do Rio decida ainda hoje não permitir a prisão de seu presidente, Jorge Picciani, e de outros dois deputados estaduais do grupo, que passaram a noite no mesmo complexo penitenciário onde está preso o ex- governador Sérgio Cabral, o chefe da organização criminosa que ainda controla a política estadual. O presídio de Benfica abriga todos os envolvidos nos processos da Operação Lava- Jato no Rio.

Cristian Klein: Velha cadeia

- Valor Econômico

Assembleia do Rio cruza vácuo de atribuições com mania de grandeza

A Lava-Jato, no âmbito nacional, arrefeceu, não há mais tantas operações quanto as que o país se acostumou nos últimos três anos, a direção da Polícia Federal foi trocada, a sangria está razoavelmente estancada, com a ajuda do Supremo, "com tudo" - como prenunciou o visionário Romero Jucá na conversa pré-impeachment para "botar o Michel" e parar tudo e delimitar onde estava.

No entanto, o desdobramento da maior investigação de corrupção da história brasileira é cada vez mais fluminense. É no Rio que a força-tarefa se aprofunda, quase que em compensação ao esvaziamento do plano nacional. A prisão do ex-governador Sérgio Cabral, há um ano, golpeou simbolicamente um dos pilares do poder do PMDB no Estado. Sem mandato e, portanto, sem o foro privilegiado, Cabral virou presa fácil. Assim como os operadores financeiros propensos à delação premiada. Mas a estrutura de poder político - com os aliados protegidos pelos cargos - só agora começou a ruir com a decisão do Judiciário que ontem mandou prender a cúpula da Assembleia Legislativa, a Alerj.

O presidente da Casa, Jorge Picciani, é peça tão ou mais importante que Cabral do ponto de vista das consequências políticas sobre a hegemonia do PMDB fluminense e o que resistirá da máquina eleitoral em 2018. Cabral sempre foi pouco cioso do trabalho partidário rotineiro. É Picciani quem comanda as relações com variadas instituições e é o fiador dos acordos que mantêm o controle de uma base suprapartidária que dificulta a emergência de opositores relevantes. Até o Psol, principal força da esquerda no Estado, tornou-se uma espécie de leão sem dentes diante do jogo parlamentar inclusivo praticado com habilidade por Picciani.

Bernardo Mello Franco: O Rio capturado pelo crime

- Folha de S. Paulo

No filme "Tropa de Elite 2", o personagem Coronel Nascimento sobe à tribuna do Palácio Tiradentes e diz que a maioria dos deputados estaduais do Rio deveria estar na cadeia. A vida imitou a arte nesta quinta-feira, quando a Justiça Federal mandou prender toda a cúpula da Assembleia Legislativa.

O presidente da Casa, Jorge Picciani, foi o primeiro a se entregar à polícia. Também foram em cana o seu antecessor, Paulo Melo, e o atual líder do governo, Edson Albertassi. Todos pertencem ao PMDB de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, responsáveis pela falência do Estado.

Agora estão no xadrez os três homens que comandaram a Assembleia nos últimos 22 anos. Isso ajuda a explicar o grau de apodrecimento da política fluminense, carcomida por máfias e milícias. A sensação é de que as instituições do Estado foram todas capturadas pelo crime. Não à toa, as investigações que pegaram Cabral e seus comparsas correm apenas na esfera federal.

A prisão de Picciani, acusado de receber R$ 83 milhões do cartel dos ônibus, joga luz sobre a corrupção nos transportes. O esquema já operava na década de 80, quando o governador Leonel Brizola encampou as empresas do setor. A medida seria revertida por Moreira Franco, que terminou seu mandato condecorando os chefes do jogo do bicho.

*Fernando Gabeira: Adeus aos salvadores da Pátria

- O Estado de S.Paulo

Não elegeremos anjos em 2018. Mas o pessimismo não nos deve desesperar

De passagem pelo Brasil, um dirigente espanhol do Podemos, Rafael Mayoral, afirmou que a esquerda não vai salvar as pessoas e o essencial é fortalecer a sociedade para que ela possa controlar qualquer governo no poder. Não vi o restante do seu discurso. Mas até onde li, concordo. De certa forma, tenho usado esse argumento com novos grupos que querem a mudança no Brasil.

Muitos deles estão legitimamente preocupados com a falta de alternativas na eleição presidencial. Mas, ainda assim, afirmo que a descoberta de um nome não é tão importante quanto fortalecer a sociedade para que possa monitorar ativamente o governo.

No fundo, o objetivo maior deve ser a construção de um controle social tão preciso, diria até tão virtuoso que possa tornar mais amena a constatação de que não elegemos anjos, mas pessoas de carne e osso. Isso é válido para qualquer sociedade, mas no Brasil parece que somos mais intensamente de carne e osso.

De certo modo, já exercemos algum controle sobre o governo Temer. Duas medidas foram revertidas por pressão social: a abertura de uma área de mineração na Amazônia e o abrandamento da lei que pune o trabalho em condições análogas ao de escravo. Mas esse esforço de controle só tem surgido em grandes temas. Estamos tratando como normais e cotidianas várias aberrações que nos transformam num país virado de cabeça para baixo.

Míriam Leitão: No Rio é pior

- O Globo

O Rio é o estado onde tudo aconteceu da pior forma. A crise econômica é mais profunda e prolongada, o assalto aos cofres públicos foi mais violento e disseminado, a crise da Petrobras o atingiu mais fortemente do que a qualquer outro estado. A deterioração fiscal tem sido mais aguda, com a aflição interminável do servidor público e seus salários atrasados.

Ontem foi mais um dia histórico no Rio, com a prisão do presidente da Assembleia Legislativa Jorge Picciani, depois da decisão unânime dos desembargadores do TRF. Eles votaram pela prisão do deputado, do líder do governo Edson Albertassi e de Paulo Melo, outro parlamentar.

Há uma semana Albertassi estava com um pé no Tribunal de Contas do Estado, apesar de todas as dúvidas que pesavam sobre ele. Tanto tempo depois de iniciado o mais sério combate à corrupção no Brasil e no Rio, o governador Luiz Fernando Pezão se considerou no direito de o indicar para a vaga e demitir o procurador- geral Leonardo Espíndola, que se recusou a defender a nomeação. As instituições tiveram que travar uma luta, a começar da ação popular do PSOL, para evitar que o deputado fosse para o TCE. Ontem, Picciani, Albertassi e Melo foram detidos.

Reinaldo Azevedo: Enfim, uma agenda. A de Temer

Folha de S. Paulo

Nos meses em que Temer ficou nas cordas, a agenda avançou. E o os outros não fizeram propostas viáveis.

O presidente Michel Temer tem uma vantagem. Segundo os critérios adotados pelos institutos de pesquisa –e não os estou contestando necessariamente–, não há mais espaço para a queda de prestígio. Não acredito num novo surto de linchamento tendo como guias patriotas do quilate de Joesley Batista e Lúcio Funaro.

Vencida a etapa da segunda denúncia, Temer gravou um pronunciamento aparentemente simplório. Deu relevo ao óbvio: para a sua gestão, a reforma da Previdência é irrelevante. O que tiver de vir em 2018, na economia, virá porque já veio!

Daqui a pouco o país estará crescendo a 3% na média de 12 meses. Depois vai superar essa marca. O último vagão a se mover, o do emprego, arrancou, e se percebeu que a composição se movia a uma velocidade superior ao esperado.

O presidente foi suave em sua fala. Se a sociedade não quiser a reforma, então não se faça, embora ele, pessoalmente, vá nela insistir.

José de Souza Martins: Privilégios vs. direitos

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Numa sociedade em que um número significativo de pessoas conserva ou reivindica privilégios próprios do chamado Antigo Regime, fica difícil convencer quem vive do suor do próprio rosto de que a reformulação de direitos trabalhistas que os limitam constitui justa medida de correção de anomalias sociais. Ou que a salvação da economia, que carrega embutidas graves injustiças sociais, constitua o presente de Papai Noel, de 2017, para aqueles que hoje vivem na incerteza da busca de emprego.

O que é bom para a economia e o lucro não é necessariamente bom para o cidadão. Sem o justo equilíbrio entre a remuneração do capital e a remuneração do trabalho, todos perdem. Entre nós, os direitos sociais tendem a ser a migalha que sobra de privilégios que tem precedência em relação a eles.

Quando uma ministra de Estado, cujos antepassados foram, provavelmente, escravos e se considera escrava por ter-lhe a lei tolhido o direito de acumular vencimentos que chegariam a R$ 60 mil por mês, não há como não pensar em quem ganha salário mínimo, preto, pardo ou branco. Alguém que sequer pode recorrer aos tribunais para defender-se da perversidade do ganho insuficiente para a sobrevivência decente da família.

Quando membros do Judiciário reivindicam "ajuda" para mudar de casa ou para pagar a cara educação dos filhos, não há como não pensar em quem mal consegue morar ou naqueles cujos filhos carecem de uma educação que os emancipe do cativeiro de insuficiências que os atam ao pelourinho da inferioridade social.

Rogério Furquim Werneck: Instinto de sobrevivência

- O Globo

‘Atingidos’ compartilham da urgência de ‘ estancar a sangria’, procuram ficar sob a estrita proteção do foro privilegiado

A configuração da disputa presidencial tem sido fonte de grande apreensão. Entre a perspectiva de desmantelamento da política econômica em vigor, como vem sendo prometido por Lula, e a possibilidade de que o país fique ao sabor do primitivismo inconsequente de Jair Bolsonaro, cresce o clamor por uma união das forças políticas de centro.

Não falta quem pondere que, até por simples instinto de sobrevivência, os partidos de centro teriam de se aglutinar em torno de uma mesma candidatura. A verdade, contudo, é que as articulações nesse sentido vêm enfrentando dificuldades de toda ordem. E acumulam- se evidências de que, por mais forte que sejam seus instintos de sobrevivência, os partidos de centro podem perfeitamente não conseguir se acertar, em 2018, para dar apoio conjunto a um candidato a presidente que tenha boa chance de ser eleito.

Quando a resultante de um sistema de forças parece surpreendente, há que se indagar se não há outras forças importantes em jogo que não estão sendo consideradas. No caso, as forças que talvez não estejam sendo levadas em conta, devidamente, são as provenientes de uma aliança tácita, cada vez mais poderosa, fundada num mesmo temor que hoje perpassa, da esquerda à direita, as cúpulas de todos os partidos políticos de maior expressão: a preocupação com os desdobramentos da Lava- Jato e operações similares.

Fernando Abrucio: Liberalismo vai além do livre mercado

- Valor Econômico / Eu &Fim de Semana

O mercado financeiro está em polvorosa com a eleição de 2018. Depois do desastre da política econômica da presidente Dilma Rousseff, é possível até entender esse sentimento, o que se soma ao costumeiro exagero derivado das apostas entre os agentes. O problema começa quando se adota uma perspectiva míope, segundo a qual só vale olhar para as propostas econômicas dos candidatos, esquecendo-se de todo o resto das ideias - ou da falta delas. Por essa via, já tem gente no mercado que começa a achar palatável a candidatura do deputado Bolsonaro à Presidência da República. Tal postura é a falência do liberalismo moderno, baseado em valores e estudos acadêmicos.

Dois aspectos deveriam levar a uma reflexão mais profunda por parte do mercado financeiro. O primeiro deles diz respeito a que tipo de liberalismo se quer adotar como bússola das decisões. O segundo ponto se refere às ideias de Bolsonaro e sua trajetória, pois sua candidatura representará uma visão de mundo e um estilo de se fazer política que vão guiar suas propostas econômicas.

O liberalismo, em um sentido mais geral, é uma corrente política que defende a liberdade como principal valor humano. Se bem protegida e expandida, a liberdade teria efeitos positivos sobre vários campos da vida social, inclusive a economia. Claro que a partir desse grande guarda-chuva há divisões dentro do pensamento liberal. Sugiro a leitura do livro "O Liberalismo: Antigo e Moderno", de José Guilherme Merquior, para quem quiser conhecer melhor toda essa história.

Mas não basta ficar no terreno das ideias. É preciso analisar de que maneira as concepções liberais deram certo, ajudando no desenvolvimento das nações. Obviamente que a evolução dos países mais desenvolvidos não se deveu apenas ao liberalismo, pois várias correntes de pensamento contribuíram para isso. De todo modo, certas concepções liberais, sozinhas ou na junção com outros ideários, foram importantes para produzir sucessos políticos, econômicos e sociais.

Fernando Dantas: Salada eleitoral

- O Estado de S.Paulo

Está menos claro quem defenderá com chances em 2018 atual política econômica

A economia brasileira estabilizou-se, após um momento de quase pânico, ao longo do primeiro semestre de 2016, e depois chegou a experimentar uma fase de relativo otimismo, com valorização da Bolsa e do câmbio e queda dos juros. De forma muito resumida, a história é que investidores e participantes dos mercados apostaram no sucesso da fórmula de enfrentar o dramático problema fiscal de forma gradualista, inicialmente com o teto dos gastos, depois com a reforma da Previdência e outras medidas.

Como é sabido, o escândalo da conversa do presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista torpedeou a reforma da Previdência. Hoje o máximo que se espera, no cenário mais otimista, é que um ponto ou outro da reforma possa ser aprovado ainda no governo Temer. O mais provável, porém, é que a tarefa fique para o novo presidente a ser empossado em 2019. Espera-se também dele (ou dela) a continuidade da política econômica de ajuste ortodoxo gradual de Temer.

O grande problema, porém, é que está cada vez menos claro quem, dentre a grande penca de candidatos que vai surgindo, representa essa continuidade com algum grau de competitividade na eleição de 2018.

Claudia Safatle: A mais lenta recuperação da história

- Valor Econômico

Sete anos de déficit público explica a demora da retomada

A economia brasileira passou por nove recessões dos anos 1980 para cá, mas a lentidão do atual processo de recuperação da atividade não encontra paralelo na história do país. Também é inédita a profundidade da deterioração fiscal de hoje. O déficit primário deverá durar até 2022, completando um ciclo de sete anos de um considerável "buraco" nas contas públicas. O prolongado período de crise fiscal é, muito provavelmente, um elemento a explicar a demora da recuperação.

Técnicos do Ministério do Planejamento fizeram um estudo para encontrar alguma regularidade histórica nas retomadas do crescimento após as recessões, usando como medida o crescimento médio trimestral do PIB nos dez anos que antecedem o começo das retrações. À exceção do início dos anos de 1980 - quando a comparação com a média de dez anos anteriores ficou comprometida pela alta performance do PIB durante o "milagre" econômico -, em todos os demais casos o país cresceu mais do que a média do período anterior.

A conclusão, feitos vários exercícios, é de que a retomada esperada pela pesquisa Focus, do Banco Central, está muito aquém do padrão e é mais demorada do que a mais lenta de todas, que ocorreu em 1998. Isso ocorre mesmo considerando a projeção mediana do Focus acrescida de um desvio padrão (ver gráfico abaixo).

Em outro texto, os técnicos do Planejamento, sem encontrar correlação histórica no país, estabelecem um comparativo com os Estados Unidos e identificam uma grande similaridade entre a recuperação da economia brasileira hoje e a da economia americana no pós-crise global de 2008/2009.

Resistência à mudança – Editorial: O Estado de S. Paulo

Após o Congresso aprovar uma lei, é de esperar que ela seja cumprida. O respeito à norma é consequência natural e imediata do regime democrático: aquilo que os representantes eleitos pelo povo decidem deve valer de fato.

Até o Congresso votar um projeto de lei, a democracia manifesta-se de forma muito especial no debate e no estudo das questões envolvidas. No momento em que o Congresso dá o seu veredicto a respeito de determinado projeto de lei, o respeito à democracia se traduz no acatamento do que foi decidido pelos parlamentares e o tema, durante razoável período de tempo, deixa de ser questão aberta. De outra forma, não haveria possibilidade de avanço ou de mudança, pois a rigor as leis nunca entrariam em vigor, numa perpétua discussão dos assuntos.

Fazer valer a decisão do Congresso é, agora, o desafio relativo à reforma trabalhista. A Lei 13.467/2017 foi aprovada e entrou em vigor no dia 11 de novembro. Trata-se de uma vigorosa atualização da legislação trabalhista, com várias e promissoras novidades. Se elas forem respeitadas, podem proporcionar um novo horizonte para as relações trabalhistas, com efeitos positivos sobre a economia e o desenvolvimento social do País. Tem-se visto, no entanto, uma desarrazoada oposição à nova lei, como se ainda estivesse em discussão se deve ou não valer. Ora, a Lei 13.467/2017 está vigente e deve ser respeitada.

Novas tentativas de aguar a reforma da previdência- Editorial: Valor Econômico

O ambiente no qual a reforma da previdência voltou a ser discutida vem se deteriorando. Ao bazar natural das negociações no Congresso para sua aprovação, soma-se agora a feira de oportunidades aberta pela iminência de uma reforma (que aos poucos se torna uma minirreforma) ministerial. A proposta aprovada em comissão pela Câmara dos Deputados corre o risco adicional de ser retalhada ao sabor das conveniências. A equipe econômica apostou em uma boa reforma, com alguma margem para reveses, mas ela pode ser desbordada se o "realismo" político do Planalto acabar prevalecendo, como parece que vai.

O ambiente racional para se discutir uma boa reforma, cujos contornos foram delineados no projeto aprovado em comissão, parece ter ficado para trás. Como em quase todo o resto, em se tratando do governo Temer, as expectativas estão sendo progressivamente rebaixadas. Nos mercados, prevalece a ideia de que qualquer coisa que for aprovada ajudará pelo menos um pouco na contenção do enorme rombo previdenciário, até que o próximo governo realize as mudanças que precisam ser feitas e não o foram agora.

Incerteza trabalhista – Editorial: Folha de S. Paulo

Em uma análise rigorosa, seria inapropriado o uso de medida provisória para legislar sobre relações trabalhistas. O instrumento, afinal, destina-se a providências emergenciais, não a temas de tamanha complexidade.

De todo modo, foi essa a saída política que viabilizou a aprovação célere, pelo Senado, da reforma da CLT que começou a vigorar neste mês. A MP, editada na terça (14), foi prometida pelo presidente Michel Temer (PMDB) para tratar de aspectos controversos não examinados pelos senadores.

O acerto, contudo, contrariou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Um tanto por afirmação de poder, outro por preferências programáticas, o parlamentar não quer ver alterado o texto definido por seus pares.

A incontrolável propensão do setor público ao inchaço – Editorial: O Globo

É sintomático que apenas no Judiciário haja pedidos de criação de 5.516 novos cargos e de gratificações, inclusive de contratações sem concurso

Marca registrada da burocracia estatal brasileira, o crescimento do número de funcionários resiste a tudo. Mesmo a momentos como o atual, de grave crise financeira do Estado. A mais recente comprovação deste viés, noticiada pelo GLOBO no início da semana, é o acumulo de pedidos de contratações, bem como de gratificações, encaminhados ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Desde 2013, quando a economia já sinalizava dificuldades, chegaram ao CNJ 15 pedidos de abertura de 5.516 novos cargos e gratificações. No pacote, incluem- se juízes, com salários iniciais de R$ 27,5 mil, e muitos cargos de livre provimento — ou seja, a serem preenchidos sem a necessidade de concursos públicos —, com remunerações entre R$ 6 mil e R$ 14,6 mil. Atendidas as demandas, as já excessivas despesas da União com pessoal cresceriam R$ 606 milhões em um ano.

Pesquisa sugere baixa adesão de brasileiros a teses conservadoras

Ricardo Mendonça | Valor Econômico

SÃO PAULO - Uma pesquisa recém-concluída pelo instituto Ideia Big Data sobre temas comportamentais e econômicos sugere, conforme os formuladores do levantamento, que as posições dos brasileiros são bem menos conservadoras do que tem aparecido nas análises políticas, nos discursos de parlamentares e em manifestações em redes sociais.

O estudo mostrou, entre outras coisas, que há forte apoio dos brasileiros à atuação do Estado para garantir igualdade de oportunidades, proteção aos mais pobres, aposentadoria aos mais velhos e crescimento econômico do país.

São majoritários também o apoio a cotas raciais em universidades públicas e a defesa de direitos de homossexuais. A formulação segundo a qual os direitos humanos "devem valer para todos, incluindo bandidos", supera com folga o entendimento de que deveria ser algo seletivo. E uma ampla maioria manifesta rejeição à ideia de punição criminal às mulheres que fazem aborto.

Já a bandeira da redução dos impostos, muito cara ao pensamento conservador e muito defendida por políticos de direita e entidades empresariais, não é vista como prioridade.