quarta-feira, 30 de julho de 2014

Opinião do dia: Roberto Freire

Tudo o que nos une não é a candidatura de Aécio Neves, para alguns, e a de Eduardo Campos, para outros. O que vai nos unir nesta campanha é termos a capacidade de fazer a mudança que a sociedade quer.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente nacional do PPS. Em discurso em Santos (SP), 29 de julho de 2014.

Bancos farão análises mais conservadoras

Mercado assustado com reação oficial

• Bancos e consultoras veem uso político do governo no caso do relatório do Santander

João Sorima Neto, Ana Paula Ribeiro, Rennan Setti e Leandra Lima – O Globo

SÃO PAULO, RIO e BRASÍLIA - Assustados com a reação do governo no episódio do Santander, bancos e corretoras devem adotar a partir de agora uma postura mais cautelosa quando tratarem do tema eleições em seus relatórios enviados a clientes. Segundo analistas, essas instituições temem sofrer represálias do Planalto, já que mantêm relações diretas com o governo, por meio do BNDES ou dos bancos públicos, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal (CEF).

Ainda pela avaliação do mercado, o Santander talvez tenha errado o tom do seu comunicado, dando a impressão de que emitiu uma opinião política, e não uma análise técnica da conjuntura econômica. No entanto, o governo também teve uma reação exagerada e tentou tirar proveito político do caso, avaliam economistas ouvidos pelo GLOBO. Eles afirmam, porém, que as eleições continuarão a ter espaço nos relatórios, como acontece em todo ano eleitoral.

- O fato de a Bolsa subir quando as pesquisas de intenção de voto mostravam queda de Dilma já vinha sendo tratado nos relatórios produzidos pelos bancos. Talvez o Santander tenha errado o tom do comunicado. Mas a reação do governo também foi exagerada e considerada uma censura à opinião de uma instituição privada. O assunto ganhou um tom absolutamente político, e não econômico - disse o profissional de um grande banco, que pediu anonimato.

Santander demite analista
O banco espanhol enviou a 40 mil correntistas de alta renda um texto no qual diz que, "se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam a alta e o índice da Bovespa cairia, revertendo parte das altas recentes".

A presidente, candidata à reeleição pelo PT, considerou inadmissível essa vinculação. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a pessoa responsável pelo relatório "não entende de Brasil ou do governo Dilma Rousseff" e que o "banco poderia mandá-la embora e dar o bônus pra mim, que eu sei como é que eu falo".

Presidente do Conselho do Santander, Emilio Botín confirmou ontem que uma pessoa da instituição foi demitida devido ao episódio:

- A pessoa foi demitida porque o banco, advertido, disse que tinha que ser demitida antes - disse Botín aos jornalistas, sem mais detalhes, após o encerramento do III Encontro Internacional de Reitores, patrocinado pelo banco espanhol, no Rio.

Por causa do relatório enviado aos correntistas, o vice-presidente Michel Temer cancelou sua ida ao encontro de reitores. Sobre a insatisfação de Lula, o empresário espanhol se limitou a dizer ser amigo do ex-presidente:

- O presidente Lula é muito amigo meu, e para ele só tenho elogios.

Consultoria é obrigada a suspender anúncios
O diretor de um banco consultado pelo GLOBO avaliou que o governo já estaria incomodado com as análises negativas do mercado financeiro em relação às eleições, mas o caso do Santander foi a gota d"água, porque o texto foi enviado a clientes de varejo, e impresso num extrato. Normalmente, esse tipo de análise é dirigido aos grandes investidores.

A Consultoria Empiricus, especializada na análise de ações na Bolsa, também foi alvo do governo. A campanha petista ficou incomodada com anúncios veiculados na internet pela consultoria, nos quais se aconselha "como proteger seu patrimônio em caso de reeleição da Dilma, já" e "que ações devem subir se Aécio ganhar a eleição? Descubra aqui, já". Segundo a Empiricus, os anúncios foram tirados do ar, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em resposta à queixa da campanha petista.

- Os anúncios foram baseados em análise factual, compartilhada por outras pessoas do setor. É absurdo relacionar isso a uma questão eleitoral. Como vou explicar a valorização da Petrobras na Bolsa nos últimos meses sem recorrer aos levantamentos eleitorais? Serei obrigado a inventar que foi por causa da expectativa de balanços financeiros positivos da empresa? - disse Felipe Miranda, sócio da Empiricus.

"Se não pudermos fazer, é melhor fechar"
Para Miranda, diferentemente dos bancos, que ganham dinheiro com outros serviços, o trabalho de sua consultoria é exclusivamente baseado em dar opiniões sobre o mercado.
- Se não pudermos fazer isso, é melhor fechar a empresa. Não posso afirmar se nossa opinião se mostrará correta ou não, mas nossa crítica é honesta - diz.

Segundo Miranda, a representação contra a campanha da Empiricus se insere em "uma postura generalizada do governo, que é incapaz de receber críticas".

O candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG), também criticou a reação da presidente e do PT ao relatório do Santander. Para Aécio, em vez de tentar politizar uma análise técnica e pedir a punição da pessoa do banco, a presidente Dilma deveria apresentar uma agenda positiva para melhorar a economia:

- Se forem demitir todos que estão fazendo avaliações negativas da economia e do governo da presidente Dilma, vão ter que demitir muita gente. Ninguém contestou o teor da avaliação, se contentaram em pedir a punição de quem fez a avaliação. O governo deveria era estar mais preocupado em reagir positivamente do que em punir o funcionário - ironizou Aécio.

"As opiniões passarão por um crivo maior"
Segundo um gestor de patrimônio, que preferiu não ser identificado, os incidentes com o Santander e a Empiricus já provocaram uma mudança na burocracia interna dos bancos. Normalmente, as equipes de análise dessas instituições têm certa independência para produzir seus relatórios. Eles são elaborados em reuniões nas quais o analista escreve sua opinião, submetida à aprovação de um analista-chefe.

- Agora, as opiniões passarão por um crivo maior, já que se constatou que o governo está muito sensível a elas. Antes de serem aprovados, os relatórios vão circular por mais funcionários do banco, mais gente do topo da hierarquia, para impedir que se escreva algo que gere constrangimento - disse o gestor.

Num sinal de que o mercado não esquecerá o tema das eleições, o economista-chefe da TOV Corretora, Pedro Paulo Silveira Vale, afirmou que as reações do PT ao relatório do Santander despertaram mais desconfiança do mercado em relação ao que pode ser classificado como uma "postura bolivariana" de ação institucional. Para Silveira, a credibilidade do governo já está em baixa junto ao mercado, com indicadores ruins da economia, e esse comportamento pode despertar reações ainda mais negativas.

De acordo com o economista de uma grande corretora, o consenso do mercado é que os casos Santander e Empiricus forçarão uma mudança na terminologia usada pelos bancos para falar com clientes e imprensa.

- Os analistas não serão mais tão agressivos em suas declarações. Ninguém mais vai dizer que a Bolsa está caindo porque a Dilma ganhou pontos na pesquisa. Em vez disso, dirão que o contexto eleitoral é um dos fatores que explicam o resultado - disse o economista.

E complementou:

- Todo o mercado está falando a mesma linguagem, mas a forma está assustando o PT. Então, as mesmas coisas continuarão sendo ditas, só que de uma forma menos incisiva.

O sócio de uma grande gestora de recursos admitiu que o Santander "podia ter sido mais cuidadoso em sua comunicação aos clientes", mas não precisava ter pedido desculpas públicas pelo episódio.

- O banco apenas disse aos clientes o que está acontecendo no mercado. Não precisava pedir desculpas, e nem era preciso expor a pessoa que escreveu a análise demitindo-a - afirmou ele.

Mantega desqualifica análise econômica do FMI

Instituição ‘respeitável’ não faria avaliação como a do FMI, diz Mantega

• Ministro desqualificou relatório do fundo que aponta o Brasil como um dos emergentes mais vulneráveis às mudanças da economia mundial

Renata Veríssimo e Adriana Fernandes - O Estado de S. Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, desqualificou nesta terça-feira, 29, o relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmando que o Brasil seria um dos países emergentes mais vulneráveis às mudanças da economia mundial. O ministro disse que em uma instituição financeira respeitável não há esse tipo de avaliação como a do FMI.

Por mais de uma vez, Mantega disse não ter informação sobre "o escalão" dentro do FMI responsável pelo relatório. "O relatório é de uma equipe do FMI que não sei quem é. Não é o diretor para o Hemisfério Sul", afirmou.

Mantega disse que o FMI comete o mesmo equívoco perpetuado por outros no passado, quando afirmaram que o Brasil enfrentaria uma tempestade perfeita ou estaria entre as cinco economias mais frágeis. Segundo o ministro, ninguém mais falou nesse assunto e nada aconteceu.

Mantega destacou que, nos últimos seis meses, o câmbio teve uma baixa volatilidade e o real foi a moeda que mais se valorizou (9,4%) em relação a todas as moedas. "Portanto, se fortaleceu", disse.

Ele ressaltou ainda o aumento das bolsas de valores de 21,5% nos últimos seis meses. Além disso, segundo ele, o Brasil teve, de janeiro a junho deste ano, uma conta financeira melhor que nos seis primeiros meses de 2013, quando já foi bom. Ele enfatizou também a entrada de investimento estrangeiro direto desde 2011. "Portanto, é um país atrativo", comentou.

O ministro lembrou a emissão externa feita na semana passada pelo Tesouro Nacional do Global 2045, um título com 30 anos de vencimento e taxa de retorno de 5,13%. "São sinais de que o Brasil tem a confiança do mercado internacional e é sólido do ponto de vista cambial."

O ministro sublinhou que o Brasil tem reservas internacionais altas, a quinta maior do mundo, o que deixa o País numa situação confortável. Ele citou ainda a pequena dívida externa de curto prazo que, segundo ele, é de apenas 7,6% de um total de US$ 330 bilhões.

Mantega disse que o Brasil tem um sistema financeiro sólido e pouco alavancado. "O Brasil tem uma situação bastante sólida, que nos permitiu atravessar as turbulências causadas pela retirada dos estímulos pelo Fed e isso foi superado e nos colocou à prova. Então, não faz sentido a conclusão desse relatório. Eu não li o relatório. Só nos onlines", disse, segurando uma notícia do Broadcast. "Com seis meses de atraso, o FMI repetiu o erro cometido no passado por outros analistas", declarou.

O ministro afirmou que a avaliação feita no relatório não tem sido incluída nas análises das instituições financeiras respeitáveis. Ele disse que o déficit em transações correntes no ano passado foi afetado negativamente pelo déficit da conta petróleo, que, segundo ele, este ano, está melhor.

Mantega afirmou que a Petrobrás está aumentando a produção de petróleo, o que vai melhorar o déficit comercial da conta petróleo. Ele disse que, se houver uma melhora da economia mundial, também será sentido nas contas externas do Brasil. "Estamos no pior momento do comércio internacional", disse.

Presidente do Santander diz que analista fez 'coisa errada'

• Emilio Botín afirma que banco enviou carta de desculpas para a presidente

• Funcionário que fez texto que vincula Dilma à piora da economia foi demitido, segundo executivo espanhol

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O presidente mundial do Banco Santander, Emilio Botín, afirmou nesta terça-feira (29), em palestra no Rio, que o boletim interno que afirmava que o eventual sucesso eleitoral da presidente Dilma Rousseff produzirá uma piora na economia do Brasil não reflete a posição da instituição, e sim a de um analista, que ele disse ter sido o responsável pelo texto.

O Santander, segundo o executivo, demitiu o funcionário. "Enviamos uma carta à presidente. A pessoa tinha que ser demitida porque fez coisa errada", disse Emilio Botín a jornalistas. "[O informe] É a opinião de um analista, não é a opinião do Santander. Nós tomamos as medidas necessárias", segundo informações do portal UOL.

A análise da instituição financeira, enviada a clientes de alta renda no dia 1º de julho, dizia que, se Dilma subir nas pesquisas, juros e dólar vão subir, e a Bolsa, cair.

A opinião já frequentava o mercado financeiro de forma difusa, mas nunca assumida, e lembra o "lulômetro", termo criado por um analista do banco Goldman Sachs, na eleição de 2002, que usou uma combinação de indicadores para prever a cotação futura do dólar disparando caso o petista fosse eleito.

Sobre o boletim, Emilio Botín disse que "essas coisas acontecem". "O Santander tem 80 mil empregados. Isso pode acontecer com outros bancos. O importante é que, quando uma pessoa falha e faz algo mal feito, o banco toma suas medidas", ressaltou.

A presidente Dilma classificou a análise do banco de "inadmissível" e "lamentável", tratando-se, segundo ela, de mais uma "especulação" do período eleitoral.

"A característica de vários segmentos é especular. Sempre que especularam, não se deram bem. (...) É inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política", afirmou a presidente na sabatina realizada em parceria entre Folha, UOL (ambos do Grupo Folha), SBT e rádio Jovem Pan na segunda (28).

Dilma subiu o tom de voz na sabatina, numa demonstração de insatisfação com o episódio, e afirmou: "Eu vou ter uma atitude bastante clara em relação ao banco", evitando, porém, dizer qual.

"O presidente do banco no Brasil [Jesús Zabalza] já comunicou às autoridades que ficamos muito chateados que isso tenha acontecido e já enviou uma carta à presidente Dilma", afirmou Botín. Para Dilma, contudo, o pedido de desculpas foi "protocolar".

Procurado, o Santander informou que não iria se pronunciar sobre o episódio, e disse que todas as medidas estavam sendo tomadas pela instituição, em referência à demissão do analista responsável pelo prognóstico.
O informe do banco causou a ira dos petistas, e foi usado pelos candidatos à Presidência da oposição, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), para atacar a política econômica do governo.

Para o ex-presidente Lula, o autor do texto do Banco Santander "não entende porra nenhuma de Brasil".

Frases
"Enviamos uma carta à presidente. A pessoa tinha que ser demitida porque fez coisa errada. [O informe enviado pelo banco] É a opinião de um analista, não é a opinião do Santander"
EMILIO BOTÍN
presidente mundial do Santander, nesta terça (29), no Rio

"É inadmissível para qualquer país aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política"
DILMA ROUSSEFF
em 28.jun.14, em sabatina com jornalistas no Palácio do Planalto

"Essa moça [do Santander, responsável pelo texto enviado a clientes do banco] não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma. Manter uma mulher dessas em cargo de chefia é, sinceramente..."
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
em 28.jul.14, ao discursar na plenária da CUT

FMI bate e Mantega rebate

• Ministro da Fazenda garante que não haverá recessão e diz que Fundo está atrasado, repetindo erros de outros analistas

Sonia Filgueiras – Brasil Econômico

O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, rebateu com veemência o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado ontem, que coloca o Brasil entre as economias emergentes mais vulneráveis à mudança futura do nível das taxas de juros internacionais. "Com atraso, o FMI está cometendo um erro que foi cometido por outros analistas", declarou o ministro, que admitiu não ter lido o relatório mas decidiu fazer os comentários a partir da repercussão que o texto alcançou nas agências de notícias. Mantega também afirmou que o Brasil não entrará em recessão. "Não haverá recessão. Quem está falando em recessão está equivocado", declarou. "Não sei o autor do relatório (do FMI), é um segundo escalão", disse.

Para o ministro, o relatório repete uma análise feita no passado que caiu no vazio, referindo-se à tese dos "cinco frágeis" primeiro feita pelo banco Morgan Stanley no ano passado e depois adotada pelo mercado, segundo a qual o Brasil, junto comTurquia, Indonésia, Índia e África do Sul, integraria o grupo dos países com economias mais suscetíveis a sofrer com a queda da liquidez internacional. Segundo Mantega, não há hoje no sistema financeiro internacional nenhuma instituição importante fazendo esta análise. O ministro ressaltou que o país continua atraindo investimentos externos, tem reservas cambiais elevadas e uma dívida externa de curto prazo pequena, equivalente a apenas 7,6% do total. "O Brasil tema confiança do mercado internacional", disse. "O Brasil tem uma situação sólida.

Ela nos permitiu atravessar as turbulências causadas pelo FED no passado. Tudo foi superado. Isso nos pôs à prova", reforçou. O ministro disse, ainda, que não acredita em um default da Argentina no pagamento de sua dívida reestruturada. "Acho difícil que aconteça (um calote). Se a Argentina não pagar, será ruim para todos", diz. Para ele, é uma situação em que há espaço para negociação. Na mesma entrevista, Mantega defendeu também a flexibilização do compulsório realizada pelo Banco Central com o objetivo de estimular o crédito. Segundo ele, a medida não é inflacionária nem incoerente. "As medidas foram corretas , foram para colocar mais liquidez na economia e vão reativar o crédito", disse, acrescentando que embora elas "não tenham grande impacto" ajudarão a economia a ingressar no segundo semestre com alguns estímulos. Ele também descartou efeitos sobre a inflação.

"O combate à inflação é exitoso. A inflação continuará em trajetória descendente", lembrando que o repique recente dos índices se deveu ao choque de alimentos, à estiagem e à Copa do Mundo. Para ele, não há conflito com a política de aperto monetário. "O crédito livre está muito apertado, crescendo abaixo da inflação. É uma liberação moderada que vai reativar um pouco o crédito".

'Vão ter que demitir muita gente', ironiza Aécio

Gabriela Guerreiro – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, acusou, nesta terça (29), a presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) de tentar politizar a crise econômica.

Sobre o comunicado do banco Santander a clientes dizendo que a reeleição de Dilma poderia ter efeitos negativos na economia, Aécio comentou que o governo não contestou a avaliação do banco, mas apenas agiu para que os responsáveis pelo comunicado fossem demitidos.

"O governo deveria estar muito mais preocupado em reagir positivamente do que punir um funcionário", disse.

O tucano ironizou a opinião de membros do PT que acusam o PSDB de ter estimulado o comunicado do Satander, e afirmou que a oposição não está "infiltrada" no banco. "Se eles forem demitir todos os que fazem avaliações negativas do governo, vão ter que demitir muita gente."

Na sabatina com Dilma realizada na segunda (28) por Folha, UOL, SBT e rádio Jovem Pan, a petista disse que o clima de "pessimismo inadmissível" antes da Copa também se estendeu à economia, em um "jogo de especulação contra o país". Ela classificou como "lamentável" o comunicado do Santander.

Aécio disse que Dilma, ao afirmar que a crise é fruto de "especulações", comprova que o governo "perdeu a capacidade de inspirar credibilidade" na economia. "Essa avaliação negativa [da economia] está nos bancos, nas agências de risco, no Fundo Monetário Internacional", disse Aécio.

Dilma, Aécio e Eduardo Campos (PSB) participam nesta quarta (30), em Brasília, de sabatina organizada pela Confederação Nacional da Indústria com os presidenciáveis.

Falcão descarta boicote a Santander em Estados e prefeituras do PT

• Presidente do partido, porém, não exclui possível reação do governo federal, como anunciou Dilma

Carolina Mandl, André Guilherme Vieira e Rodrigo Polito - Valor Econômico

SÃO PAULO e RIO - Um dia depois de a presidente Dilma Rousseff afirmar que tomaria uma atitude "bastante clara" em relação ao banco Santander, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse ontem ao Valor que "não há qualquer orientação do partido no sentido de promover boicote ou retaliação ao banco Santander, no âmbito dos governos municipais e estaduais administrados pela legenda". O presidente do partido não se manifestou sobre possível reação do governo federal, como apontara Dilma.

O banco espanhol enviou a clientes de alta renda, juntamente do extrato bancário, uma análise de investimento que relacionava eventual avanço da presidente nas pesquisas eleitorais e uma deterioração dos fundamentos macroeconômicos do país.

Ontem, a presidente e candidata à reeleição se silenciou sobre o caso, enquanto, no mercado, a forte repercussão política do episódio levou a uma atitude de preocupação e acautelamento em relação à forma como as recomendações de investimento serão produzidas e divulgadas a partir de agora.

"Vemos com alguma preocupação que algum trabalho técnico seja eventualmente assimilado como uma peça política", diz Reginaldo Ferreira Alexandre, presidente da Apimec Nacional, associação dos analistas. "Somos defensores da livre expressão desde que respeite limites éticos." Para o presidente da Apimec, faz parte da função do analista incorporar informações políticas a estudos. "A expectativa política é sempre importante na avaliação de ativos."

Para o sócio de um banco de investimento, é inegável que as casas de análise passem a redobrar seus cuidados na hora de fazer recomendações. "Numa economia sem tanta interferência do governo, o analista escreve à vontade. Aqui é diferente porque o setor bancário sofre interferência", diz ele. Para o executivo, a cautela deve se intensificar pelo fato de a presidente figurar como favorita à reeleição.

Isso não significa, porém, que corretoras e bancos vão deixar de incorporar o cenário político a suas projeções. "Tenho de fazer esse tipo de projeção. Não posso ser omisso para meus clientes em relação às eleições", afirma um chefe de análise de um banco.

Em uma corretora, analistas marcaram uma reunião e aguardavam orientações sobre como proceder em relação às leis eleitorais. Havia dúvidas sobre se terão de mudar a forma como os relatórios são produzidos. A avaliação interna é que a situação é preocupante especialmente para a cobertura de empresas que atuam em setores regulados e com um grande número de companhias estatais, como Petrobras e a Eletrobras.

As ações dessas empresas têm sido influenciadas pelas pesquisas eleitorais. Uma analista afirmava, porém, não estar mais segura se poderia associar as oscilações das ações às pesquisas de intenção de voto nos relatórios que escreve e que são enviados aos seus clientes. "Se eu não puder dizer isso, o que eu vou dizer então?"

Em uma grande consultoria, os analistas ouviram da direção que poderiam seguir traçando cenários atrelados à corrida eleitoral, mas foi reforçada a necessidade de submeter os relatórios aos chefes de setor antes da publicação.

Para a assessora do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Maria Aparecida Carneiro, se for um economista, o profissional do Santander que escreveu a análise "agrediu normas da profissão". O banco não esclareceu a formação do funcionário. Segundo Maria Aparecida, o funcionário desenhou um "cenário político-econômico-financeiro sem quaisquer dados". O caso pode tomar outras proporções caso o responsável pelo texto não seja um economista, pois nesse caso haveria exercício ilegal da profissão.

Procurada, a Comissão de Valores Mobiliários disse que a regulação da autarquia se destina à análise de valores mobiliários para investidores, "e assim, não se estende a recomendações em geral, como as do episódio mencionado".

Ontem, em evento no Rio de Janeiro, o presidente do conselho de administração do Santander, Emilio Botín, afirmou que já foram tomadas as medidas necessárias em relação ao informe.

"[O informe] É uma resposta de um analista. Não é uma resposta do banco Santander. Nós tomamos as medidas necessárias. O presidente do banco no Brasil [Jesús Zabalza] já comunicou as autoridades que ficamos muito chateados que isso tenha acontecido e já enviou uma carta à presidente Dilma", disse o executivo, demonstrando irritação com o tema. O executivo participou de um encontro de 1.200 reitores de universidades, sem a presença de representantes do governo federal.

Entre as medidas tomadas pelo banco, o Valor apurou que o Santander dispensou ao menos dois funcionários responsabilizados pelo episódio. O trabalhador que escreveu o texto e seu superior responsável por aprovar o conteúdo que fazia parte do extrato. Ambos trabalhavam no segmento Select, criado em abril de 2013, com um investimento de R$ 150 milhões, para atender clientes com mais de R$ 10 mil de renda mensal.

Durante o evento, Botin falou da saída de um funcionário. "A pessoa que se demitiu se demitiu porque o banco falou que ela tinha que se demitir porque fez uma coisa errada."

Segundo uma pessoa a par do assunto, o banco avaliou que os funcionários exorbitaram suas funções, porque não deveriam fazer análise de investimento. O texto, segundo essa pessoa, não refletia posição do departamento de pesquisa do banco ou posição institucional. O texto dos extratos era enviado a clientes sem passar por outra área do banco, procedimento que agora mudará, para se ampliar o controle.

No campo político, o único caso de encerramento de convênio com o Santander ocorreu em Osasco, município da Grande São Paulo, que prevê a arrecadação de R$ 1,9 milhão em taxas e tributos municipais até o final de 2014.

A secretaria de Finanças do município informou que a suspensão ocorreu após uma série de reclamações sobre os serviços iniciadas em 2013. A assessoria do prefeito Jorge Lapas nega que a rescisão tenha qualquer relação com o episódio envolvendo a presidente.

Por meio da assessoria de imprensa, o diretório estadual do PT em São Paulo reiterou a posição do presidente Emidio de Souza, de que não há nenhuma recomendação aos prefeitos para que rescindam contratos, convênios ou parcerias com o Santander.

As prefeituras de Santo André, Cubatão e São José dos Campos mantêm contratos com o Santander para a folha de pagamento de seus servidores. As administrações informaram que por enquanto não há intenção de interromper os contratos.

(Colaboraram Vanessa Adachi, Thais Folego, Claudia Facchini, Natalia Viri e Eduardo Campos, de São Paulo e Brasília)

Cacoete autoritário limita análises econômicas: O Globo - Editorial

Reação violenta de Dilma, PT e Lula à análise do Santander sobre pesquisas eleitorais lembra críticas à imprensa no mensalão e levará bancos a praticar a autocensura

Podia-se creditar apenas ao estado de nervos no núcleo da campanha da presidente Dilma a reação violenta dela, do seu partido e do ex-presidente Lula à análise feita para clientes preferenciais do banco Santander em que altas da Bovespa são relacionadas a pesquisas eleitorais negativas para o projeto da reeleição.

Para o PT, segundo seu presidente, Rui Falcão, tratou-se de "terrorismo eleitoral". A própria Dilma considerou "inadmissível para qualquer país", disse em sabatina na "Folha de S.Paulo", a interferência do mercado financeiro no processo eleitoral. Já Lula, em um evento na CUT, pediu a demissão da analista responsável pelo texto. Talvez seja o primeiro político de origem no sindicalismo a defender publicamente a demissão de um assalariado.

Mas a explicação para reação tão violenta não é conjuntural. O vozerio petista tem a ver com o cacoete autoritário de frações hegemônicas no partido contra a liberdade de expressão. Mesmo de departamentos de análise de instituições financeiras, as quais, daqui para frente, praticarão a autocensura, como foi obrigada a fazer a imprensa durante a ditadura militar. Talvez este seja o objetivo da resposta petista em uníssono.

A imprensa profissional conhece esta reação típica petista diante de informações que não agradem o partido. Foi assim no escândalo do mensalão, em cujo início o próprio presidente Lula pediu desculpas ao país. Logo depois, ele e partido passaram a negar o malfeito e a acusar a divulgação dos fatos como parte de um projeto "golpista". O Santander, grupo financeiro espanhol, sabe agora o que significa contrariar o PT. O presidente mundial do banco, Emilio Botín, por coincidência em viagem ao Brasil, acompanha de perto a pedagógica experiência.

Para azar do banco espanhol, no Brasil, em que o Estado tem grande ingerência na economia, o setor financeiro é particularmente vulnerável à ação regulatória dos governos. A mudança de uma resolução do Banco Central, numa penada, pode produzir milhões: em lucros ou prejuízos.

Entende-se, portanto, que mesmo campanhas publicitárias de grandes conglomerados financeiros privados reproduzam um certo ufanismo nacionalista típico da visão que o Planalto tem do país nesses tempos eleitorais. O que aconteceu na Copa do Mundo foi típico.

Em alguma medida, o Brasil de Dilma lembrou a Argentina de Cristina Kirchner. Lá, quando a economia estava subordinada ao truculento secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, escritórios de consultoria que divulgassem estimativas independentes da inflação eram punidos com pesadas multas. Moreno e Casa Rosada queriam impedir comparações com a inflação oficial, manipulada.

O Brasil, felizmente, devido a suas instituições, está muito distante da Argentina kirchnerista. Mas os governos têm cacoetes muito parecidos.

Discurso com verniz econômico

Paulo de Tarso Lyra – Correio Braziliense

Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) tentarão convencer, hoje, os principais empresários do país de que os respectivos projetos de governo são viáveis para tirar o Brasil da paralisia econômica, com crescimento ínfimo do Produto Interno Bruto (PIB), inflação e juros elevados. Durante sabatina na Confederação Nacional da Indústria (CNI), os três principais postulantes ao Palácio do Planalto também buscarão passar uma imagem positiva, que sensibilize os empreendedores a abrir o bolso e ajudar a financiar as campanhas.

Atual titular do cargo, Dilma Rousseff deve, além de reforçar o respeito ao equilíbrio macroeconômico do país, defender que, no segundo mandato, será o momento de aumentar a competitividade no cenário internacional. No programa de governo apresentado na convenção do PT — e que será aprimorado com as sugestões de eleitores e de aliados —, a presidente afirmou que "a competitividade produtiva será atingida por meio do investimento e do consumo de massa, investimento em infraestrutura social e econômica e atenção às áreas de educação, ciência e tecnologia, construindo uma sociedade do conhecimento". Dilma, que esteve ontem em Caracas, na Venezuela, para uma reunião do Mercosul (leia mais na página 8), deve dar destaque a programas como o Pronatec e o Ciência sem Fronteiras.

No início da noite de ontem, Aécio se reuniu com o staff de campanha para planejar o que vai falar aos empresários. O tucano deve centrar o discurso no abandono do tripé macroeconômico — meta de inflação, superavit primário e câmbio flutuante — praticado pelo atual governo. Além disso, defenderá a meritocracia e a avaliação de desempenho na máquina pública.

Eduardo Campos também tem enfatizado que a presidente Dilma perdeu a capacidade de restabelecer o equilíbrio econômico do país. "Vamos mostrar que é preciso retornar a inflação para o centro da meta e reduzir a taxa de juros. Só assim poderemos retomar o crescimento econômico", disse o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral. "Além disso, ele socialista defenderá a necessidade de uma reforma tributária, encaminhada aos poucos ao Congresso e com prazo de implementação diferenciado para as medidas, dando tempo ao país para se acostumar", acrescentou Amaral.

Empresários sabatinam candidatos a presidente

• Cada um exporá seu programa e responderá a perguntas separadamente

- O Globo

BRASÍLIA- A Confederação Nacional da Indústria (CNI) faz hoje, a partir das 10h, sabatina sobre as prioridades do setor com os três candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas de intenção de votos. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) responderão, separadamente, perguntas feitas por empresários. Cada candidato terá meia hora para fazer uma apresentação de suas propostas e outra meia hora para responder a perguntas feitas por quatro empresários. E dez minutos para as considerações finais. Em seguida, o candidato decide se participa ou não de coletiva à imprensa.

De acordo com a assessoria da CNI, 12 empresários farão as perguntas aos candidatos, quatro para cada presidenciável. Os empresários foram selecionados de uma lista representativa da indústria, levando em conta diferentes setores, associações e empresas de grande porte. Segundo a CNI, o encontro intitulado "Diálogo da indústria com os candidatos à Presidência da República" reunirá no local cerca de 700 empresários.

O primeiro a falar será Eduardo Campos. No fim da manhã, será a vez do senador Aécio Neves. A presidente Dilma Rousseff será recebida a partir das 15h.

Aécio e Campos condenam ajuda de técnicos do governo a Dilma

• Para os dois, fim da reeleição daria fim à mistura de público e privado

Maria Lima – O Globo

BRASÍLIA - Os candidatos à Presidência da República, Aécio Neves (PSDB), Eduardo Campos (PSB) e Pastor Everaldo (PSC) reagiram ontem contra o uso de técnicos do governo federal pela campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff. Reportagem publicada ontem pelo GLOBO revelou que servidores da Receita Federal, do Tesouro e da estrutura dos ministérios da Fazenda e de Minas e Energia foram orientados a se prepararem para o debate eleitoral que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realiza hoje com os presidenciáveis. Aécio disse que a mistura do público com o privado pelo governo petista reforça sua convicção de que o instituto da reeleição, aprovado no governo Fernando Henrique Cardoso, tem que acabar.

Para o tucano, colocar técnicos do governo para trabalhar na campanha eleitoral é mais uma demonstração dos abusos já praticados pelos ministros, que antes só atuavam fora do horário do expediente, mas hoje fazem campanha "full time". Para Aécio, os "desatinos" praticados pelo PT nos últimos anos aconteceram porque "quem tinha que dar o exemplo", referindo-se à presidente Dilma, não deu.

- Isso só fortalece a tese do fim da reeleição. Se antes eu já tinha muitas dúvidas sobre a reeleição, esse tipo de ação do governo e do PT ajuda a desmoralizar o instituto da reeleição - criticou Aécio.

Pastor Everaldo reclama
Eduardo Campos também apontou o fim da reeleição como solução para evitar situações como o uso de técnicos do governo na campanha:

- É por isso que nós, eu e Marina, somos a favor da reforma política. Com eleição de cinco em cinco anos e sem reeleição, não aconteceriam essas ambiguidades.

O candidato do PSC, Pastor Everaldo, considerou um "abuso" o fato da presidente se utilizar de servidores ou de outro tipo de recursos públicos para benefício pessoal e eleitoral.

- Se a sociedade ou os órgãos de fiscalização eleitoral não reagirem a ilegalidades desse tipo, estaremos abrindo um precedente perigoso e transmitindo um péssimo exemplo à população - alertou Pastor Everaldo.

O presidenciável tucano disse que essa campanha será a mais judicializada da história justamente porque o PT não separa o público do privado nas campanhas eleitorais. Ele anunciou que o PSDB estuda entrar com ação jurídica contra o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que teria atuado junto com o advogado geral da União, Luiz Inácio Adams, para adiar a votação do parecer sobre Pasadena no Tribunal de Contas da União, para evitar desgaste da presidente Dilma durante a campanha.

- Isso é algo absolutamente grave - comentou Aécio.

O tucano chegou ontem a Brasília para se preparar para a sabatina na CNI. Ele disse que tem recebido informações muito positivas de todos os estados, e vai aproveitar a "onda" do exército de candidatos das eleições proporcionais que querem fazer santinhos com ele para "soltar" sua cara para o país inteiro. Disse que em Minas Gerais, por exemplo, já está 20 pontos à frente de Dilma em Belo Horizonte, e 15 pontos no estado, percentual que só esperava alcançar no fim da campanha.

Aécio voltou a afirmar que o episódio da construção do aeroporto em Cláudio, a seis quilômetros de terras da sua família, trata-se de "uma acusação leviana", e se recusou a dizer quantas vezes havia usado o aeroporto, por isso ser "irrelevante".

- Não vou ficar estendendo essa pauta. Nossa candidatura cresce e vamos continuar apresentando propostas para o Brasil. Cada um que faça seu julgamento. Eu estou pronto para isso - encerrou Aécio.

Mau humor na economia: O Estado de S. Paulo - Editorial

Se o mau humor do empresário prejudica o desempenho da economia, todos os brasileiros têm mais um forte motivo para se preocupar - no caso do governo, um motivo eleitoral. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu em julho pela sétima vez consecutiva e chegou ao menor nível desde abril de 2009, segundo informou ontem a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi mais uma confirmação de um estado de espírito dos mais sombrios. No dia 18, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) havia divulgado seu Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), também apurado em julho. Foi o menor valor da série iniciada em janeiro de 1999.

O leitor pode escolher a série de sua preferência. Estenderá a comparação até janeiro de 1999, momento de uma grave crise cambial, ou abril de 2009, quando o Brasil começava a sair de uma recessão iniciada no mundo rico, no ano anterior, com o estouro de uma bolha financeira. A escolha é livre, mas a conclusão é inescapável: depois de mais um semestre muito ruim, os dirigentes da indústria ainda esperam dificuldades até o fim do ano.

Com mais um semestre de estagnação, a presidente Dilma Rousseff completará quatro anos de um mandato desastroso para a atividade industrial. Segundo a última sondagem da FGV, o Índice de Confiança da Indústria caiu 3,2% de junho para julho e chegou a 84,4 pontos. Esse indicador varia de zero a 200 e valores acima de 100 apontam expectativa de melhoras. A média histórica dos últimos cinco anos é 105,2, na série com ajuste sazonal. Mas até o ligeiro otimismo apontado por esse número já sumiu há muito tempo. Em todos os meses desde agosto do ano passado o ICI ficou abaixo de 100.

Dois componentes entram na formação desse indicador: um Índice de Situação Atual (ISA) e um Índice de Expectativas (IE). O primeiro caiu de 90,1 pontos em junho para 85,8 em julho. O outro, já abaixo de 100 em julho do ano passado, recuou de 84,4 para 82,9 na apuração recém-divulgada.

"O resultado de julho acende uma luz amarela em relação ao terceiro trimestre", comentou o pesquisador Aloísio Campelo Jr., superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV. A demanda, segundo ele, continua sendo um entrave importante ao crescimento e foi o fator de maior peso para a piora da avaliação do quadro atual.

Ainda sobrou um leve sinal positivo, de 105,4 pontos, no quesito "tendência dos negócios nos próximos seis meses", mas esse componente também piorou, com queda de 7,6% em relação ao nível de junho. No conjunto, o Índice de Expectativas ficou na área negativa (82,9%), com redução de 16,35% desde julho do ano anterior, na série com ajuste sazonal.

As sondagens da FGV e da CNI sobre a confiança dos dirigentes de indústrias combinam com o cenário geral das projeções econômicas.

Na pesquisa Focus, realizada semanalmente no mercado pelo Banco Central (BC), a mediana das projeções de crescimento econômico chegou a 0,9% na sexta-feira passada. O mesmo levantamento apontou a expectativa de contração de 1,15% do produto industrial. Na última semana, a CNI publicou suas novas estimativas dos principais indicadores econômicos. O novo quadro inclui crescimento de apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB), expectativa pouco melhor que a apurada na pesquisa Focus, e contração de 0,5% do produto industrial. O Ministério do Planejamento cortou de 2,5% para 1,8% sua projeção de aumento do PIB.

O mau humor também chegou ao comércio. Em julho o indicador de confiança dos comerciantes da cidade de São Paulo passou para o terreno negativo. Caiu 2,5%, chegou a 98,6 pontos e ficou 5,4% abaixo do nível de julho de 2013. A informação foi divulgada ainda na terça-feira pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Inflação alta, vendas em queda e juros elevados são as causas principais do pessimismo, segundo a assessoria econômica da entidade. Como explicar a coincidência de tantas projeções ruins? Por suas declarações, a presidente Dilma Rousseff ainda se recusa a reconhecer uma economia emperrada e com problemas graves.

Malabarismo eleitoral: Folha de S. Paulo - Editorial

• Em sabatina, presidente Dilma Rousseff recorre a contorcionismos para comentar ações de seu governo no campo econômico

Se candidatos de oposição evitam anunciar as medidas impopulares que pretendem adotar a fim de mudar os rumos da economia brasileira, a presidente Dilma Rousseff (PT), buscando ser reconduzida ao cargo, faz malabarismo para defender uma gestão considerada ótima ou boa por somente um terço dos eleitores.

Foi assim na sabatina de que participou na segunda-feira, realizada no Palácio da Alvorada por esta Folha, pelo portal UOL, pelo SBT e pela rádio Jovem Pan. Seus principais adversários na disputa presidencial, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), foram entrevistados duas semanas atrás.

Ao comentar a situação econômica atual, Dilma afirmou haver "no Brasil um jogo de pessimismo inadmissível". Comparando as críticas dirigidas ao governo federal com as expectativas que antecederam a Copa do Mundo, disse ser muito grave esse tipo de "especulação contra o país".

O contorcionismo é evidente. Há, como as pesquisas de opinião mostram de forma exaustiva, pouca confiança em relação ao futuro próximo da economia. Não se trata de um "jogo", mas de pessimismo genuíno da população, decerto apreensiva com as mesmas condições observadas pelos analistas.

São reais, e não mera "especulação", os índices pífios de crescimento do país nos últimos anos, ou nos primeiros meses deste 2014. Os preços também avançam de forma concreta, algo que todos percebem em qualquer ida ao mercado.

Em levantamento feito pelo Datafolha semanas atrás, 58% dos entrevistados disseram esperar alta da inflação, ao passo que somente 8% apostaram na sua diminuição.

Não se restringiram à esfera econômica as tentativas de Dilma de dourar a pílula do governo. Ao mencionar as trocas no comando do Ministério dos Transportes, realizadas a pedido do PR --a quem cabe a pasta na coalizão governista--, a presidente afirmou não ter se sentido chantageada no caso.

Sua explicação, no entanto, desafia a lógica, assim como o próprio episódio. Paulo Sérgio Passos assumiu o ministério em 2011, após denúncias de corrupção na pasta. Em 2013, o PR pediu que César Borges ocupasse o cargo. Como ele teria deixado de representar os interesses da sigla, Passos retornou ao posto em junho deste ano.

Tendo os dois em alta conta, segundo afirma, Dilma Rousseff não vê problemas nesse emaranhado. Seria errado, insiste, se pusesse no cargo "uma pessoa na qual eu não confio e [que] não conheço".

Talvez o mantra venha a calhar em outubro deste ano, quando eleitores precisarão optar por candidatos cada vez mais escondidos sob o verniz da publicidade.

Erro do TCU livra Graça Foster de punição pelo caso Pasadena

• Presidente foi excluída da lista dos diretores que causaram prejuízo

Eduardo Bresciani – O Globo

BRASÍLIA - Um erro do Tribunal de Contas da União (TCU) deixou de fora da relação de diretores da Petrobras responsáveis pelo prejuízo com a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, a atual presidente da estatal, Graça Foster. O órgão de controle responsabilizou em lugar de Graça um ex-diretor que já tinha deixado a companhia quando foi tomada uma das decisões sobre Pasadena consideradas irregulares. A troca poupou a presidente da Petrobras de ter os bens declarados indisponíveis por um ano, medida adotada em relação aos outros responsáveis.

Ildo Sauer e Nestor Cerveró foram citados no acórdão e condenados a responder por US$ 92,3 milhões de prejuízo pela decisão tomada em 2009 pela diretoria executiva de descumprir a sentença arbitral que obrigava a Petrobras a comprar a segunda metade da refinaria nos EUA. Mas Sauer já tinha deixado a Petrobras em 2007, dois anos antes da decisão, e Cerveró fora transferido para a BR Distribuidora em 2008.

Compunham a diretoria em seus lugares Graça Foster e Jorge Luiz Zelada, esse último da área internacional da estatal.

TCU diz que poderá corrigir equívoco
Procurado ontem pelo GLOBO, o TCU afirmou que "se for constatado equívoco", ele será "devidamente corrigido por meio de nova decisão a ser proferida em plenário". Hoje, Zelada presta depoimento à CPI mista da Petrobras.

O ministro José Jorge, do TCU, relator do caso, destacou em seu voto, proferido na semana passada, que o descumprimento da sentença arbitral fez com que no fechamento do negócio, em 2012, a Petrobras tivesse que pagar US$ 92,3 milhões a mais. No acórdão, proposto por ele, e aprovado por unanimidade, são responsabilizados os integrantes da diretoria executiva que "a despeito de deterem informação acerca das prováveis consequências do não cumprimento da sentença arbitral, aprovaram proposição no sentido de que a Petrobras não cumprisse tempestivamente tal decisão".

Ao citar a composição da diretoria, no entanto, o acórdão lista os diretores de 2006, data da compra da primeira metade da refinaria. Além de Sauer e Cerveró, são responsabilizados nesse item o ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli e os ex-diretores Paulo Roberto Costa, Renato de Souza Duque e Guilherme Estrella. O então gerente jurídico da companhia, Carlos César Borromeu de Andrade, e os dirigentes da Petrobras América Gustavo Tardin Barbosa e Renato Tadeu Bertani também são citados.

O acórdão diz ainda que Cerveró foi o "autor do resumo executivo que propugnou por tal decisão". O parecer de Cerveró que é alvo de questionamento é o apresentado em 2006 na compra da primeira metade da refinaria, apontado pela presidente Dilma Rousseff, que dirigia o Conselho de Administração, como "técnica e juridicamente falho".

Os dois ex-diretores que não participaram da decisão de prolongar a disputa com a Astra respondem, entretanto, por outras causas do prejuízo. Sauer e Cerveró estavam na reunião de fevereiro de 2006 em que se decidiu pela compra da primeira metade da refinaria, o que causou prejuízo de US$ 580,4 milhões nos cálculos do tribunal. Cerveró é ainda citado por ter enviado à Astra uma carta de intenções de compra da segunda metade, em 2008, o que elevou o prejuízo em US$ 79,8 milhões nas contas do TCU.

O TCU abriu tomada de contas especial para avaliar a necessidade de devolução de US$ 792,3 milhões aos cofres da Petrobras devido ao prejuízo com a operação. Os conselheiros, entre eles Dilma, foram excluídos do rol de responsáveis. Procurada pelo GLOBO, a Petrobras não retornou até o fechamento da edição.

Aumento na conta de luz pode alcançar até 30% no próximo ano, estimam consultorias

- Zero Hora (RS)

Os reajustes nas tarifas de energia elétrica podem chegar a 30%, em média, no próximo ano, estimam consultorias e representantes do setor. O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Romeu Rufino, admitiu ontem que apenas os dois empréstimos às distribuidoras, calculados em R$ 17,7 bilhões, terão impacto de oito pontos percentuais no custo da energia em 2015. O índice será repassado ao consumidor em dois anos sucessivos. Porém, de acordo com Rufino, ainda não é possível projetar o aumento das contas de luz.

– Podemos dizer que o empréstimo terá impacto no reajuste dessa ordem de grandeza (oito pontos percentuais). Não estou com isso querendo dizer que o aumento no ano que vem será de 8%, pois o reajuste leva em consideração outros fatores – afirmou Rufino.

O início do repasse ao consumidor dependerá da data do reajuste tarifário anual de cada distribuidora.

Raimundo Santos: Democracia representativa e as eleições

Gramsci e o Brasil

A composição dos palanques eleitorais nos estados trouxe um quadro bem diversificado de coligações, candidaturas a governador e vice-governador, parlamentares e alinhamentos na disputa presidencial. O fato de não poucos destes apoios serem contraditórios não obscurece a existência dos partidos e grupos eleitorais nos estados. E, por meio de muitas articulações, várias correntes partidárias se deslocaram para Aécio Neves, candidato que vem reunindo boa parte do mundo político realmente existente no país, movimento ora mal visto como reprodução da velha política e aliança com o atraso conservador.

Até as convenções de junho, a eleição presidencial estava delineada pelas candidaturas de Dilma, Aécio e Eduardo Campos, e se resolveria no horário gratuito. Devido ao fato de seu tempo de TV e rádio ser quase o dobro do que dispõem os principais adversários, ainda não estava excluída a possibilidade de a presidente Dilma ganhar no primeiro turno. Mesmo com a terceira via da coligação PSB-REDE-PPS na marca dos 8% dos votos e os partidos pequenos ultrapassando os 6%, a polarização do “nós” e “eles” continuava sendo a aposta afortunada do establishment PT-governo e do ex-presidente Lula. Esse seria o cenário, a não ser que de um céu azul fatos novos viessem complicar a ordem das coisas.

A incongruência dos palanques estaduais não surpreende, pois estes se compõem de uma grande variedade de interesses, inclusive de descontentes com o querer dominar tudo do PT. A ideologia com que o PT e Lula reclamam para si missão histórica é estranha às referências ao conjuntural com que opera o pluralizado mundo partidário brasileiro.

A ativação eleitoral nesse terreno efetivo contribui para quebrar a linha imaginária da polarização PT vs. PSDB e favorece a diferenciação política entre o campo oposicionista e o bloco da candidatura de Dilma Rousseff sob domínio do PT, mesmo que da aliança participe um partido de grande tamanho e trajetória de luta pelas liberdades democráticas, como o PMDB.

Os principais líderes da parte do mundo político que hoje apoia a candidatura de Aécio Neves valorizam a democracia representativa e o Estado democrático de direito. No outro campo, o ex-presidente Lula, o PT e a presidente da República não aceitam, ao contrário de todo partido de esquerda democrática, o Estado democrático de direito sem reservas.

A pregação de Lula sobre a divisão da sociedade ao meio há anos estimula um clima de águas turvas e agora acelera a radicalização da propaganda eleitoral, a que serve o decreto sobre os conselhos da presidente Dilma. Este decreto será usado como material de campanha, visando colocar as oposições no outro lado, entre os “eles” contrários à participação popular. Entrementes, cada vez mais se revela a visão intelectual anacrônica e simplificadora da nossa formação social, de elevada diversificação e vida política complexa — a visão com que Lula e o PT se apresentam como demiurgos das mudanças no país acima da vida partidária e política (o “nunca antes neste país”, do ex-presidente Lula).

O tema da democracia representativa como meio para as mudanças e aperfeiçoamento da sociedade, sob constante dúvida durante toda a Era Lula, permeia estas eleições, esperando vir à superfície da campanha eleitoral com mais nitidez. Teria de ser trazido pelas candidaturas oposicionistas e seus partidos coligados, principalmente se a candidatura de Aécio decidir desencadear discussão sobre esta questão incontornável. 

Diante da possibilidade, ainda real, de mais um governo hegemonizado pelo PT e pelo ex-presidente Lula, que não têm compromisso com a democracia politica e mostram resistência à alternância na Presidência da República, a defesa da democracia representativa em si passa ao primeiro plano, como já ocorreu em nossa história politica, especialmente na circunstância do pós-64.

Aliás, o regime de 1964 não acreditava que a resistência na esfera política, na cultural, na social e em outros níveis da vida nacional pudesse derrotá-lo por meios pacíficos, dando passagem a uma transição que iria ter seu ponto alto na Constituição de 1988, que, como já se disse, concretiza a revolução democrática no Brasil.
Um grande número de analistas observa que o processo eleitoral transcorre paralelamente aos movimentos mais profundos da sociedade registrados pelos protestos de junho do ano passado. Os jovens questionaram os onze anos da Era Lula (qualidade dos serviços públicos, corrupção, cooptação), puseram em grande relevo a crise do Congresso e o distanciamento em que os partidos se encontram dos processos não institucionalizados de formação de opinião política.

Esse diagnóstico juvenil das questões centrais da circunstância — demandas sociais, melhoria da atividade parlamentar e dos partidos —, mais a questão econômica trouxeram tanto a questão da natureza conjuntural e sustentável das soluções, como a discussão sobre o exercício da política com a missão que lhe reconhece Jürgen Habermas (“A política [...] e não o capitalismo é responsável pela orientação do bem comum”; cf. Sobre a constituição da Europa, São Paulo, Unesp, 2012), como é próprio das sociedades complexas e democráticas.

É do mesmo filósofo alemão a tentativa convincente de reconstrução do projeto político democrático para o nosso tempo. Trata-se, assim explica Juan Carlos Velasco Arroyo ao comentar sua teoria da democracia deliberativa, de um projeto concebido “em e desde o horizonte ineliminável da única democracia realmente existente: a democracia liberal”, no qual Habermas ambiciona “harmonizar o elemento democrático e o liberal da modernidade política” (cf. “Orientar la acción. La significación política de la obra de Habermas”, introdução a J. Habermas La inclusión del otro. Estudios de teoria politica, Barcelona/B. Aires, Paidós, 1999).

Anota ainda Velasco Arroyo que do modelo habermasiano de política deliberativa (“possível tradução no âmbito da política da teoria da ação comunicativa”) “deriva um horizonte politico de caráter reformista que responde à necessidade de ampliar o marco formal da democracia representativa: se trataria tanto de aprofundar os elementos de participação cidadã já existentes por meio do fomento de uma cultura política ativa, como de assegurar conteúdos materiais de caráter distributivo estabelecidos pelo estado de bem-estar com o fim de neutralizar as indesejáveis consequências não igualitárias da economia de mercado” (ibid., p. 16-7).

Neste sentido, o processo eleitoral segue sem que o norte político programático do próximo governo proposto pelos principais candidatos da oposição tenha visibilidade. Mas não está excluída a possibilidade de a eleição presidencial se configurar aos olhos do eleitor como momento disponível para a transição da Era Lula a um difícil tempo novo. E que o candidato oposicionista que passe ao segundo turno venha a mostrar perfil comprometido com encaminhamentos democrático-institucionais dos problemas nacionais e habilidade para a conciliação no campo da política e o exercício de função pacificadora das tensões e conflitos crescentes em razão do esgarçamento da vida nacional em curso. O pressuposto seguro de um governo desse tipo se encontra na democracia representativa.
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Raimundo Santos é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Merval Pereira: Nacionalismo canhestro

- O Globo

De duas, uma: ou há uma conspiração internacional contra o Brasil, ou o governo brasileiro está flertando perigosamente com o perigo, alheio às advertências que partem de todos os lados sobre as fragilidades de nossa economia. Ontem, foi o Fundo Monetário Internacional (FMI) que colocou o país entre as cinco economias mais vulneráveis do mundo, ao lado de Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul.

Também a agência de classificação Moody"s divulgou um relatório no qual afirma que a Petrobras é, entre as empresas petrolíferas da América Latina, a que corre o maior risco financeiro porque está sendo usada politicamente para segurar a inflação com o represamento dos preços de combustíveis no país.

E o que respondem nossos dirigentes? Ao mesmo tempo em que vibram com a derrota política que impuseram ao banco espanhol Santander, tratam de declarar platitudes, à espera de que as coisas melhorem por si, sem demonstrar a menor intenção de fazer mudanças no rumo tomado. Ao contrário, consideram que não há o que mudar.

A única concessão feita pela presidente Dilma foi admitir que o ex-presidente Lula errou ao julgar que a crise financeira que estourou em 2008 chegaria ao Brasil como uma "marolinha". A presidente Dilma mais uma vez considera "inadmissível" o pessimismo em relação à economia brasileira, e compara-o ao pessimismo sobre a Copa no Brasil. Para Dilma, não há necessidade de mudanças. Ela nega que a inflação no país esteja "descontrolada".

Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o FMI comete o mesmo equívoco de outros organismos no passado, quando afirmaram que o Brasil estaria entre as cinco economias mais frágeis. Segundo o ministro, "ninguém mais falou nesse assunto e nada aconteceu". Para ele, uma instituição financeira respeitável não faria uma análise dessas. Pois foi a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, que comentou ontem o relatório sobre o Brasil, reiterando que há 15 meses o FMI vem repisando "as mesmas fortes recomendações para que reformas estruturais sejam feitas, gargalos sejam reduzidos na economia e que o potencial, a capacidade de o Brasil entregar crescimento seja liberada. E isso não vem sendo feito".

Lagarde repetiu que o receituário para superar os obstáculos, é único: reformas estruturais, conserto dos problemas macroeconômicos como inflação alta, déficits em contas externas, desequilíbrios fiscais. A previsão do FMI é a de que o país será afetado duramente pela retirada de estímulos e pelo aumento de juros, especialmente nos Estados Unidos, se os emergentes continuarem crescendo abaixo do esperado, como ocorre há três anos.

A queda dos preços das commodities é outro fator que pode complicar a vida dos emergentes, alerta o FMI. Já a agência Moodys destaca que a estatal irá enfrentar também "riscos políticos substanciais", pois está "cerceada pelas políticas de preços para gasolina e óleo diesel". A Moody"s ressalta ainda que o cenário macroeconômico do país tem "desacelerado" desde a crise de 2009. A expectativa da agência é de crescimento de apenas 1,5% no PIB brasileiro, o que é uma previsão otimista, tendo em vista que a pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central, já está em 0,9%.

O tal mercado financeiro está cheio de dúvidas e de advertências à política econômica do governo brasileiro, e nossas autoridades brincam de um nacionalismo canhestro, como se mobilizar sindicatos e militantes políticos para demitir analistas de mercado e desmoralizar banqueiros internacionais fosse melhorar a situação de nossa economia.

Dora Kramer: Sem fantasia

- O Estado de S. Paulo

A ex-senadora Marina Silva foi precisa ao definir o que acabara de lhe contar o assessor sobre a expectativa de Edivaldo Manoel Sevino de receber "unzinho" em troca da cessão de sua casa em Osasco (SP) para funcionar como comitê eleitoral da campanha de Eduardo Campos.

"Esse é o padrão a que as pessoas estão acostumadas", disse a candidata a vice-presidente na chapa do PSB, já disposta a recusar a oferta da casa que pouco antes - quando ainda acreditava ser um gesto voluntário - a deixara "emocionada".

De fato, Edivaldo, conhecido como "Piauí", carregador em entreposto de mercadorias na capital de São Paulo, reagiu absolutamente dentro do modelo cultural vigente. Na política, embora não só nela.
Indagado por qual razão resolvera abrir a residência para funcionar como comitê ao molde das "Casas de Marina" de 2010 (agora "Casas de Eduardo e Marina") perguntou se poderia responder a verdade. Encorajado, foi em frente: esperava engordar o orçamento da família.

A questão do voluntariado como ação política não lhe passa pela cabeça. Políticos querem o voto e para isso precisam dar algo em troca. Promessas? As pessoas estão cansadas de ouvir. Portanto, convém não perder a chance que faturar "unzinho" quando ela aparece.

Inadmissível, como qualificou a ex-senadora? Sem dúvida. Fora do modelo das casas-comitê, como uma maneira de doação popular, e distante do conceito da renovação das práticas da política que prega sua campanha? Totalmente.

Mas quem foi mesmo que avisou aos Edivaldos que a coisa ali seria diferente? Aliás, quem os ensinou ou deu exemplos de como seriam as novas regras? Com certeza absoluta não foi nenhum dos candidatos à Presidência nem os partidos envolvidos na disputa.

Ao contrário. Tudo o que fizeram foi se jogarem num festim licencioso chamado por algumas autoridades de apelidos vulgares que andam sendo repetidos por aí para denominar a salada indigesta de legendas País afora, a fim de formar as tais "alianças estratégicas".

Deram-se os braços jacarés e cobras d'água sem o menor constrangimento em troca de minutos, às vezes segundos, no horário eleitoral. O governo federal trocou ministro e não hesitou em "destrocar" diretor indicado por partido (PTB) que desistiu na última hora do apoio à presidente.

Diante disso e dos "milhõezinhos" gastos nas campanhas eleitorais, o "unzinho" de Edivaldo "Piauí", francamente, mostra que na escola onde só tem catedrático ele é calouro no pré-primário.

Não obstante a inexperiência e a falta de traquejo, nosso personagem resumiu num só vocábulo a razão pela qual há tanta dificuldade, se não mesmo uma impossibilidade, de se fazer uma reforma política de verdade.

Sem querer, matou a charada: O Brasil é a República do "unzinho". Todo mundo quer levar o seu e isso não leva o País a nada.

Intimidação. "Eu vou ter uma atitude bastante clara em relação ao banco", disse a presidente Dilma Rousseff durante a sabatina conjunta da Folha de S.Paulo, rádio Jovem Pan, portal UOL e SBT, na própria declaração se contradizendo ao não ser clara sobre qual atitude pretende tomar.

O jogo é de nítida intimidação. Primeiro sobre as consultorias de análise de risco da economia. Se cederem ao desejo do Planalto que evidentemente é que não tracem seus cenários, mais exigências virão na tentativa de alcançar outros setores com base na ameaça do uso da mão pesada do Estado.
Indispensável, pois, que não se perca de vista o seguinte: não é o governo quem determina o que é proibido ou permitido. É a Constituição do Brasil.

No artigo 5.º assegura a liberdade de expressão e no 37.º exige da administração pública o cumprimento da legalidade, da impessoalidade, da transparência e da impessoalidade.

Fernando Rodrigues: Anomalias no caso Santander

Está quase tudo errado nesse episódio do Santander. Dilma Rousseff disse ser "lamentável" e "inadmissível" a análise que o banco espanhol enviou a seus clientes prevendo uma deterioração da economia se a petista se estabilizasse ou melhorasse sua posição nas pesquisas de intenção de voto.

É claro que há o direito sagrado à liberdade de expressão. Só que o próprio Santander parece ter uma visão oposta. Arrependeu-se, desculpou-se e demitiu o autor da análise anti-Dilma. Como bem escreveu ontem Clóvis Rossi, "é o clássico modelo de atirar pedras e esconder a mão".

Numa democracia, um banco tem o direito de reclamar em público da política econômica do governo. Nos EUA é assim. Instituições financeiras volta e meia dão opiniões fortes contra a administração federal. Mas talvez nenhum banco ousaria apenas imprimir uma análise no extrato bancário de seus clientes na esperança de que tudo ficasse encoberto.

Aí chega-se à reação despropositada do governo. A presidente da República fez uma ameaça velada ao Santander. Dilma deu a entender que está para aplicar algum castigo. É uma atitude quase medieval. Em vez de reclamar, o governo do PT poderia se preocupar em regulamentar mais o setor. Diferentemente do que propagam os agentes do mercado, falta muito para a fauna financista se comportar de maneira civilizada.

Por exemplo, publicar, como nos EUA, os salários dos principais operadores de empresas com ações em Bolsas de Valores. A regra foi tentada, parou na Justiça e o governo nunca moveu uma palha para destravar o problema. Seria pedagógico saber quais são os vencimentos e os bônus anuais dessa turma do retismo.

Por fim, tem a oposição. Reclamam (com razão) de Dilma querer surfar no episódio. Só que os candidatos anti-PT nada falam sobre como aperfeiçoar as regras de comportamento e de transparência do mercado. Seria esperar demais.

Fernando Exman: A primeira presidente e o voto das mulheres

• Intenção de voto entre eleitoras caiu dez pontos em 2014

- Valor Econômico

Primeira presidente da República mulher, Dilma Rousseff enfrenta dificuldades entre o eleitorado feminino. A intenção de votos de Dilma junto a essa parcela da população caiu desde o início do ano. Sua rejeição é maior que a de seus adversários, mas a candidata à reeleição pelo PT já tem pronto um discurso para apresentar às mulheres. E aposta no início do programa eleitoral gratuito em rádio e televisão para evitar que as eleitoras brasileiras decidam votar na oposição.

A presidente iniciou 2014 com uma potencial votação de 44% entre as mulheres, segundo pesquisa feita pelo Datafolha em fevereiro. Cinco meses depois, de acordo com a sondagem mais recente feita pelo mesmo instituto, a intenção de votos de Dilma entre o eleitorado feminino caiu dez pontos percentuais, para 34%. Nesse mesmo período, o candidato do PSDB a presidente, Aécio Neves, subiu de 13% para 17%. Já Eduardo Campos (PSB) começou o ano com 8%, chegou a alcançar 10% e agora recuou para 7%. O mais curioso, porém, foi o aumento de eleitoras indecisas - um avanço de 9% para 17%.

O comportamento desse segmento da população é acompanhado de perto pelos comitês eleitorais. Afinal, hoje as mulheres são 52,13% dos 142.822.046 votantes. Além disso, são capazes de reproduzir um efeito multiplicador de votos entre seus familiares. Não à toa, Aécio e Campos buscam reforçar a imagem de que são "pais de família".

O crescimento do percentual de eleitoras que dizem não saber em quem votarão converge com a teoria de que as mulheres tendem a decidir seus candidatos mais tarde que os homens. A argumentação é fundamentada na hipótese de que a maior parte do eleitorado feminino costuma acessar o noticiário político cotidiano numa frequência menor. Suas decisões são em grande medida pautadas pelo potencial de os candidatos resolverem os problemas mais tangíveis de seu dia a dia e o de sua família, o que abarcaria temas como segurança, saúde, educação e o risco de desemprego.

O desempenho do governo em algumas dessas áreas é questionável. Segundo o mais recente balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), por exemplo, o governo contratou a construção de 8.294 creches e pré-escolas, das quais apenas 2.056 foram entregues. A ideia do Executivo é atender 1,6 milhão de crianças quando todas as creches forem concluídas.

Contudo, nos últimos meses Dilma demonstrou que já preparou o cardápio de realizações de sua administração a ser apresentado ao eleitorado feminino no período em que a campanha se intensificar. A presidente faz questão de destacar em discursos e programas oficiais de informação: 93% dos cartões para sacar os benefícios do Bolsa Família estão nas mãos de mulheres, a grande maioria das unidades do Minha Casa, Minha Vida está no nome da população feminina, 60% das matrículas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) foram feitas por mulheres, assim como há números expressivos de beneficiárias de desapropriações da reforma agrária, geração de empregos, ProUni, linhas de financiamentos estudantis, operações de crédito do programa Crescer para pequenos empreendedores e da aquisição de alimentos da agricultura familiar. Além de exigir ser chamada de "presidenta" como um símbolo de seu esforço para avançar nas questões de gênero, Dilma elevou o número de ministras no Executivo.

Tamanho esforço justifica-se pela avaliação de que as mulheres não votam automaticamente em candidatas do sexo feminino no sistema representativo brasileiro, como poderiam desejar integrantes do movimento feminista. A minguada presença de mulheres no Parlamento é prova disso. Na Câmara, a bancada feminina tem 46 integrantes no exercício do mandato, ou 8,9% do total. Entre os 81 senadores, esse percentual sobe para 12,3%, pois há dez senadoras na Casa. Tais índices de presença feminina no Congresso estão abaixo da média mundial (21,9%), do continente americano (25,9%) e são inferiores até que os níveis observados em países árabes (15,9%), segundo levantamento da União Interparlamentar (UIP), organização internacional que reúne legislativos de Estados do mundo todo.

No início da campanha presidencial de 2010, a então ex-chefe da Casa Civil do governo Lula e candidata do PT à Presidência gostava de contar uma história. Certa vez, narrava ela, um casal lhe abordou num aeroporto e a interlocutora pediu que dissesse à filha que "mulher pode" ser presidente. Era garantido: a militância petista sempre a ovacionava quando Dilma revelava que o nome da criança era Vitória, como se fosse uma profecia do que estava para ocorrer naquele pleito.

À época, as pesquisas de intenção de voto apontavam que a maior parte do voto feminino iria para José Serra (PSDB). Dilma era menos conhecida, mas conseguiu virar o jogo quando começou o horário eleitoral gratuito. Acabou se consolidando como favorita entre o eleitorado feminino às vésperas do primeiro e segundo turnos.

A aposta agora da coligação liderada pela presidente é a implementação do programa Casa da Mulher Brasileira, espaço que reunirá delegacias especializadas de atendimento à mulher, juizados, defensorias, promotorias, equipes de saúde e orientação profissional. Três unidades estão em construção em Brasília, Campo Grande e Vitória, as quais serão concluídas neste mandato. Outras 23 serão instaladas em capitais país afora. No total, o investimento previsto é de R$ 112 milhões neste ano e R$ 82,5 milhões em 2015.

Quando tomou posse, a presidente afirmou em discurso inaugural que assumia um "compromisso supremo" de "honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos". Se quiser voltar a discursar no Congresso Nacional no dia 1º de janeiro de 2015 - desta vez como presidente reeleita -, terá de convencer o eleitorado feminino de que é capaz de fazer mais nos próximos quatro anos.

Luiz Carlos Azedo: Apelou, perdeu!

• A radicalização é uma tentação para a presidente da República porque empolga os petistas, que se sentem acuados por causa do escândalo do mensalão. O PT vibra quando Dilma parte para cima

- Correio Braziliense

A maior celeuma na cúpula da campanha da presidente Dilma Rousseff é sobre como enfrentar a rejeição de 35% dos eleitores, que seria a origem da grande transferência de votos para os adversários na eventualidade de um segundo turno. Todas as pesquisas qualitativas feitas pelo marqueteiro João Santana apontam que a principal causa dessa rejeição — pasmem —, não seriam nem o PT nem a avaliação negativa do desempenho do governo, mas a antipatia da presidente da República.

Isso não significa que o "ódio ao PT", como gosta de dizer o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a chamada estagflação (baixo crescimento com alta da inflação) não estejam entre os grandes problemas que ameaçam inviabilizar a reeleição de Dilma. A questão é que Dilma precisa reduzir a rejeição para debater essas questões. E, diante da situação atual, será muito difícil encarar esse debate sem atacar os adversários, o que pode cristalizar e até aumentar a rejeição da presidente da República.

A aposta do marqueteiro de Dilma para sair da armadilha é aproveitar os quase 12 minutos de tempo de televisão à disposição da campanha para reconstruir a imagem da "Dilminha, paz e amor" que pautou a campanha de 2010. Naquela ocasião, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pleno exercício do cargo, é que atuou como algoz da oposição. Esse ponto de vista, porém, não é o mesmo de outros integrantes do estado-maior da campanha, inclusive o presidente do PT, Rui Falcão.

Disputa política
O episódio envolvendo o Palácio do Planalto e o ex-ministro Franklin Martins logo após a derrota de 7 x 1 do Brasil para a Alemanha ilustra o que seria o centro das divergências na campanha, mas foi apenas uma amostra grátis. Na ocasião, foi publicada uma nota no site Muda Mais que criticava duramente a CBF.

Como a Copa do Mundo não havia acabado, houve uma orientação da cozinha palaciana para que a nota fosse retirada do ar. Franklin não aceitou a diretiva. Para pôr fim ao conflito, por decisão de Dilma Rousseff, o site foi formalmente desvinculado da campanha no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foi preciso a intervenção do ex-presidente Lula para pôr um ponto final no assunto.

Há mais coisas entre o céu e a terra do que o avião presidencial — o confortável Aerolula. Esse embate é a ponta de um iceberg no comando da campanha de Dilma Rousseff, no qual estão em choque uma abordagem mais sociológica da eleição, na qual o marketing eleitoral é orientado pelas pesquisas qualitativas, e uma concepção política pautada pela lógica da radicalização da disputa política, cuja melhor tradução são os ataques do ex-presidente Lula à "elite branca".

Dilma fica dividida em relação à polêmica. O temperamento dela coincide com a estratégia de centrar a campanha eleitoral na suposta disputa entre dois projetos de país, confrontando os anos de governo tucano com os da gestão petista. Isso, porém, não resolve o problema da rejeição, que chegou ao limite, principalmente no Sudeste e no Sul do país. Caso não consiga reduzi-la, na avaliação do marqueteiro, a reeleição estará perdida.

A radicalização também é uma tentação para a presidente da República, porque empolga os petistas que se sentem acuados por causa do escândalo do mensalão. O PT vibra quando Dilma parte para cima dos adversários, como fez no segundo turno de 2010, nas vésperas da Copa e nesta semana, ao reagir às críticas do mercado financeiro — especialmente ao banco Santander —, por causa da condução da economia.

A imagem de "faxineira e gestora" que Dilma tentou emplacar no primeiro ano de governo foi desconstruída pelos fatos, principalmente por causa das alianças que fez para garantir o tempo de televisão e o desempenho à frente da economia, com intervenções diretas que não deram muito certo.

Diante disso, a estratégia de Santana é operar em duas esferas eleitorais: uma é a classe média, que está quase perdida, com uma campanha soft, prometendo mudanças de rota na gestão do país. Outra é o povão, que se descolou da presidente da República e do PT, para o qual a tática será explorar o medo da população de baixa renda, com o discurso de que programas de grande apelo, como o Bolsa Família, estão em risco em caso de vitória da oposição.

Em ambos os casos, não é uma estratégia nova e pode dar errado. A oposição já está vacinada com a apelação.