quarta-feira, 23 de maio de 2018

Merval Pereira: Camisa amarela

- O Globo

À medida que vai desmoronando a tese da esquerda de que a Operação Lava-Jato se dedica apenas a perseguir Lula, vão ficando cada vez mais patéticas as tentativas de criar fatos políticos que não se realizam. É verdade que Lula continua fazendo política de dentro da cadeia, e que o PT demonstra uma capacidade de agitação acima da dos demais partidos políticos brasileiros. Mas isso não quer dizer que os resultados positivos virão. Pelo menos não estão vindo. Lula continua liderando as pesquisas, mas o PT corre o risco de sucumbir devido à estratégia definida por Lula de não indicar seu substituto até o último momento.

Ontem, o ex-governador de Minas e ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo, condenado a 20 anos de prisão por peculato e lavagem dinheiro, em segunda instância, viu os esforços de sua defesa para protelar a decisão se esgotarem, e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) expediu o mandado de prisão.

O episódio ficou conhecido como o mensalão mineiro, numa demonstração da capacidade marqueteira do PT. Azeredo não deu mensalão a ninguém, seu caso é de peculato, isto é, usar o dinheiro público de maneira ilegal para financiar sua campanha eleitoral. O apelido de mensalão mineiro, ou tucano, só serviu para tornar situações distintas em semelhantes, no interesse do PT de dizer que todos os partidos roubam.

É verdade, a Operação Lava-Jato está demonstrando, mas o esquema petista de compra de apoio em troca de propinas geradas por obras superfaturadas em estatais, especialmente a Petrobras, é insuperável. E um ataque ao Estado democrático. Apenas o mentor dos dois “mensalões” é o mesmo, o publicitário Marcos Valério, que está devidamente encarcerado.

Vera Magalhães: Bolsonaro em mutação

- O Estado de S.Paulo

Versão quase paz e meio amor que o deputado esboça não parece consistente nem capaz de expandir seu eleitorado para além dos convertidos

Jair Bolsonaro é um candidato em fase de modulação do discurso e das ideias. E, como tal, parece tatear o terreno, desconfortável na nova pele. Entrevistei o deputado do PSL nesta terça-feira, para a rádio Jovem Pan.

Falta alguma peça quando se tiram da fórmula que explica o sucesso de Bolsonaro até aqui as declarações polêmicas e baseadas na autoridade e, principalmente, Lula e o PT como antípodas.

O deputado fala em adotar um programa liberal na economia, mas não detalha suas diretrizes. Diz que vai “conversar” com Paulo Guedes sempre que instado a aprofundar propostas para temas como privatizações e reformas.

Claramente procurando soar menos autoritário e mais humilde, Bolsonaro soa titubeante, quando não vazio.

Da mesma forma, com Lula preso e o PT fora do poder, fica claudicante uma perna importante de sua persona pública. Tanto que a promessa, feita à la Bolsonaro na véspera, mas relativizada por ele na entrevista como “figura de linguagem”, de incinerar esquerdistas da Educação com um lança-chamas, parece passadista diante do fato de que o governo não é mais petista e o MEC, sob comando do DEM, promoveu, por exemplo, a reforma do ensino médio.

Bolsonaro tem um público fiel e pouco suscetível a suas mudanças de discurso. No entanto, a versão quase paz e meio amor que ele esboça não parece consistente nem capaz de expandir seu eleitorado para além dos convertidos – que, por sua vez, devem estranhar sua nova fala mais moderada.

Rosângela Bittar: Por que Lula ainda é candidato

- Valor Econômico

Se houver desistência, anúncio fica para fim de agosto

O eleitor está distraído à espera da Copa, a situação é fluida. Não há movimento a se perceber no ranking eleitoral. Ninguém tem crescimento consolidado ou significativo nas pesquisas. Tudo pode ainda mudar, inclusive irromper na disputa um outsider arrebatador. Todos os candidatos já declarados estão estagnados. Ciro Gomes, o novo favorito se Lula for mesmo defenestrado, na perspectiva de aumentar seu eleitorado, há várias eleições estacionado entre 8 e 12%, pressiona pela renúncia do ex-presidente, já. Quer ver se seus índices se mexem com a herança lulista que as pesquisas lhe atribuem.

Já é consenso que até depois de conhecido o time campeão, o quadro político permanecerá inalterado, em compasso de espera. Até lá, não serão definidos apoios e alianças, a não ser que o candidato esteja muito fraco e o partido, sem perspectivas lá na frente, resolva garantir agora seu quinhão.

De que forma o PT poderia rifar um candidato que está em primeiro lugar, cuja situação só melhora à medida que o eleitor vai percebendo que não tem alternativa e que vence qualquer um no segundo turno?

A posição mais confortável no pano de fundo eleitoral é mesmo do PT. Lula se diz candidato, está em primeiro lugar nas pesquisas, ganha de qualquer um no segundo turno, e não precisa fazer nada para isso, basta dizer que mantém a candidatura apesar da condenação e da prisão. Portanto, as pressões de governadores petistas, que querem fazer alianças nos Estados, e dos candidatos a presidente, que querem logo saber quanto terão do espólio de Lula, não encontrarão correspondência no PT, que não vê vantagem na desistência agora.

Há realmente certo nervosismo dos candidatos e staff de campanha com a demora de Lula para renunciar à sua candidatura. Ao contrário dessa expectativa, o ex-presidente só reafirma que é candidato, escreve carta compromisso, manda recado e, mesmo dividido o partido, boa parte do PT segue o desejo do caudilho.

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, avisou explicitamente, em entrevista recente, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não pode, por iniciativa própria, vetar a candidatura do ex-presidente. É preciso uma provocação de fora.

Por outro lado, a interpretação do STF é que, pela lei, pessoas condenadas em segunda instância, como Lula, não podem disputar eleições.

Bruno Boghossian: Acordo com Valdemar pode dar musculatura a campanha de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Militar aceita jogar com cartas da política tradicional para obter apoio do PR

Abrigado em um partido nanico, Jair Bolsonaro (PSL) aceitou jogar com as cartas da política tradicional. O líder da corrida ao Planalto intensificou seus contatos com o PR do ex-deputado Valdemar Costa Neto em busca de musculatura partidária e tempo de TV para tornar sua candidatura mais competitiva.

Bolsonaro garante que não se sentou para negociar com o chefão do PR, condenado no mensalão por receber dinheiro para apoiar o governo Lula. Mas dois emissários do presidenciável do PSL estiveram com Valdemar na última semana para discutir uma possível aliança.

O acordo seduz o grupo do ex-capitão porque elevaria sua candidatura a um novo patamar, graças ao espaço do PR na televisão. Bolsonaro, nesse caso, pode ser convencido a amenizar seu discurso estridente contra a classe política e a corrupção.

Em um PSL mirrado, o presidenciável teria oito segundos em cada bloco da propaganda eleitoral —menos do que o folclórico Enéas teve na campanha de 1989. O PR pode catapultar esse tempo para 52 segundos. Bolsonaro ficaria atrás de boa parte de seus adversários, mas conseguiria chamar a atenção de mais eleitores.

Bernardo Mello Franco: O candidato do ‘Tem que manter isso, viu?’

- O Globo

Henrique Meirelles sempre sonhou em se aventurar numa corrida presidencial. Não imaginou que receberia um carro batido, com os pneus furados e na última posição do grid.

O primeiro desafio do ex-ministro é conseguir dar a largada. Seus maiores adversários estão no próprio MDB. Figurões do partido, como Renan Calheiros, prometem fazer de tudo para impedi-lo de entrar na pista. A sigla não lança candidato ao Planalto há 24 anos. Sua especialidade é outra: eleger parlamentares e vender apoio ao governo, seja quem for o presidente.

Se sobreviver à convenção partidária, em julho, Meirelles passará a enfrentar a sabotagem interna. Em 1989, o ex-PMDB abandonou Ulysses Guimarães à própria sorte. Em 1994, repetiu a dose com Orestes Quércia. Os dois tiveram desempenho de nanicos, com menos de 5% dos votos.

Ricardo Noblat: Bolsonaro com pinta de Fernando Collor,

- Blog do Noblat

Por ora, ele corre atrás de tempo de propaganda no rádio e na televisão

O deputado Jair Bolsonaro (PSL), segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto para presidente da República, está ficando cada vez mais parecido com o candidato Fernando Collor de 1989, eleito presidente e cuja história já foi contada e recontada muitas vezes.

Collor venceu dizendo que não era político, embora tivesse governado Alagoas, sido prefeito de Maceió e deputado federal. Bolsonaro faz questão de dizer que político não é. Deputado federal há 21 anos, já foi do PSC, PP, PFL, PTB, PPB, PPR, PP e PDC.

Collor dizia-se contra “tudo isso que está aí”. Bolsonaro tem o mesmo discurso. Por ser contra tudo e contra todos, Collor batia à esquerda e à direita. Bolsonaro tenta fazer a mesma coisa, embora procure poupar a direita porque no extremo dela é ele quem está.

Collor refugava apoio dos políticos em geral. Queria distância deles, mas os procurava ou por eles era procurado às escondidas, e a eles se aliava. É o que Bolsonaro começa a fazer, também a salvo dos holofotes e por meio de emissários quando conveniente.

Elio Gaspari: O TCU poderá abrir a caixa da OAB

- O Globo

A entidade se mete em tudo, vive de cobrança compulsória, não mostra suas contas e preserva a eleição indireta

A notícia é boa, resta saber se vai adiante. A repórter Daniela Lima revelou que o Tribunal de Contas da União pretende abrir a caixa-preta do cofre da Ordem dos Advogados do Brasil. Estima-se que ele movimente a cada ano R$ 1,3 bilhão. Cada advogado é obrigado a pagar cerca de R$ 1 mil em São Paulo e no Rio, e a administração do ervanário é mantida a sete chaves. Se isso fosse pouco, o presidente do Conselho da Ordem é eleito indiretamente. Em 2014, seu titular, o doutor Marcos Vinicius Coêlho, prometeu realizar um plebiscito entre os advogados para saber se eles preferiam uma escolha por voto direto. Disse também que colocaria as contas da OAB na internet. Prometeu, mas não fez.

A Ordem foi uma sacrossanta instituição, presidida no século passado por Raymundo Faoro. De lá para cá, tornou-se um cartório de franquias. Em 2015, na qualidade de presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o deputado Wadih Damus (PTRJ) condenou o instituto legal da colaboração dos réus da Lava-Jato: “Delação premiada não é pau de arara, mas é tortura.” Ele tem todo o direito de dizer isso como cidadão, mas uma ordem de advogados não tem nada a ver com isso. A OAB defendeu o financiamento público das campanhas eleitorais e meteu-se na discussão dos limites de velocidade no trânsito de São Paulo. Esses assuntos não são da sua esfera, como não o são do sindicato dos médicos, e disso resulta apenas uma barafunda. Cada advogado pode ter as ideias que quiser, mas nem a Ordem, nem suas seções estaduais, devem se meter em temas tão genéricos e controversos. Coroando as interferências divisivas da Ordem, ela defendeu a deposição de Dilma Rousseff.

Luiz Carlos Azedo: Os deuses e os mortos

- Correio Braziliense

O que não falta são candidatos a deuses e a mortos-vivos. Vicejam num ambiente de iniquidade social, desesperança, violência e crise ética. O país foi atropelado pela globalização e pela Operação Lava-Jato

Dirigido pelo moçambicano naturalizado brasileiro Ruy Guerra, Os deuses e os mortos é um ícone da fase “alegórica” do Cinema Novo, vencedor do festival de Brasília de 1970, numa abordagem barroca e tropicalista que retrata a violência no campo e o monopólio da política pelas oligarquias. Era uma época em que o regime militar estava no auge; parte da esquerda ainda acreditava que derrubaria o regime pegando em armas e que implantaria um “governo popular”. Era tudo um delírio, do “Brasil, ame ou deixe-o”, do general Garrastazu Médici, ao “Quem samba fica, quem não samba vai embora”, de Carlos Marighela.

Com fotografia excepcional de Dib Lufti e trilha sonora de Milton Nascimento, o filme tinha um elenco estrelado, a maioria viria a brilhar nas novelas da Globo: Othon Bastos (“O Homem”), Norma Bengell (“Soledade”), Rui Polanah (“Urbano”), Ítala Nandi (“Sereno”), Dina Sfat (“A Louca”), Nelson Xavier (“Valu”), Jorge Chaia (“Coronel Santana”), Vera Bocayuva (“Jura”), Fred Kleemann (“Homem de branco”), Vinícius Salvatore (“Cosme”), Mara Rúbia (“Prostituta”), Monsueto Menezes (“Meu Anjo”), Milton Nascimento (“Dim Dum”), Gilberto Sabóia (“Banqueiro”) e José Roberto Tavares (“Aurélio”).

O filme foi saudado pelo The New York Times como um “western tropical”, que misturava o japonês Akira Kurosawa com o italiano Sérgio Leone no sul da Bahia, tendo a temática do cacau na saga descrita por Jorge Amado como base do roteiro do próprio Guerra, Paulo José e Flávio Império. Ao lado do diretor, Sérgio Sanz fez uma edição fascinante. Audacioso no plano estético e político, a alegoria poética retratava de forma antropológica a vida nacional dos anos 1930, num ambiente rural que culturalmente permanecia o mesmo, mas, economicamente, já estava em mudança. Sua força vital e mágica parecia surgir do nada, como acontece hoje nas periferias e favelas. O protagonista é um personagem fantasmagórico, interpretado por Othon Bastos, ator de Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) e São Bernardo (1972).

O Homem Sem Nome (Othon Bastos), depois de levar sete balas no corpo e não morrer numa chacina, se intromete entre dois clãs de coronéis que lutam pelo poder, ou seja, pela terra e pelo cacau, em cenas memoráveis. A câmara de Dib Lufti, num determinado plano-sequência, percorre lentamente um grupo enorme de guerrilheiros, com armas, sentados nos degraus a toda a volta da praça principal da cidade, à espera do grande confronto. Na cena seguinte, um plano muito aberto mostra toda essa gente agonizando na praça ensanguentada. O Homem Sem Nome fracassa.

Vinicius Torres Freire: Esmola eleitoreira com a gasolina

- Folha de S. Paulo

Governo e Congresso jogam dinheiro fora para conseguir desconto de no máximo R$ 0,07

Sete centavos. É quanto pode baixar o preço da gasolina caso seja repassada para o consumidor a zeragem da Cide, imposto cobrado sobre combustíveis. No caso do diesel, cinco centavos.

Hum.

Esse desconto deve ser diluído na cadeia de distribuição. Se não sumir por aí, bastam uns três reajustes da Petrobras para que esses centavos escorram pelo ralo.

É no que vai dar a promessa dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do Senado, Eunício Oliveira (MDB), combinada com Michel Temer, adiantada no caso do diesel, “tentativa” na gasolina.

Zerando a Cide sobre todos os combustíveis, o governo federal vai perder cerca de R$ 4,1 bilhões em receita de impostos, em um ano. Estados e municípios, R$ 1,7 bilhão. É o custo do populismo.

GASOLINA TRIBUTADA
Em São Paulo, onde o preço da gasolina é menos salgado, o litro custava em média R$ 3,95 no começo de maio, segundo a ANP.

Cerca de 34% desse valor é imposto indireto (PIS/Cofins, Cide e ICMS), o equivalente a R$ 1,34.

No Rio, onde a gasolina é cara, o litro saía por R$ 4,70, em média, com 42% de imposto indireto, o equivalente a R$ 1,97. Por falar no assunto, o imposto sobre a gasolina é maior nos estados mais falidos: Rio, Minas e Rio Grande do Sul.

Míriam Leitão: Caminhão desgovernado

- O Globo

Nos primeiros minutos da reunião, na manhã de ontem, sobre o preço dos combustíveis, os ministros Moreira Franco e Eduardo Guardia avisaram que o governo nunca havia pensado em interferir na Petrobras. O dia terminou com Guardia informando que fechara um acordo com os presidentes do Congresso para reonerar a folha salarial e eliminar a Cide. Os caminhoneiros disseram que a greve continua.

Greve de caminhoneiro assusta por razões práticas e memória política. Elas sempre estiveram presentes em momentos de instabilidade de governos na América Latina. O caso emblemático é o do Chile de Salvador Allende. O atual governo brasileiro não poderia desprezar o sinal das estradas. Por erros antigos do nosso rodoviarismo, o Brasil é excessivamente vulnerável a uma paralisação de caminhões. Tudo se transporta por eles. Em países de grandes dimensões, o modal ferroviário há muito tempo foi implantado porque é mais econômico, lógico e sustentável. Por atrasos recentes na adoção de novas energias e novas tecnologias, os caminhões movidos a diesel são dominantes. A consequência prática disso é que combustível fóssil é carregado queimando-se combustível fóssil. E ontem à tarde o risco era de parar do aeroporto de Brasília aos ônibus do Rio.

O governo resistiu à tentação fácil de culpar a Petrobras pelos preços. O que sobra? Os impostos. O problema é que a tendência é mesmo de taxar mais os combustíveis fósseis, neste tempo de combate às emissões de gases de efeito estufa. Uma redução de tributos pura e simples poderia acabar provocando distorções, como já ocorreu no passado, com o produto menos poluente sendo mais taxado do que o fóssil.

De tarde, o deputado Rodrigo Maia anunciou pelo Twitter a solução encontrada com o governo, de que a Cide será zerada. E disse mais: “Eu e o presidente do Senado combinamos com o governo federal: os recursos da reoneração serão todos utilizados para reduzir o impacto do aumento do diesel.” No fim do dia, o ministro Guardia confirmou os detalhes desse acordo. Só será reduzida a Cide do diesel depois que o Congresso votar a reoneração e até 2020 nenhum setor terá o benefício da desoneração.

Monica De Bolle: Sempre o câmbio

- O Estado de S.Paulo

O câmbio, de fato, mata, e isso não é uma crítica ao regime de metas de inflação, como querem crer alguns

"A inflação aleija, mas o câmbio mata.” Não por acaso, a famosa frase de Mário Henrique Simonsen já foi citada incontáveis vezes, e é sempre lembrada quando há algum episódio de turbulência externa sacolejando os preços dos ativos de países emergentes. Nas últimas semanas vimos o derretimento de várias moedas em relação ao dólar, do peso argentino à lira turca, da rupia indiana ao real, do rublo à rupia da Indonésia.

Nenhum dos países afetados pelas fortes oscilações das taxas de câmbio em relação à moeda norte-americana tem mantido a fleuma. Todos adotaram algum tipo de intervenção, seja por meio de operações nos mercados de câmbio, seja por alterações na política monetária, seja por uma combinação de instrumentos. No Brasil, a decisão do Banco Central de manter a Selic em 6,50% e de intervir nos mercados tem sido chamada por alguns de “dominância cambial” da política monetária. O ponto é válido, mas a verdade é que o câmbio jamais deixou de ser variável das mais importantes na condução da política monetária, como bem dizia Simonsen.

Há vários aspectos que diferenciam países emergentes de países desenvolvidos, mas um dos mais importantes está no papel do câmbio, sobretudo do dólar. Tanto assim que quando turbulências nos atingem falamos em “alta do dólar”, não em desvalorização do real, embora sejam a mesma coisa. Para nós emergentes, o dólar é a moeda em que estão denominadas grande parte de nossas reservas internacionais, é a moeda que muitos países utilizam para constituir a poupança – caso de várias economias dolarizadas da América Latina como a Argentina, o Peru, a Bolívia – é a moeda em que empresas sediadas nesses países passaram a tomar cada vez mais empréstimos depois de crise de 2008, quando as taxas de juros em dólares ficaram ineditamente baixas.

Cristiano Romero: Estelionatos eleitorais

- Valor Econômico

Quem governa contra o que prometeu sofre forte rejeição no país

Uma das ilusões provocadas pela redemocratização do país, iniciada há 33 anos, foi a de que os períodos de instabilidade política e econômica, típicos de democracias frágeis, ficaram para trás depois da transição de poder ocorrida em 2003. Naquele ano, Fernando Henrique Cardoso passou a faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva, coroando processo de transição aparentemente civilizado e com baixa expectativa de ruptura em relação à nova administração, apesar da forte turbulência ocorrida durante a campanha.

É possível tirar lições do complexo processo político brasileiro. Uma delas é a de que estelionatos eleitorais - quando o candidato promete algo na campanha e depois de eleito faz o oposto - são punidos de maneira exemplar pelos eleitores. Os atuais candidatos devem saber disso porque o caso recente de Dilma Rousseff foi didático.

Desde 1989, o país teve sete eleições presidenciais e nove transições de poder. O descompasso entre pleitos e troca de presidentes se explica pelo fato de terem ocorrido dois processos de impeachment - de Fernando Collor, em 1992, e de Dilma, em 2016. Quando se analisa a coerência entre promessas de campanha e gestão, a tese de estelionato ganha força.

Em 1989, o Brasil vivia momento de enorme desesperança. Em cinco anos de retomada do poder pelos civis, três planos econômicos - Cruzado (1986), Bresser (1987) e Verão (1989) - fracassaram na tentativa de debelar a inflação crônica que assolava o país desde a década de 1970. A cada malogro, a inflação voltava mais forte. A primeira eleição direta desde 1960 se deu em meio a um ambiente econômico tão conturbado que ficou difícil para os eleitores escolher um candidato. Os brasileiros estavam fartos com duas coisas: inflação alta - que todos julgavam imbatível - e corrupção, que também parecia invencível.

Nesse cenário, esquerda e direita se fragmentaram, tornando ainda mais difícil a identificação de candidatos com propostas claras. Collor, um político tradicional, saiu do PMDB, criou quatro siglas de aluguel e montou campanha com discurso implacável contra a corrupção. Fez isso antes de todos os outros e ganhou a dianteira nas pesquisas. Seu alvo principal era o governo Sarney, alvejado por denúncias de malfeitoria - antes, tornou-se conhecido nacionalmente como o "caçador de marajás", o jovem governador que "combateu" os altos salários do funcionalismo em Alagoas.

Manifesto por união do centro mobiliza acadêmicos e políticos

Luiz Werneck Vianna, Bolívar Lamounier e Marcelo Madureira aderiram

Thais Bilenky | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Com adesões no universo acadêmico, o manifesto pela união do centro chamado de reformista e democrático será lançado na terça-feira (29), como reflexo de movimentos que até meses atrás eram impensáveis.

Segundo seu articulador, o deputado Marcus Pestana (MG), secretário-geral do PSDB, o manifesto colheu assinaturas que vão dos cientistas políticos Luiz Werneck Vianna e Bolívar Lamounier ao comediante Marcelo Madureira.

O documento tem o endosso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), dos ministros Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) e Raul Jungmann (PPS), entre outros.

Seu propósito, segundo os signatários, é unir candidaturas com afinidades programáticas e evitar uma fragmentação que ameace a sua viabilidade eleitoral. Ou, como foi assinalado no texto, o objetivo é "afastar um horizonte nebuloso de confrontação entre populismos radicais, autoritários e anacrônicos".

Sem citar nomes, o manifesto circunscreve a pré-candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) ao anotar que, à direita, se esboça o surgimento de um inédito movimento com claras inspirações antirrepublicanas e antidemocráticas".

Na outra ponta, critica, "à esquerda, uma visão anacrônica, que alimenta utopias regressivas de um socialismo autoritário e antidemocrático e de um Estado intervencionista e onipresente".

No plano teórico, os signatários se eximem de defender uma candidatura em particular. "Tenho a minha posição pessoal, mas esse movimento envolve gente de outros partidos e não é vinculado a nenhuma candidatura", afirmou Pestana.

O tucano prega a união em torno de Geraldo Alckmin (PSDB) para a evitar a repetição do desfecho da eleição de 1989, quando Mario Covas (PSDB) não foi para o segundo turno em razão da fragmentação de seu campo político.

Essa preocupação move outros agentes políticos no plano pragmático, provocando mudanças de atitudes como a do ex-governador paulista Alberto Goldman (PSDB), que se reuniu com o presidente Michel Temer (MDB) depois de anos sem contato direto.

Goldman defende que Temer articule uma união de partidos aliados em torno de Alckmin. Com a pré-candidatura de Henrique Meirelles pelo MDB, a pretensão encontra obstáculos imediatos, mas o quadro está longe de definido, segundo o tucano.

"Tem que ser quase que uma frente patriótica, que possa derrotar aqueles que fizeram muito mal ao país, sejam os militares, representados por Bolsonaro, seja o PT", afirmou.

Na segunda (21), Alckmin demonstrou simpatia ao manifesto. "Tem um número de candidatos muito grande e de candidatos que têm proximidade de propostas. A gente defende uma convergência democrática, que é boa para a eleição e boa para o futuro."

Com ex-ministro no páreo, Alckmin sugere fim das conversas sobre aliança

Por Fernando Taquari | Valor Econômico

SÃO PAULO - A oficialização da pré-candidatura presidencial do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB) encerra, ainda que temporariamente, as conversas com o PSDB em torno de uma aliança nacional. Assim reconheceu ontem o presidenciável tucano, o ex-governador Geraldo Alckmin.

"O que temos que fazer agora? Temos que conversar neste momento com quem não tem candidato", disse Alckmin após encontro, na capital paulista, com empresários do setor varejista. "Acho difícil em um quadro tão pluripartidário, como nós temos no Brasil, você ter uma candidatura única [do centro]", acrescentou o tucano de forma resignada.

Embora tenha descartado por ora a possibilidade de uma aliança com outros partidos que já apresentaram pré-candidatos ao Planalto, como o MDB, Alckmin deixou a porta aberta para um futuro acordo. "Acho sempre louvável você procurar fazer uma convergência democrática. Tem tempo", frisou.

De olho na eleição presidencial, o tucano tem negociações avançadas com PTB, PSD, PPS e PV. No PSDB existe ainda a expectativa de que uma eventual aliança com o DEM, que tem o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), como pré-candidato, possa trazer por tabela o apoio do PP, PR e Solidariedade.

Durante o almoço com os empresários do varejo, Alckmin foi questionado sobre o perfil ideal de seu vice. Para a plateia, disse que gostaria de ter uma mulher na chapa. Não revelou, contudo, quem poderia assumir esse papel. Aos jornalistas, ao fim da reunião, repetiu a preferência por uma mulher, sem entrar em detalhes, e acrescentando que a decisão ficará para julho.

Alvo de investigações do Ministério Público por suspeita de receber dinheiro de caixa dois em campanhas passadas, Alckmin rejeitou a ideia de que o pedido de prisão do ex-governador Eduardo Azeredo, condenado por crimes de lavagem e peculato no caso conhecido como 'mensalão tucano', comprometa o discurso ético do PSDB.

"Isso mostra que as instituições funcionam e que Justiça não é vermelha, azul, amarela ou verde", declarou. Em sua opinião, não há necessidade de a sigla tomar qualquer medida em relação ao correligionário, já que, segundo Alckmin, ele está afastada da vida partidária há quase 10 anos. "Partido grande no mundo inteiro pode ter desvio de conduta", disse o tucano.

Marina promete reforma tributária, mas diz que não é possível reduzir carga

Por Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - A pré-candidata do Rede à Presidência, Marina Silva, afirmou ontem que não poderá prometer reduzir a carga tributária do país, diante da crise fiscal do país, mas comprometeu-se a não elevá-la ao fazer ao fazer a reforma tributária. "Não dá mais para elevar tributos. Mas também não podemos dizer demagogicamente vamos reduzir tributos, com a situação fiscal que temos", afirmou a uma plateia de prefeitos e vereadores na Marcha dos Prefeitos em Brasília.

Segundo Marina, sua reforma tributária seria baseada em três princípios: descentralização dos recursos, não regressividade ("aqueles que ganham menos não podem pagar mais") e transparência sobre a arrecadação e o que é devolvido na forma de serviços públicos. Citou o Centro de Cidadania Fiscal como uma das fontes de sua proposta.

Ela defendeu o controle dos gastos do governo federal, mas criticou a emenda do teto de gastos porque, na sua avaliação, congelar os gastos federais por 20 anos "não é razoável", já que os serviços públicos não são de qualidade. O controle das despesas, disse, não precisaria de uma emenda à Constituição, mas poderia ocorrer anualmente na discussão do Orçamento. "Mesmo com escassez, não podemos abrir mão de determinadas políticas."

A redução do déficit fiscal e da dívida pública, disse Marina, ocorreria com a redução nas despesas, o combate à corrupção, mudanças na Previdência e enxugamento da máquina pública.

Já o ex-governador Ciro Gomes (PDT) afirmou, no mesmo evento, que tem um plano para zerar o déficit fiscal em 48 meses que inclui federalizar (e elevar) o imposto sobre heranças e instituir uma espécie de CPMF.

Para Ciro, o tributo sobre heranças "é ínfimo em relação ao resto do mundo" e hoje gira entre 4% e 8%. Ele seria aumentado e repartido com Estados e municípios. Outra medida, "ainda que transitória", seria taxar em 0,38% operações financeiras superiores a R$ 3 mil por mês - um dia antes, ele falou em valores acima de R$ 2 mil.

O pré-candidato do Podemos, Alvaro Dias, destacou, por sua vez, projetos que propôs para melhorar as finanças dos municípios e defendeu proibir desonerações do governo federal em impostos compartilhados com Estados e municípios. Afirmou que fará uma reforma tributária "progressiva", que tribute a renda mais que o consumo, e com isso reduzirá o déficit do país. Os debates dos prefeitos com os presidenciáveis seguem hoje.

PT discute indicação de vice para rodar país em nome de Lula

Governadores vão apresentar proposta em reunião com Gleisi

- Sérgio Roxo | O Globo


-SÃO PAULO- Os governadores do PT pretendem discutir hoje, em reunião com a presidente do partido, a senadora Gleisi Hoffmann, a necessidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicar um vice para compor a chapa e começar a percorrer o país falando em nome de Lula. A proposta seria uma forma de sepultar as especulações de que chefes dos Executivos estaduais defendem uma adesão à candidatura de Ciro Gomes (PDT).

Lula cumpre, desde o início de abril, pena de 12 anos e um mês de prisão em Curitiba. O ex-presidente foi condenado em segunda instância, no caso do tríplex do Guarujá, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o que, de acordo com a Lei da Ficha Limpa, o impede de ser candidato.

Gleisi convocou a reunião depois que o governador do Ceará, Camilo Santana, declarou publicamente que o melhor caminho seria apoiar Ciro na eleição de outubro. O partido tem cinco governadores (Acre, Bahia, Ceará, Minas Gerais e Piauí), mas nem todos devem participar do encontro de hoje.

Caso a proposta seja aceita, caberia a Lula escolher o seu vice. Os cotados para o posto são o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o ex-ministro Celso Amorim.

— Os governadores tem interesse nesse debate — afirma o governador do Acre, Tião Viana.

Neste momento, a escolha do vice não estaria atrelada necessariamente à substituição de Lula na urna.

Favorito neste momento para substituir Lula na cabeça de chapa se a Justiça Eleitoral confirmar a impugnação do petista, Haddad já está rondando o país. Na sexta-feira, esteve no Acre. Nesta semana irá ao Recife, onde se encontrará com governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), e à Paraíba, para falar com Ricardo Coutinho (PSB). Também está prevista uma visita ao governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

O objetivo oficial das conversas é buscar programas implantados nesses estados que possam ser replicados a nível nacional. Mas Haddad, que é coordenador do programa de governo de Lula, também tem sido um dos encarregados pelo ex-presidente para manter o diálogo com políticos de partidos que possam se tornar aliados. O PT ainda tenta viabilizar uma aliança com o PSB.

No próximo domingo, o partido deverá fazer atos em todas as cidades do país onde possui representação para reafirmar a candidatura de Lula. O plano é apresentar o registro no dia 15 de agosto e permitir que ele apareça como candidato no horário eleitoral, mesmo que continue preso. A expectativa é que a Justiça Eleitoral demore pelo menos, um mês para decidir a impugnação.

Presidenciáveis da oposição reagem à escolha de Meirelles no MDB; 'agenda antipovo', diz Ciro

Além do pré-candidato do PDT, Álvaro Dias e Marina Silva criticaram a decisão do partido

Felipe Frazão e Renan Truffi | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Pré-candidatos de oposição ao governo Michel Temer reagiram nesta terça-feira ao lançamento do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles como nome do MDB para disputar a Presidência da República. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) disse que Meirelles jogou fora sua biografia para suportar uma agenda governista “antipovo, antipobre e antinacional imposta por seu chefe”, em referência a Temer. O pré-candidato do Podemos, senador Álvaro Dias (PR), disse que Meirelles será julgado nas urnas no lugar de Temer.

As declarações foram dadas depois de participarem de sabatina na Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, organizada pela Confederação Nacional dos Municípios. Meirelles participa do evento na quarta-feira, 23. Em sua primeira entrevista ao Estado, na condição de pré-candidato, Meirelles classificara Ciro como um dos candidatos que poderiam levar o País à instabilidade e representava um risco de desmonte por prometer rever as reformas do governo emedebista.

“Eu eleito é a certeza de que vou revogar essa agenda antipovo, antipobre e antinacional. Por exemplo, será revogada a entrega do petróleo do pré-sal aos estrangeiros. Será revogada toda e qualquer tentativa de internacionalização da Embraer. Será proposta a revogação e substituída por uma nova regra mais moderna e minimamente séria essa selvageria que eles deram o nome de reforma trabalhista”, disse Ciro Gomes.

Os passos da política: Editorial | O Estado de S. Paulo

Os recém-formados grupos de renovação política estão ajustando suas expectativas para as próximas eleições, indica reportagem do Estado. O que antes parecia ser um caminho fácil, dada a rejeição da população aos políticos já estabelecidos, agora recebe uma avaliação mais realista. Na medida em que se aproxima a campanha eleitoral, torna-se evidente que não basta se apresentar na cena política como novidade para alcançar sucesso nas urnas. Quem almeja entrar na política tem um longo e árduo caminho para conquistar o voto do eleitorado – e isso não é necessariamente ruim.

Em setembro do ano passado, o movimento RenovaBr, que oferece bolsa de estudos para candidatos aos Legislativos federal e estaduais, estimava que poderia eleger entre 70 a 100 nomes. Atualmente, a expectativa é eleger 20% dos 131 bolsistas que concorrerão nas próximas eleições. No caso da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), um movimento de formação de lideranças políticas, falava-se em eleger de 60 a 80 deputados. Agora, o grupo não divulga projeções, para não criar falsas expectativas.

Há quem veja nas dificuldades encontradas pelos novos movimentos políticos uma confirmação dos defeitos do sistema eleitoral. Os políticos teriam conseguido, uma vez mais, dificultar a renovação política. O atual sistema tem muitas falhas, mas é equivocada a disjuntiva entre o novo e o velho na política, como se o País estivesse a presenciar uma luta entre o bem e o mal.

Nem todos os que se apresentam como novos na política são necessariamente bons. Há o novo autoritário, o demagógico, o que deseja implodir a política, o que não respeita a separação dos Poderes, o que tolera e até incentiva agressões às garantias individuais. Como é óbvio, as ideias ruins não são uma exclusividade de quem já exerceu mandato político. Tem muita gente que deseja estrear na política defendendo propostas profundamente equivocadas para o País.

É saudável para a democracia que haja filtros no sistema político. Logicamente, esses filtros não devem ser barreiras intransponíveis, a eliminar completamente a possibilidade de renovação. Mas sempre o caminho da política exigirá um aprendizado. Para uma efetiva contribuição ao País, os agentes políticos precisam ter mais do que boa intenção.

A insanidade de se repetir o mesmo erro nos combustíveis: Editorial | O Globo

Espera-se que a palavra do governo de que não intervirá nos preços seja mantida, porque a realidade tarifária tem a ver com a própria modernização da estatal

O Brasil tem extensa experiência na administração de preços de combustíveis, inexoravelmente dependentes do dólar, queiram ou não governantes, dada a ligação do petróleo e de toda a indústria com a moeda. Não é novidade que variações cambiais e da cotação internacional da matéria-prima podem se refletir nos postos de combustíveis e nos botijões de gás na forma de aumento ou redução de preços. Quando isso ocorre e encarece os produtos nas proximidades de eleições, o nervosismo entre os políticos é maior. E a tentação de intervir nos preços cresce. É o que costuma acontecer.

Tudo já foi visto no Brasil neste campo. Na ditadura militar, havia a “conta petróleo”, nada transparente, em que débitos e créditos à Petrobras eram supostamente registrados à medida que câmbio e cotações internacionais do barril oscilavam. Nunca se soube ao certo se a conta era mais superavitária ou deficitária. Mas é muito provável que o contribuinte, representado pelo Tesouro, tenha arcado com prejuízos, como sempre.

Debate envenenado: Editorial | Folha de S. Paulo

Projeto busca reduzir o período para o registro de agrotóxicos, mas parece imprudente

O nível da discussão na comissão especial da Câmara que examina um projeto lei sobre agrotóxicos se evidencia pela troca de insultos entre os deputados Valdir Colatto (MDB-SC) e Ivan Valente (PSOL-SP). “Safado”, atirou o primeiro; “vagabundo”, retorquiu o segundo.

O tema suscita paixões exacerbadas, já se vê, a começar pelo apelido de “Lei do Veneno” adotado por adversários do substitutivo de Luiz Nishimori (PR-PR). O texto proposto, cuja votação foi adiada para o dia 29, flexibiliza a aprovação de produtos no país e rebatiza-os como “defensivos fitossanitários”.

Qualquer que seja o nome, o registro deles depende hoje de uma decisão interministerial, envolvendo as pastas da Agricultura, da Saúde (Anvisa) e do Meio Ambiente (Ibama). Caso a nova norma venha a ser aprovada, todo o processo ficaria sob o controle da primeira.

Ao ministério estaria vinculada uma futura Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários. Aos órgãos de vigilância sanitária e de conservação ambiental, embora com assentos na CTNFito, seria na prática reservado um papel consultivo.

O texto em debate cria a figura do registro temporário, para o caso de defensivos que contem com licença de pelo menos três países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

BC vai manter política de estímulos monetários: Editorial | Valor Econômico

O Banco Central saiu a campo para fechar as brechas que a surpresa de manter a taxa de juros em 6,5% causou em sua reputação e tentar desfazer várias conclusões dos investidores sobre sua decisão. A rápida desvalorização do real, uma das razões para a mudança para pior no balanço de riscos, criou dúvidas sobre os próximos passos da política monetária e alargou ainda mais o fosso entre as taxas curtas e longas do mercado. A ata da reunião divulgada ontem deixou claro que "pode haver impactos do choque externo na economia brasileira", mas que "a política monetária não reagirá a esses impactos de forma automática".

Os investidores, diante da decisão do Banco Central, passaram a calcular que, prosseguindo a valorização do dólar, o que deve ocorrer, o próximo passo do BC seria antecipar bastante, para breve, um ciclo de alta de juros. A ata do Copom e a entrevista do presidente da instituição, Ilan Goldfajn, sepultam essa interpretação, ao afirmar que a conjuntura, de fraqueza da economia e inflação abaixo da meta, continua prescrevendo "política monetária estimulativa", com taxas de juros abaixo da taxa estrutural. Esta sinalização se manterá pelas próximas reuniões do Copom.

A mudança de atitude da autoridade monetária ocorreu em meio a uma forte pressão sobre o real, o que amalgamou dois problemas que poderiam ser tratados separadamente. A comunicação do BC antes da reunião do Copom foi praticamente unívoca na direção de mais uma redução da Selic e interrupção do ciclo de baixas. E a manutenção da Selic, passo imprevisto para a maioria dos investidores, uniu-se à desconfiança de que o BC estava sendo tíbio em suas intervenções no mercado de câmbio, ao deixar a desvalorização de importante magnitude correr solta por mais tempo do que o recomendável. No dia seguinte ao encontro do Copom a desvalorização do real se acelerou, até finalmente iniciar o movimento no caminho inverso depois do BC triplicar a oferta de contratos de swap cambial na segunda-feira.

Os comunistas e o golpe de 1964: Declaração de maio 1965 do PCB

A defesa das liberdades democráticas constitui o elo principal dessa luta. Inseparável de todas as demais reivindicações constitui, por isso mesmo, a mais ampla e mobilizadora, capaz de unificar e canalizar todos os movimentos reivindicatórios para a ampla frente de combate à ditadura

Declaração de maio 1965 do PCB

(Voz Operária, Suplemento Especial, Resolução Política do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro, maio de 1965)

Resolução Política do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro

O CC do Partido Comunista Brasileiro se reuniu no corrente mês de maio e, tomando por base o informe apresentado pela CE, fez uma análise da situação internacional, da situação nacional e da atividade do Partido, no período decorrido desde sua ultima reunião.

Assinala-se nesse período, com o acontecimento marcante, o golpe militar reacionário de 1 de abril do ano passado, com a conseqüente deposição do presidente João Goulart e a instauração, no País, de uma ditadura reacionária e entreguista. Interrompeu-se assim, o processo democrático em desenvolvimento. As forças patrióticas e democráticas e, em particular, o movimento operário e sua vanguarda – nosso Partido - sofreram sério revés. Modificou-se profundamente a situação política nacional.

As conclusões a que chegou o CC, após os debates, estão contidas na seguinte resolução:

1. As lutas do povo brasileiro desenvolvem-se num quadro de uma situação internacional caracterizada pelo fortalecimento das posições do socialismo, pelo Ascenso do movimento nacional-libertador e do movimento operário internacional, pelo crescimento das forças empenhadas na preservação e consolidação da paz mundial.

A política de paz realizada pela União Soviética e demais países socialistas, apoiada em seu avanço econômico, técnico e científico e inspirada no princípio da coexistência pacífica, penetra cada vez mais fundo na consciência de todos os povos. Desenvolve-se com vigor o movimento de emancipação nacional da Ásia, África e América Latina.

A conjuntura econômica dos países capitalistas mais desenvolvidos mantém-se, em geral, em ascenso. Aumenta o interesse, no campo capitalista, pela intensificação das relações econômicas com os países do campo socialista, o que amplia as condições objetivas da política de coexistência pacífica. Mas, simultaneamente, e em conseqüência também do continuado agravamento da crise geral do capitalismo, aguçam-se as contradições interimperialistas, que se manifestam especialmente na disputa de mercado e se refletem, com maior destaque, em posições assumidas pelo governo francês em sua política externa.

É nessa situação que o imperialismo, particularmente o norte-americano, intensifica suas atividades em diferentes regiões do mundo, empreendendo atos de agressão contra os povos que lutam pela libertação nacional. A situação internacional se agrava sensivelmente.

A intervenção no Congo por parte das forças ianques e belgas; a repressão da ditadura portuguesa às lutas do povo de Angola; a intervenção da Grã-Bretanha na Guiana Inglesa; as provocações da República Federal Alemã em torno de Berlim e a tentativa de organizar a Força Atômica Multilateral e criar um cinturão atômico nas fronteiras dos países socialistas – todas essas medidas constituem não apenas violações dos direitos dos povos, mas também novas ameaças à paz mundial.

Ante a firme resistência do povo do Vietnã do Sul, dirigido pela Frente Nacional de Libertação (Vietmin), o governo de Washington estende a sua agressão ao Laos e ao Camboja, bombardeia o território da República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte), ataca sua marinha mercante e de guerra. Para sufocar a luta do povo dominicano contra a reação e para defender os interesses dos monopólios ianques, desembarca tropas na República de São Domingos, utilizando a OEA para dar cobertura a essa monstruosa agressão.

A intensificação da agressividade do imperialismo norte americano expressa a orientação da chamada “doutrina Johnson” de esmagamento pela força dos movimentos democráticos e de libertação nacional. E tem também o objetivo de provocar guerras locais e limitadas, para impedir a distensão internacional, atendendo aos interesses dos círculos mais agressivos de Wall Stret e do Pentágono. Tais ações despertam, entretanto, os protestos e a revolta dos povos do mundo inteiro, inclusive do povo dos Estados Unidos. Contribuindo, assim, de um lado, para sério agravamento da situação internacional, concorrem de outro lado, para desmascarar cada vez mais o imperialismo norte-americano como opressor e explorador dos povos, como inimigo da paz, despertando novas forças para a luta em defesa dos povos oprimidos e contra as ameaças de nova guerra mundial.

Na América Latina, torna-se cada vez mais evidente o contraste entre a situação do povo cubano que, sob a direção de Fidel Castro, prossegue na construção vitoriosa da sociedade socialista, e a dos demais povos latino-americanos, que padecem sob a crescente exploração dos monopólios ianques. Aumenta a miséria das massas trabalhadoras, aguça-se a crise de estrutura e crescem as contradições entre as forças progressistas de cada país e os monopólios norte-americanos. Em alguns países como Venezuela, Colômbia, Guatemala e São Domingos, as lutas antiimperialistas tomam a forma de luta armada. Os Estados Unidos, prosseguindo, embora, na política da “Aliança para o Progresso”, que visa em parte à realização de reformas limitadas em benefício das burguesias locais, não vacilam em intervir diretamente pela força, ou provocar golpes reacionários e apoiar governos ditatoriais, para assegurar e consolidar seu domínio espoliador. De março de 1962 para cá em sete países – Argentina, Peru, Guatemala, Equador, São Domingos, Honduras e Bolívia - além do Brasil, foram dados golpes de Estado, sob a orientação e com apoio do governo de Washington.

Nada disso impede, entretanto, que os povos da América Latina continuem avançando no caminho da democracia e da emancipação nacional. Na Argentina, os comunistas reconquistaram o direito de organizar-se e propagar suas idéias. O governo do Chile estabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética e outros países socialistas. O México mantém relações com Cuba, apesar da resolução em contrário da OEA. Entre as amplas massas, cresce o ódio ao imperialismo ianque e a determinação de lutar contra a reação interna. Na medida em que se unam e lutem, na medida em que fortaleçam sua solidariedade e sua ação conjunta contra o inimigo comum, os povos latino americanos serão tão invencíveis como o heróico povo irmão de Cuba, glória e exemplo para toda a América Latina.

2 – No Brasil, com de 1 de abril, assenhorearam-se do poder os representantes das forças mais retrógradas e antinacionais: agentes do imperialismo norte-americano, latifúndios e grandes capitalistas ligados aos monopólios ianques. Constituiu-se uma ditadura militar, reacionária e entreguista, sendo o governo de fato exercido por um grupo de generais a serviço da Embaixada dos Estados Unidos.

A submissão do país aos interesses dos monopólios norte-americanos assume proporções jamais vistas. Foi praticamente abolida a lei que limitava a remessa de lucros para o exterior. Realizou-se a negociata da compra do acervo da Bond and Share. Duplicou-se o montante do “Acordo do Trigo” com os Estados Unidos. Facilita-se a importação de produtos agrícolas norte-americanos. Adotou-se uma política de minérios de acordo com as exigências da Hanna Mining Co. Foi assinado o “Acordo sobre Garantias de Investimentos Privados”, que concede privilégios aos interesses norte-americanos e constitui sério atentado à soberania nacional. Missão militar ianque faz o levantamento aerofotogramétrico de nosso território. A política econômica e financeira é ditada pelo FMI.

A ditadura leva à prática uma política de inteira dependência ao governo dos Estados Unidos. Rompe relações com Cuba. Serve de instrumento e porta voz do Departamento de Estado na OEA. Toma posições contra os povos que lutam contra o imperialismo na Ásia e na África. Apóia a tirania de Salazar. Solidariza-se com a agressão ianque à República Democrática do Vietnã e com o brutal atentado à soberania do povo de São Domingos. Permite, sob o pretexto da realização de experiências científicas, a construção de base para foguetes e armas nucleares em território nacional.

Após as violências e arbitrariedades resultantes da aplicação do Ato Institucional, inclusive a mutilação do Congresso Nacional e de Assembléias Estaduais, prosseguem os inquéritos policiais-militares, com o objetivo de perseguir, prender e torturar milhares de cidadãos, desde trabalhadores e jovens estudantes até professores, magistrados, escritores, artistas, jornalistas, militares, padres católicos, parlamentares, pessoas, enfim, de todas as classes e camadas sociais. Sindicatos de trabalhadores continuam sob intervenção. É aprovada uma lei contra o direito de greve. Impede-se o livre funcionamento da UNE e demais entidades estudantis.

Maiores sofrimentos e privações são impostos aos trabalhadores e a todo o povo. Elevam-se os impostos indiretos. Libera-se o preço dos produtos essenciais a alimentação popular. Nova lei do inquilinato determina a majoração dos aluguéis. Enquanto a carestia aumenta sem cessar, o reajustamento dos salários dos operários e dos vencimentos do funcionalismo público é contido em nível inferior ao da elevação dos preços. O salário mínimo subiu em apenas 57%, num período em que o custo de vida se elevou em mais de 90%. Aumenta o desemprego.

A política econômico financeira da ditadura também atinge os interesses da burguesia nacional, cada dia mais ameaçada pela concorrência imperialista. Reduzem-se as atividades comerciais e industriais. Acumulam-se os estoques nas fábricas. Cai a produção. As concordatas e falências aumentam em número e valor. Acentua-se o processo de desnacionalização da indústria brasileira.

A política da ditadura torna mais aguda as contradições que dividem a sociedade brasileira. Acentua-se a premência das reformas de estrutura.

Numa tentativa de ludibriar a Nação, a ditadura se mascara de reformista e chega a apresentar-se como revolucionária. Procura impingir como reforma agrária um “Estatuto da Terra” que, com exceção dos dispositivos limitadores da taxa de arrendamento – aliás, de difícil aplicação – não passa de um plano de colonização. Sua “reforma política” possui conteúdo nitidamente reacionário. Os projetos da Lei Eleitoral e de Estatuto dos Partidos Políticos visam de fato reduzir o número e impedir a organização de partidos políticos, transformam os partidos em organizações burocráticas subordinadas ao aparelho de Estado, ameaçam a representação proporcional, tornam praticamente impossível a representação das minorias. A exigência de maioria absoluta nas eleições para presidente da República e governadores de Estado golpeia o voto popular direto, transferindo para o Congresso e as Assembléias estaduais a escolha final dos eleitos.

Alberto Dines História de coragem e ética no jornalismo

Jornalista se destacou ao enfrentar censura e ao estimular e promover a crítica ao trabalho da imprensa

- O Globo

O jornalista, que enfrentou com coragem e criatividade a censura na ditadura militar, morreu em São Paulo. Ao longo de 63 anos, Alberto Dines teve uma das mais profícuas carreiras da imprensa brasileira, destacando-se principalmente pela coragem para driblar a censura na época da ditadura militar e, nas últimas décadas, pelo olhar crítico ao trabalho jornalístico. Profissional da “velha guarda” da imprensa, iniciou a carreira quando a televisão era incipiente no país e ainda se estava longe da criação da internet, mas soube como poucos fazer a própria transição para os meios eletrônicos.

O jornalista começou como crítico de cinema da revista “A Cena Muda”, em 1952, e também atuou na área de cultura na revista “Visão”. Passou à cobertura dos temas da política ainda no fim dos anos 1950, na revista “Manchete”. Passaria ainda pelos jornais “Última Hora”, “Diário da Noite” e “Tribuna da Imprensa”, e pela revista “Fatos e Fotos” antes de se tornar, em 1962, editor-chefe do “Jornal do Brasil”.

Permaneceu nesta função até 1973, período no qual foi responsável por edições que desafiaram a censura imposta pelo regime militar. Sua morte, ontem, ensejou a lembrança por amigos e admiradores de duas primeiras páginas do “Jornal do Brasil” que se tornaram exemplos até hoje citados em cursos de jornalismo. Em 14 de dezembro de 1968, dia seguinte à decretação do Ato Institucional Número 5, que endurecia a ditadura, uma pequena chamada no canto da primeira página se passava por informe meteorológico, e escapava da proibição de criticar o AI-5: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”.

Cinco anos mais tarde, em 12 de setembro de 1973, quando um golpe de Estado depôs o presidente chileno Salvador Allende, os censores do regime brasileiro proibiram que os jornais publicassem como manchete os acontecimentos de Santiago. A solução bolada por Dines foi editar uma insólita primeira página sem manchete, apenas com o texto de uma reportagem dando informações sobre a crise no Chile e o suicídio de Allende dentro do Palacio de la Moneda.

Marisa Monte e Cesária Evora: Mar Azul

Fernando Pessoa: Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

terça-feira, 22 de maio de 2018

Opinião do dia: Luiz Sérgio Henriques*

Contudo nas sociedades avançadas do Ocidente, mesmo sem ter inicialmente uma noção elaborada das formas da política, o movimento operário, apoiando-se numa leitura “revisionista” do legado do filósofo, acabou por ampliar significativamente a base de massas dos Estados liberais, enriquecendo-os com novas e poderosas figuras que vigoraram por todo o século passado, a exemplo dos sindicatos e dos partidos social-democratas. Essas figuras, entre outras, deram força e sentido às modernas democracias constitucionais, hoje sob ataque concentrado de autoritários de direita e de esquerda.

Houve quem afirmasse, em outra circunstância igualmente hiperideologizada, que Marx e o marxismo constituiriam o horizonte insuperável do nosso tempo, a base de uma futura civilização integral. Décadas se passaram, mudou a estrutura do mundo, ruiu a maioria dos regimes que diziam encarnar a doutrina do filósofo. Este, agora, parece readquirir o poder de inspirar uma visão do “presente como história”, contribuindo, sem exclusividade, para desbloquear a imaginação social. Mas há uma novidade: o horizonte insuperável do tempo só pode ser o Estado Democrático de Direito, que contém em si as regras – inclusive procedimentais – que devem ser plenamente assumidas por uma esquerda que saiba aprender, ou reaprender, a conjugar liberdade e igualdade.
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* Tradutor e ensaísta. É um dos organizadores das ‘Obras’ de Gramsci. “Karl Marx e nosso tempo”, O Estado de S. Paulo, 20/5/2018.

*Rubens Barbosa: Eleição na Venezuela

- O Estado de S.Paulo

O crescente isolamento do governo bolivariano agrava a crise política e socioeconômica do país

As eleições na Venezuela, controladas pelo regime autoritário de Caracas, como previsível, reconduziram Nicolás Maduro como presidente de um país cada vez mais isolado e mergulhado em terrível crise política, econômica e social. Muitos dos principais líderes oposicionistas estão presos e a oposição boicotou a eleição. O governo estimulou o voto dos eleitores com recompensa financeira e acesso a programas de bem-estar social. A participação de observadores internacionais independentes foi negada. Um militar que apoiou Hugo Chávez, Henri Falcón, estava até a véspera liderando com folga as pesquisas de opinião e contestou o resultado. Tudo indica que houve uma monumental fraude.

O crescente isolamento do governo bolivariano agrava a crise econômica, com a falta de alimentos e de medicamentos, com a queda do crescimento (menos 15%), com a espiral inflacionária (13.000%) e com ameaça de default na dívida externa (mais de US$ 160 bilhões). Mais de 1,5 milhão de pessoas saíram do país e se refugiaram nos países vizinhos.

As incertezas aumentaram em 2018. Do ângulo externo, os EUA mostram uma política mais assertiva, com o significativo aumento das sanções contra membros do governo de Caracas envolvidos em abusos contra os direitos humanos, ações antidemocráticas, tráfico de drogas e corrupção (bancos europeus revelaram que a cúpula chavista desviou mais de US$ 2,3 bilhões entre 1999 e 2013). Washington impediu o acesso da Venezuela a empréstimos de instituições financeiras americanas, dificultando as operações até mesmo de importações. Pedindo urgência aos países da região, a crise venezuelana foi o tema central da visita recente do secretário de Estado, Rex Tillerson, à América Latina. O presidente Donald Trump e Tillerson, contudo, passaram do limite ao ameaçarem invadir o país para mudar o regime e ao estimularem um golpe militar para resolver a questão da democracia. Notícias não confirmadas alertam para a possibilidade de a Venezuela tentar anexar pela força o território de Essequibo, na Guiana.

Do ponto de vista interno, o apoio das Força Armadas, de agentes de segurança e das milícias populares armadas, supervisionadas pelos assessores cubanos, foi reforçado pela declaração sobre eventual invasão externa e estímulo ao golpe militar. A ação política do partido oficial, com o apoio da Assembleia Nacional Constituinte, beneficiou-se com o enfraquecimento e divisão dos partidos de oposição. Nesse cenário, o poder político está preservado num regime autoritário de partido único com forte repressão interna a qualquer movimento de contestação.

Hélio Schwartsman: Maduro venceu a eleição?

- Folha de S. Paulo

Seria inédito ver triunfar nas urnas quem produziu tamanha ruína econômica e social

Nicolás Maduro conquistou seu segundo mandato? Ele diz que sim, com 54% dos votos. Mas boa parte dos venezuelanos e do mundo contesta.

Sob a administração do chavista, o PIB venezuelano experimentou uma contração de 32%, e a inflação deste ano deve bater em 12.000%. Serviços essenciais entraram em colapso. Há desabastecimento, regressão epidemiológica e fome. A violência está fora de controle. Legiões de venezuelanos estão fugindo do país.

Seria inédito ver triunfar nas urnas um dirigente que produziu tamanha ruína econômica e social. É mais do que verossímil, portanto, que o processo eleitoral tenha sido fraudado. Mas por que Maduro, que já há algum tempo é mais bem descrito como ditador do que como líder legítimo, se deu ao trabalho de fazer toda essa encenação eleitoral?

Acho que estamos aqui diante de um fraco da espécie, que é nosso gosto por realidades imaginárias. Quem desenvolve bem o conceito é o historiador israelense Yuval Harari. Para ele, uma das maiores maravilhas da linguagem é sua capacidade de criar coisas que só existem nas nossas cabeças, mas que, como todos creem nelas, se tornam reais.

O exemplo mais concreto é o do dinheiro. Mais de 90% da moeda em circulação não passa de registros contábeis digitais. Nessa mesma categoria entram direitos humanos, pessoas jurídicas, religiões, a ideia de nação etc.

Raymundo Costa: Marília de Lula

- Valor Econômico

A questão regional e a candidatura do PT para presidente

Lula começou a prestar atenção em Marília Arraes em agosto do ano passado, na sua última visita a Pernambuco, mas nunca imaginou que ela fosse tão longe. Vereadora pelo PT do Recife, neta do lendário Miguel Arraes - três vezes governador do estado, antes e depois do regime militar -, Marília é uma ameaça real à reeleição do governador Paulo Câmara (PSB). Nas pesquisas de opinião já aparece empatada tecnicamente com o ex-ministro Armando Monteiro (PTB), que esperava liderar a oposição na eleição de 7 de outubro. Marília, no entanto, pode não ser candidata, se vingar uma articulação nacional para juntar PT e PSB na eleição para a Presidência.

Marília duvida que o governador Paulo Câmara tenha cacife para levar o PSB a apoiar o PT na campanha ao Palácio do Planalto, embora Pernambuco seja a seção mais influente do partido, pois não disporia do mesmo carisma e influência de seu padrinho político, o ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo na campanha presidencial de 2014. Marília e Campos são primos, os dois netos de Arraes, mas já estavam afastados desde antes dela declarar que votaria em Dilma e não em Eduardo na eleição de 2014.

Segundo Marília, o governador tenta atrair o PT por puro oportunismo, pois quer o tempo de TV do partido e o ex-presidente Lula a seu lado - mesmo preso em Curitiba, ele mantém prestígio em sua terra natal. "Eles [o PSB] começaram a ficar desesperados para se aliar ao PT e, de quebra, retirar uma candidatura que vai para o segundo turno e ameaça o projeto de poder que eles têm no Estado".

Marília conta que as palavras de Lula em relação a sua candidatura sempre foram "de incentivo e de animação com a mobilização da militância do PT de Pernambuco". No último fim de semana ela reuniu cerca de 4 mil pessoas num ato de apoio a sua candidatura. No interior, Marília apresenta-se como a "candidata do Lula" - e Pernambuco e Bahia são os Estados que deram mais votos ao PT nas últimas eleições. Uma avaliação feita pelo PSDB baiano estima que Lula pode transferir até 80% dos votos que teve no Estado.

Merval Pereira: A verdadeira reforma

- O Globo

Há muitos pré-candidatos a presidente da República, tão diferentes entre si como Ciro Gomes do PDT e Geraldo Alckmin do PSDB, mas com pensamentos comuns no que se refere à economia, talvez uns com tintas mais carregadas que outros, mas todos convencidos de que é preciso usar o primeiro ano de mandato, ou até mesmo os primeiros seis meses, para realizar as reformas necessárias. As mesmas em que nos debatemos há anos: reforma previdenciária, tributária, mas, sobretudo, a fiscal, que garantirá o equilíbrio das contas públicas.

Sem equilíbrio fiscal não há como crescer, afirmam com a mesma convicção os economistas Mauro Benevides Filho, que trabalha para Ciro, quanto Pérsio Arida, coordenador do programa econômico de Alckmin. Não são diferentes dos que assessoram candidatos também distintos entre si como Marina Silva (André Lara Resende e Gianetti da Fonseca) e Bolsonaro (Paulo Guedes).

Uns acham que o equilíbrio fiscal é questão fundamental, mas não suficiente para o crescimento, mas mesmo Benevides, que está no campo da esquerda, discorda da tese, muito em voga entre os petistas, de que o problema fiscal se resolve com crescimento econômico.

Portanto, o teto de gastos tão polêmico será mantido em governos de diferentes tendências, com nuances. O candidato Ciro Gomes disse ontem na sabatina da Folha, UOL e SBT que é preciso ter “uma pedra no coração” para cortar gastos com a educação. Benevides tem declarado que o teto de gastos será flexibilizado para permitir investimentos e dinheiro para a saúde e a educação. Mas haverá cortes em outros setores, para equilibrar as contas.

Tanto ele quanto Pérsio Arida têm defendido em entrevistas mudanças na tributação, para cobrar dos ricos mais do que dos pobres. Privatização é uma palavra comum, mas, para Ciro Gomes, Petrobras e Eletrobras são intocáveis. A reforma da Previdência também encontra eco entre os economistas mais distantes entre si, mas com nuances.

Uma proposta comum, no entanto, é a capitalização privada para as aposentadorias acima de três salários mínimos. Assim como sabemos o que é preciso fazer para atingir o desenvolvimento econômico, não se sabe como enfrentar uma necessidade básica para realizar um programa de governo viável, a tal da governabilidade.