sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Opinião do dia: Luiz Werneck Vianna

IHU On-Line – Que cenários vislumbra para a disputa presidencial deste ano?

Luiz Werneck Vianna – A candidatura Alckmin é praticamente certa. Do lado do PT, fora essas especulações fantasistas do Lula ser candidato, teremos o Jaques Wagner, que é um candidato bastante palatável do PT. A candidatura de Meirelles vai depender da batalha política dele, se ele conseguir espaço. O governo, especialmente se a economia continuar a dar as respostas positivas que vem dando, vai ter um papel aí no sentido de indicar um candidato, que pode ser o Meirelles ou o Alckmin.

A hipótese da candidatura do Temer me parece muito fantasista. De outro lado, não vejo o Bolsonaro como alternativa, embora o tema dele esteja na ribalta, que é a segurança, a ordem, mas tenho a sensação de que a candidatura dele não decola. Existe a possibilidade de uma candidatura de um outsider. Ela existe, mas adivinhar quem seria não vale

-----------------------------------
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outras obras, “A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil” (Rio de Janeiro: Revan, 1997); “A judicialização da política e das relações sociais no Brasil” (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e “Democracia e os três poderes no Brasil” (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra “Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna,” organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012. Entrevista, IHU On-Line, 18/1/2017

Eliane Cantanhêde: Perdendo as estribeiras

- O Estado de S.Paulo

Gleisi convoca ‘gente’ a morrer por Lula, Bolsonaro come ‘gente’ à nossa custa

Em que mundo estão a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o deputado e presidenciável Jair Bolsonaro, quase PSL, que representam os dois polos das eleições de 2018 e estão perdendo as estribeiras?

Estridente integrante da tropa de choque do ex-presidente Lula, o líder das pesquisas, Gleisi disse ao site Poder360 que, “para prender Lula, vai ter de matar gente”.

E, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro, por ora principal concorrente de Lula, admitiu por que recebe o auxílio-moradia da Câmara, de R$ 4.253,00, se tem imóvel em Brasília: “Pra comer gente, tá?”.

Depois de defender, até internacionalmente, a ditadura agora sanguinária de Nicolás Maduro na Venezuela, Gleisi joga gasolina na fogueira e convoca petistas e agregados para incendiar o País no julgamento de Lula, dia 24, pelo TRF-4. Péssimo para o País e não ajuda Lula em nada.

Quem é a “gente matada” de Gleisi Hoffmann? E quem é a “gente comida” de Jair Bolsonaro? A gente que estuda, trabalha, rala na fila do ônibus e amarga o desemprego, ou produz, vende, sofre com a economia e se escandaliza com a política? Será que é essa gente que vive ou morre por Lula? E será que é essa gente que Bolsonaro “come” à custa de dinheiro público?

Merval Pereira: Argumento fraudulento

- O Globo

Um julgamento em que o único resultado aceito é a absolvição do réu não passa de uma fraude. A declarada disposição dos petistas, através de seus mais destacados membros, de considerar golpe a confirmação da condenação de Lula no julgamento do dia 24 do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre (TRF-4) é mais um passo para a confrontação, que seria apenas política se ficasse na retórica, e não passasse ao desrespeito a uma decisão judicial ou ao incitamento às “lutas de rua”, como fez o senador Lindbergh Farias.

Da mesma maneira que a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffman, disse que ao afirmar que para prender Lula teriam “que matar muita gente” estava usando “uma força de expressão”, também Lindbergh disse que ao chamar os militantes petistas para o “enfrentamento, as lutas de rua” estava se referindo ao “embate político”.

O juiz federal Marcelo Bretas, responsável pelos processos da Lava-Jato no Rio, criticou no Twitter o senador petista, classificando sua declaração de conclamação “de grupos de pessoas para atos de violência”. O uso, premeditado ou não, de palavras ou expressões marcadas por violência pode ser irresponsável ou malicioso, dependendo do entendimento de cada um, mas nunca um instrumento normal da política.

No caso de Lindbergh, ele afirma ainda que o PT e seus militantes não devem mesmo aceitar uma nova condenação de Lula, pois ele é inocente. Em uma democracia, não há maneira de não aceitar uma decisão da Justiça, e portanto o senador petista está sugerindo ações fora da lei, mesmo que essa não seja, como diz, sua intenção. A tentativa do PT de desqualificar a decisão dos juízes do TRF-4 é despropositada e necessariamente não democrática.

César Felício: As férias do outsider

- Valor Econômico

Huck é mais uma dúvida entre tantas desta eleição

Luciano Huck procura se afastar dos temporais deste verão, em todos os sentidos que o termo pode ter. O apresentador está em férias com a família, tendo como um de seus objetivos passar por um "detox digital". Não quer alimentar o debate a seu respeito e julga que está encerrada a polêmica aberta com sua participação no programa "Domingão do Faustão", no dia 7 de janeiro.

A dúvida sobre a sua participação ou não no cenário eleitoral perdurará por mais 78 dias, até 7 de abril, prazo final para a filiação partidária. Em um cenário com tantas incertezas, onde o primeiro e o segundo colocado nas pesquisas, cada um à sua maneira, parecem inviáveis; e ninguém se entusiasma com o restante da nominata, Huck é mais uma dúvida.

Ele já negou publicamente e em privado, mais de uma vez, que tenha qualquer projeto de participar das eleições presidenciais este ano, mas seus ouvintes, leitores e interlocutores têm seus motivos para não considerarem a negativa convincente. O apresentador não pretende fazer novos esclarecimentos por ora. Acredita que tudo já está dito ou escrito.

Huck não parece afastar totalmente de seu horizonte uma aventura eleitoral porque está sendo chamado para a arena, constantemente, por interlocutores do PSDB. Grosso modo, o apresentador é uma espécie de último recurso dos tucanos, caso o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin "não pegue no breu", como disse um deles.

A expressão "pegar no breu", hoje em desuso, tem uma origem sugestiva: breu, sinônimo de piche, era colocado no centro de mechas de balões de festa junina. O balão só subia quando o breu se inflamava. Se há algo curioso no comportamento dos tucanos é que, em vez de trabalharem para que o balão de Alckmin suba, eles se põem a examinar alternativas.

As insinuações de que o novo pode estar no ar, de que poderemos ter o advento de um fator disruptivo, tiveram início em uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na virada do ano, claramente reativa ao aumento da movimentação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para se tornar um presidenciável.

Reinaldo Azevedo: Lula e a hora dos histéricos

- Folha de S. Paulo

O antipetismo e o antilulismo se tornaram uma profissão de vigaristas. E das mais rentáveis

A histeria que toma conta da esquerda autoritária e da direita de chanchada com o julgamento, no dia 24, pelo TRF-4, do recurso de Lula tem só uma explicação: ele lidera as pesquisas de intenção de voto para a Presidência. Se o PT e seu líder maior vivessem vicissitudes ao menos semelhantes às de 2016, quem se importaria?

Os dois lados estão com medo.

Comecemos pelos "companheiros". Embora Lula tenha condições, caso não possa ser candidato, de pôr no segundo turno um ungido seu, é certo que a escolha recairia sobre alguém com um potencial de votos muito menor. Sem o líder máximo, a perda de musculatura do PT no Congresso tende a ser muito maior.

Se o ex-presidente, pessoalmente, demonstra uma espantosa resiliência, o mesmo não se verifica com o partido. Já conversei com pessoas que veem a legenda como "um bando de ladrões". Mas seu candidato à Presidência é... Lula! Até porque, emendam, "ninguém presta mesmo; todo mundo é igual!" E essa é a hora em que o petismo deveria ser grato, apesar de tudo, a Rodrigo Janot, Sergio Moro e Deltan Dallagnol.

A paúra da direita circense decorre do fato de que ela alimentou seus sectários com uma penca de estelionatos políticos, morais e existenciais. O antipetismo e o antilulismo se tornaram uma profissão de vigaristas. E das mais rentáveis. Se Lula vence a eleição, haverá uma horda em busca de emprego -em alguns casos, do primeiro emprego. A eventual vitória de um petista já lhes seria um desastre considerável.

"Ora, Reinaldo, seria uma tragédia para o país." Também acho! Mas tanto pior para quem alimentou as forças que, sob o pretexto de combater a corrupção, resolveram atacar fundamentos da própria democracia. Brandindo a bandeira da "nova política", chocaram o ovo do velho estatismo bocó, atrasado, reacionário, que é a seiva que alimenta o petismo.

Murillo de Aragão: A próxima fronteira

- Blog do Noblat

Em dezembro de 2017, mais de 11 milhões de brasileiros, entre 15 e 29 anos, não estavam estudando nem trabalhando. Essas pessoas representam um peso para suas famílias e para um país arcaico que, fora o fato de oferecer um sistema educacional de terceira categoria, reluta em enfrentar o desafio da Reforma Previdenciária.

Soma-se a esse quadro o desafio da eclosão da inteligência artificial, que, segundo o professor israelense de História Yuval Noah Harari, autor do best-seller “Sapiens”, vai desempregar e tornar não empregáveis milhões de trabalhadores.

Ora, se em países como os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul a questão preocupa, imagine no Brasil. Nosso país é pouco internacionalizado, mas altamente globalizado. E qual a importância disso para essa questão? Absorveremos o impacto das mudanças tecnológicas, como já fazemos com as redes sociais, a telefonia celular e o uso da internet, no entanto, essa absorção não resultará de imediato em inserção internacional no novo mundo.

Bruno Boghossian: Topa tudo?

- Folha de S. Paulo

A plateia gritou com um entusiasmo ensaiado o nome de Zélia Cardoso de Mello quando a ministra da Economia foi anunciada por Silvio Santos em um "Show de Calouros" de 1990. Escalada por Fernando Collor para justificar na TV o soluço da inflação, disse que parte do motivo era a variação de preços no exterior. "Isso também não é culpa nossa", defendeu-se.

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso foi ao "Topa Tudo por Dinheiro" para explicar como funcionava a URV (Unidade Real de Valor), criada antes da adoção do real. "O ministro da Fazenda foi ao auditório do Silvio Santos para comunicar o que queríamos fazer", explicou, anos depois, sem mencionar que era pré-candidato ao Palácio do Planalto.

Michel Temer decidiu que não precisava mandar o chefe de sua equipe econômica ao SBT, assim como Zélia e FHC, para falar de economia. Resolveu abraçar, ele mesmo, a defesa da impopular reforma da Previdência em troca de alguns minutos de exposição na TV aberta.

Sem ter encontrado um candidato competitivo e disposto a defender o governo na próxima eleição, o presidente deu início a um novo esforço para recuperar sua imagem.

Míriam Leitão: Choque entre forças

- O Globo

O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, deixou claro, em entrevista que me concedeu ontem, que discorda dos métodos do Ministério Público. Disse que a investigação sobre o presidente Temer deveria ter demorado mais. Reclamou do fato de que em torno de 190 investigações de políticos com foro estão sendo feitas diretamente pelo MP, quando deveriam estar na PF.

-Agente tem notícias dessas investigações dentro do MPF que nunca chegaram à PF. A gente diverge desse tipo de investigação porque acredita que a expertise quem tem é a Polícia Federal, a gente tem peritos criminais federais, toda uma capacidade de investigação maior do que o MPF, que tem outras atribuições. A gente tem um rol de atribuições diferente, especificamente investigativo.

Na entrevista ao meu programa na GloboNews, o diretor-geral da Polícia Federal disse que não se arrepende de ter dito que uma mala apenas não seria prova de corrupção, se referindo à mala de dinheiro recebida pelo deputado Rocha Loures. E acha que a frase tem que ser entendida em seu inteiro teor:

— A construção da frase que eu disse está mais do que correta. A investigação nunca ocorreu dentro da PF, ela corria dentro da PGR. Quinze dias foi o prazo que a PF teve em toda aquela investigação. Seriam várias malas ao longo de meses para que a gente confirmasse esse crime de corrupção. Era a maior investigação do país. Nunca na história desse país se havia investigado um presidente que estava trabalhando e cometendo crime de corrupção. Operação controlada é uma expertise da Polícia Federal.

Fernando Dantas: Dois Brasis em combate

- O Estado de S.Paulo

Para Lisboa, embate entre interesse difuso e interesses especiais se dá o tempo todo

Para o economista Marcos Lisboa, presidente do grupo universitário Insper, o debate que importa para o futuro da sociedade brasileira já está acontecendo, e tem chances de ser parte da campanha eleitoral.

Ele explica quais são os termos da discussão: “De um lado, há uma agenda republicana de defesa do direito difuso (de todos), da governança, das regras para todos, da transparência e do enfrentamento dos problemas; do outro lado, está a resistência dos grupos organizados, toda a defesa do Brasil velho, do subsídio, da proteção e das falsas soluções que na verdade só mascaram o problema”.

Lisboa vê o Brasil num processo de idas e vindas, de avanços e retrocessos, à medida que esses dois campos se enfrentam na arena do debate público. Ele nota que o País vive um momento bastante favorável para a economia em 2018. O cenário externo extremamente favorável combina-se com as ações desde 2016 da atual equipe econômica, que representa a seu ver a agenda republicana do direito difuso e alcançou diversos avanços.

O economista diz que “a gente estava indo para o precipício até o fim de 2016 – o fracasso do nacional-desenvolvimentismo no segundo governo Lula e, principalmente, com a Dilma foi monstruoso”.

Ele lista aí as experimentações com juros e câmbio; a deterioração não só dos resultados fiscais, mas também da transparência; a política industrial fracassada, associada ao setor de petróleo e gás, com aperto dos critérios de conteúdo nacional; a intervenção no setor elétrico; as desonerações tributárias e programas como o Inovar-Auto; a expansão forçada do crédito público não só nos empréstimos subsidiados do BNDES, mas também na Caixa, que agora enfrenta problemas por conta disso; o aval federal para que os Estados se endividassem, etc.

Claudia Safatle: Uma nova medida da capacidade ociosa

- Valor Econômico

Baixa produtividade murcha potencial de crescimento

Com notável capacidade ociosa, a economia brasileira tem uma boa margem para crescer nos próximos anos sem pressão inflacionária, mesmo que não haja uma expansão importante dos investimentos. A distância entre o PIB potencial e o crescimento efetivo bateu recorde histórico com a medida do hiato do produto chegando a 8,2% negativos em 2016, percentual que veio caindo lentamente para 7,7% negativos no fim do terceiro trimestre de 2017. O hiato não se esgota pelo menos até 2019.

O PIB potencial, que mede a capacidade de crescimento não inflacionário do país, teve nos últimos anos uma forte desaceleração por causa da baixa produtividade. Chegou a 4,3% em 2009 e hoje estaria na casa de 1,3%.


Esses números são parte de um trabalho recém-concluído pela Instituição Fiscal Independente (IFI). Elaborado pelos economistas Rafael Bacciotti e Rodrigo Orair, o estudo segue a abordagem de função de produção e incorpora várias melhorias metodológicas já usadas pela Comissão Europeia (como a "ferramenta de plausibilidade") e por outros organismos internacionais, a exemplo do FMI.

Intitulado "Hiato do Produto na Economia Brasileira: Estimativas da IFI pela Metodologia de Função de Produção", o trabalho chama a atenção, ainda, para o elevado grau de dispersão das estatísticas encontradas na comparação com outros estudos recentes feitos com metodologias distintas.

Os autores não avançam nas implicações futuras dos resultados encontrados e ressaltam que o objetivo do documento é colocar em debate a construção adequada de uma variável tão importante - o hiato do produto - para a administração das políticas fiscal e monetária, para o resultado primário estrutural e nível da taxa de juros.

Hélio Schwartsman: Extinguir a Justiça do Trabalho?

- Folha de S. Paulo

"Para todo problema complexo existe uma solução clara, simples e errada." A frase, do jornalista americano H.L. Mencken, é tão boa que eu poderia utilizá-la em mais ou menos a metade das colunas que escrevo. Para não me tornar repetitivo, porém, reservo-a para ocasiões especiais. A proposta do presidente do PTB, Roberto Jefferson, de extinguir a Justiça do Trabalho (JT) é uma delas.

Não que eu seja um fã incondicional da JT. O Judiciário brasileiro é um dos piores do mundo e seu braço laboral não se distingue muito do todo. Se os deuses da história nos tivessem poupado dos flertes de Getúlio Vargas com o fascismo, talvez não tivéssemos por aqui uma instituição denominada "Justiça do Trabalho".

*Antônio Cláudio Mariz de Oliveira: Quem gosta do Brasil é estrangeiro

- O Estado de S.Paulo

Os envergonhados por aqui terem nascido são herdeiros do vício da crítica ‘patriótica’

Deve ser difícil viver no Brasil para aqueles que não gostam do País. Não são poucos. Não se situam particularmente em nenhuma região do País. Não exercem nenhuma profissão ou atividade específica, nem frequentam este ou aquele local. Tampouco são de determinada faixa etária. Não têm características específicas, salvo uma: pertencem, em geral, às elites endinheiradas e, dentre elas, àquelas que enriqueceram ou ficaram “bem de vida” mais recentemente.

Os brasileiros envergonhados por aqui terem nascido são herdeiros do vício da crítica “patriótica”, que constitui uma herança antiga, sedimentada, que se tornou, nas várias épocas e nos vários períodos, um modismo que não saiu de moda. Durante anos, séculos, são repetidas as mesmas ladainhas derrotistas, o mesmo cântico pessimista o mesmo poema deletério, cujas entonações se tornaram mania nacional.

José de Souza Martins: O enigma de São Paulo

- Valor Econômico/ Eu &Fim de Semana

A maior e mais complicada cidade brasileira, que é São Paulo, completará 464 anos no próximo dia 25. A cidade continua sendo um enigma interessante em todos os sentidos. Mero povoado de taipa e de pau a pique até os anos 1880, capital de uma província de menor expressão econômica, pelo que não era e aparentemente nem seria, já se diferençava de outras localidades brasileiras que tinham real importância econômica e política.

Quando se examina em documentos pouco conhecidos as minúcias da história social paulistana do século XVIII, há curiosos desafios como o das práticas de dominação social que ao mesmo tempo desconstruíam as duas escravidões da época: a dos pardos indígenas e a dos negros africanos. Mas no cenário que parecia confuso, a sociedade se desenvolvia de modo lento e calculado, criando formas sociais inovadoras em situações sociais que pareciam manter tudo como sempre estivera.

Lugar por excelência da tão peculiarmente brasileira lógica dos opostos, foi onde a irrelevância econômica e política da localidade tornou-se aos poucos condição do possível. O Brasil moderno, republicano e desenvolvido teve sua versão peculiar na São Paulo conservadora, monarquista e mal ingressada nos enormes benefícios econômicos da expansão do café. E não na São Paulo liberal.

O país teve no paulistano Antônio da Silva Prado, conservador e monarquista, um dos artífices decisivos da inserção do Brasil no mundo moderno e da transformação da cidade numa cidade moderna. No fundo, foi um dos pais da sociedade republicana a seu modo, embora não tenha sido um pai da República. Para tirar os republicanos paulistas do impasse de serem pela República mas não serem pela abolição da escravatura, concebeu e montou a grande estrutura social de transição do trabalho escravo para o trabalho livre.

PT ‘ignora’ julgamento e finaliza carta

Documento, elaborado por Haddad e agora direcionado à classe média, será apresentado em fevereiro, no aniversário de 37 anos da sigla

Ricardo Galhardo / O Estado de S. Paulo.

PORTO ALEGRE - Enquanto todas as atenções estão voltadas para o julgamento do dia 24 no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) que pode tornar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva inelegível, a equipe do petista tenta dar ares de normalidade à sua précampanha à Presidência. Segundo fontes do partido, a primeira minuta da nova Carta ao Povo Brasileiro deve ficar pronta hoje e será apresentada em 26 de fevereiro – quando o PT completa 37 anos –, seja qual for o resultado do julgamento em Porto Alegre.

O responsável pela elaboração da minuta é o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, coordenador-geral do programa de governo de Lula. Ainda hoje ele deve entregar a versão inicial da carta aos ex-ministros Paulo Bernardo e Aloizio Mercadante, que compõem o grupo mais próximo do ex-presidente na corrida pelo terceiro mandato no Palácio do Planalto.

Paulo Bernardo e Mercadante devem fazer ajustes no texto, cujo conteúdo é fruto de meses de discussões entre economistas e acadêmicos que se reúnem semanalmente na sede do Instituto Lula, na capital paulista. Antes de ganhar a redação final, no entanto, a carta ainda passará pelo crivo do próprio ex-presidente.

A ideia do PT é apresentar o texto no aniversário do partido. Com isso, a sigla espera também passar uma imagem de normalidade, mesmo que a pena de 9 anos e 6 meses imposta a Lula pelo juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, seja mantida pelo TRF-4, o que tornaria Lula inelegível. Ele foi condenado na Operação Lava Jato em julho do ano passado, na ação penal relativa ao caso do triplex do Guarujá (SP).

Prazos. A estratégia do partido é tentar minimizar os efeitos do julgamento do recurso de Lula em Porto Alegre e argumentar que a disputa judicial pela elegibilidade do petista só começa para valer no dia 15 de agosto, quando se encerra o prazo para o registro de candidaturas, e se dará no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Como mostrou o Estado em dezembro passado, ao contrário da Carta ao Povo Brasileiro de 2002, feita para acalmar o mercado financeiro receoso diante da possibilidade da primeira eleição de Lula, o texto de 2018 será voltado para a classe média, especialmente para o eleitorado que já votou no PT, mas agora culpa a gestão da presidente cassada Dilma Rousseff pela crise econômica e associa o partido aos escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato.

O conteúdo da carta é mantido em sigilo absoluto, mas, segundo petistas graduados, um dos eixos é desassociar Lula do desastre econômico ocorrido durante o governo Dilma.

'Não é hora de uma esquerda frouxa', diz Lindbergh Farias

Catia Seabra/Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O líder do PT no Senado, Lindbergh Farias (RJ), postou um vídeo em sua página no Facebook em que endossou nesta quarta-feira (17) as declarações da presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann (PR), segundo quem para decretar a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ter que "matar gente".

Embora a própria Gleisi tenha afirmado que foi uma "força de expressão" e prometido ir "em paz" à cidade de Porto Alegre, Lindbergh criticou os correligionários que tentaram minimizar o impacto das declarações da senadora.

"Vi gente de esquerda dizendo que não era bem isso. O que esse pessoal quer? Será que não entenderam o que está acontecendo no país? Será que acham que estamos vivendo um período de normalidade democrática? Não", atacou Lindbergh.

No vídeo, o parlamentar afirma que defende "uma nova esquerda, pronta para o enfrentamento e lutas de rua e não uma esquerda frouxa". Para Lindbergh, o processo de condenação de Lula "não tem provas e está desmoralizado". Ele cita como argumento o fato de uma juíza de Brasília ter autorizado a penhora do tríplex para saldar dívidas de delatores da OAS, o que para o petista é uma prova de que o imóvel pertence à construtora.

VIAS INSTITUCIONAIS
O senador diz que não possível recorrer pelas vias institucionais, pois a Justiça "já mostrou que tem um lado" e o Congresso Nacional "defende os interesses do empresariado contra o povo trabalhador". A solução, afirma, é que a esquerda "tenha coragem de enfrentar, que vá para as ruas, que aposte nas lutas sociais".

"Esse é o recado que temos que dar. Não vamos aceitar que eles consigam implementar a segunda etapa do golpe. A primeira foi afastar a Dilma. Agora, impedir Lula de ser candidato. Temos que falar grosso e olhar para as elites desse país."

Julgamento de Lula será o 1º no TRF-4 com transmissão ao vivo

Tribunal nunca usou canal no Youtube em casos de ações criminais

Cleide Carvalho e Gustavo Schmitt / O Globo

-SÃO PAULO- O julgamento da apelação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), marcado para a próxima quarta-feira na sede do órgão, em Porto Alegre, será transmitido ao vivo pela internet, num canal do tribunal no Youtube. É a primeira vez que a corte exibe a sessão de julgamento de um réu que recorre contra sentenças do juiz Sergio Moro na Lava-Jato. O tribunal já havia exibido outros julgamentos, mas nunca de casos criminais.

A 8ª Turma do Tribunal deverá analisar o recurso apresentado pela defesa de Lula e de outros réus no processo. Em primeira instância, Moro condenou Lula a nove anos e meio de prisão no caso do tríplex do Guarujá.

Além do ex-presidente, foram condenados também o ex-presidente da OAS, José Aldemario Pinheiro Filho (10 anos e 8 meses de prisão), o ex-diretor da área internacional da OAS, Agenor Franklin Magalhães Medeiros ( 6 anos). Paulo Okamotto, ex-presidente do Instituto Lula, foi absolvido mas apelou e pediu troca dos fundamentos da sentença. O Ministério Público Federal recorreu contra a absolvição de outros três executivos da OAS: Paulo Roberto Valente Gordilho, Roberto Moreira Ferreira e Fábio Hori Yonamine.

Será a primeira sessão desta turma em 2018 e a 24ª apelação julgada pelo TRF-4 contra sentenças nas ações derivadas da Operação Lava-Jato.

Lindbergh incitou violência, diz Bretas

Juiz sugere, no Twitter, que PGR deveria analisar declarações de petista

Miguel Caballero /O Globo

Depois que a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que seria preciso “matar gente para prender o Lula”, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) manteve o tom de confronto às vésperas do julgamento do recurso do ex-presidente contra sua condenação no caso do tríplex no Guarujá. Em vídeo, disse que os apoiadores do ex-presidente devem estar “mais preparados para o enfrentamento, para as lutas de rua” e que “não é hora de uma esquerda fraca”.

Após a publicação do vídeo, o juiz federal Marcelo Bretas, responsável pelos processos da Lava-Jato no Rio, reagiu às declarações do parlamentar:

“É só uma impressão ou há senadores da República conclamando grupos de pessoas para atos de violência? Não creio que isso seja um padrão racional de estado democrático de direito”, escreveu o magistrado, acrescentando, em resposta à própria pergunta, que “melhor dirá” a Procuradoria-Geral da República (órgão responsável por processar congressistas).

Ao GLOBO, Lindbergh negou que tenha incitado a violência:

— O que não é padrão no estado democrático de Direito, como ele escreveu, é um juiz falar fora dos autos. Não falei sobre atos violentos. Defendo que a esquerda não deve aceitar uma nova condenação do Lula, porque ele foi condenado sem provas. É lutar, ir para manifestações — afirmou o senador.

Procuradoria afirma em nota que não vê razão para pedir prisão de Lula

Ana Luiza Albuquerque / Folha de S. Paulo

PORTO ALEGRE - O procurador regional da República Mauricio Gotardo Gerum não vê motivos para pedir a prisão cautelar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo nota divulgada pelo Ministério Público Federal na tarde desta quinta-feira (18).

O Ministério Público Federal informou que divulgou o comunicado para desmentir reportagens veiculadas na imprensa sobre um "suposto pedido de prisão" do ex-presidente.

Na nota, o procurador afirma que, em caso de condenação do petista, qualquer medida relativa ao cumprimento da pena seguirá o andamento normal da execução penal, "não havendo razões para precipitá-la".

"Gerum não formalizou, e não vê razões para formalizar, qualquer pedido em relação à prisão cautelar", diz o comunicado.

Isso significa que uma eventual prisão só aconteceria depois de esgotados todos os recursos na corte, em caso de condenação.

O caso de Lula está sob responsabilidade da equipe do Ministério Público Federal que atua junto ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com sede em Porto Alegre.

O ex-presidente será julgado pelo tribunal na próxima quarta-feira (24). Em julho do ano passado, ele foi condenado pelo juiz Sergio Moro a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A corte já informou que Lula só poderá ser preso, caso condenado, após a tramitação de todos os recursos.

Serra afirma que não disputará eleição

Senador diz que permanecerá em Brasília para se dedicar a projetos no Legislativo

Alberto Bombig / O Estado de S. Paulo.

O senador José Serra (PSDBSP) decidiu que não disputará as eleições deste ano. Ele era um nome sempre lembrado por seu partido para concorrer ao governo do Estado de São Paulo e até à Presidência da República. “Não vou disputar a eleição para governador nem pretendo concorrer a presidente neste ano. Tenho ainda cinco anos de mandato no Senado, já aprovei projetos de minha iniciativa que mudaram o País, como foi o caso da abertura dos investimentos no pré-sal”, afirmou o tucano.

Com a decisão, a disputa pelo governo do Estado dentro do PSDB deverá ficar restrita ao prefeito João Doria, ao cientista político Luiz Felipe d’Ávila, ao secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro, e ao ex-senador José Aníbal, atual presidente do Instituto Teotônio Vilela, braço teórico da legenda.

Serra disse que, no Legislativo, tem se dedicado à reforma política “para valer”. “É indispensável para nosso futuro mudar o sistema eleitoral e o sistema político, que encarecem as eleições e comprometem a representatividade democrática. Já aprovei o projeto do distrital misto no Senado. Agora teremos de fazê-lo na Câmara, o que exigirá tempo integral de trabalho”, afirmou o senador. facebook.com/politicaestadao

O tucano vinha sendo pressionado pelo seu grupo e também pelo presidente Michel Temer para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes em outubro ou ainda para se apresentar como uma alternativa na disputa ao Palácio do Planalto.

Reforma política. “A verdade é que estão todos olhando para as eleições deste ano, mas elas serão disputadas com as mesmas regras das últimas eleições. Precisamos nos dedicar também a melhorar as regras futuras do sistema eleitoral. Eu estou me dispondo a enfrentar esse problema agora. Estou com os olhos no futuro da política e do Brasil”, declarou Serra.

A decisão do senador ainda não foi comunicada oficialmente ao governador Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB à Presidência da República. “Sou recordista de aprovação de leis entre deputados e senadores. Valorizo muito o meu mandato de senador”, disse Serra.

Citado em delação premiada de ex-executivos da Odebrecht, Serra é investigado na Operação Lava Jato. Ele nega participação em irregularidades.

Sem PSDB, França mira em siglas menores

Marianna Holanda e Fabio Leite / O Estado de S. Paulo.

Ao passo que o PSDB não garante apoio à sua candidatura ao governo do Estado, o vice-governador de São Paulo, Márcio França (PSB), resolveu priorizar o apoio de pequenos e médios partidos. Depois de anunciar a adesão do PR, França participou ontem de um evento de declaração de apoio do Solidariedade. As negociações também estão avançadas com PROS, PV, PRB, PSC e PPS.

Até o PCdoB, aliado histórico do PT, tem conversado com França. “Tem um debate interno, mas nenhuma resolução sobre o assunto. Se você me perguntar se é possível apoiar Márcio França para governador? Eu diria para você: sim, é possível”, afirmou, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP).

“Os grandes partidos, que são praticamente três grandes partidos no Brasil, não são a maioria. Quando você soma todos os pequenos e médios partidos dá muito mais do que os grandes”, discursou França para a plateia formada por sindicalistas que lotaram a sede do Solidariedade em São Paulo.

PMDB ameaça não apoiar Paes caso ele decida sair do partido

Para Leonardo Picciani, legenda não vai ficar esperando ex-prefeito

Fernanda Krakovics / O Globo

O ministro do Esporte, Leonardo Picciani, disse ontem que o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes não terá garantia de apoio do PMDB à sua eventual candidatura a governador se deixar o partido. Ele é filho do presidente estadual da legenda, Jorge Picciani, que conduz a sigla com mão de ferro e está preso preventivamente desde novembro. Paes está inelegível por decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio, por abuso de poder político-econômico nas eleições de 2016, mas cabe recurso.

— O partido precisa começar a ter suas definições. E, para isso, boatos de que ele vai sair, vai ficar, prejudicam ele, imagino eu, e prejudicam o partido. Eu preciso ter nitidez nisso. Tomando a decisão de sair do partido, defendo que não seja automática a aliança com ele — afirmou Leonardo Picciani.

Paes pretende sair do PMDB para tentar se descolar do desgaste do partido, mas gostaria de ter a sigla no seu arco de alianças. O PMDB do Rio está com suas principais lideranças presas, entre elas o ex-governador Sérgio Cabral. A legenda ainda arca com a falência do estado, comandado por esse grupo político há 11 anos. A crise financeira do governo de Luiz Fernando Pezão culminou com o atraso no pagamento do salário dos servidores.

— O partido não vai ficar esperando esse vai, não vai — disse Leonardo Picciani.

O PMDB é a maior máquina eleitoral do estado. Apesar de ter perdido o comando da capital nas eleições de 2016, o partido tem o maior número de prefeitos, que são importantes cabos eleitorais. Além disso, a sigla possui um dos maiores tempos de propaganda na televisão e no rádio.

OUTRO CANDIDATO
Esse recado já havia sido dado na última terça-feira, em reunião do ministro com a bancada de deputados federais do partido, da qual participou Pedro Paulo, braço-direito de Paes e candidato derrotado à sua sucessão na prefeitura.

Não há possibilidade de Alckmin não ser candidato, diz FHC

Caio Rinaldi / O Estado de S. Paulo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disso ontem em entrevista à rádio Bandeirantes que “não existe qualquer possibilidade” de o candidato do PSDB à Presidência da República nas eleições deste ano não ser o governador Geraldo Alckmin.

FHC dá como certa a vitória de Alckmin sobre o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, nas prévias do partido marcadas para 4 de março. “Tem vários que são bons, mas quem tem mais chance nesse momento, quem pode levantar a bandeira, em nome do PSDB, é o Alckmin”, disse.

O tucano afirmou ainda que o espaço continua aberto para uma candidatura de centro. “Acho que há todas as condições para ter um candidato de centro qualificado, que tenha história e posição.”

Na entrevista, FHC também disse que o eleitor deve ficar atento à possibilidade de surgirem candidatos com inclinações autoritárias. “Há um clima que é propício a isso. Nós já tivemos experiências dessa natureza”, disse. “Temos de olhar com muita atenção o desenrolar dessas eleições porque pode haver, mal comparando, um Hitler, como pode haver um Trump ou pode haver um Macron.”

Embargos de exaltação: Editorial/Folha de S. Paulo

Corrigiu-se a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), na quarta-feira (17), de uma declaração que ainda assim prolonga seus efeitos negativos sobre o ambiente político.

Às vésperas do julgamento, em segunda instância, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por crime de corrupção passiva, o mundo petista intensifica sua mobilização —no que, com os excessos passionais compreensíveis pela conjuntura, recebe o contraponto estridente do lado oposto.

Já seria o bastante —e manifestações de parte a parte, num caso polêmico, têm sua legitimidade. Mas a senadora resolveu ir além.

Quis, ao mesmo tempo, incendiar de vez a militância que resta a seu desmoralizado partido e impor clima de coerção ao julgamento. "Para prender o Lula", ameaçou Gleisi, "vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente".

A fonte dos déficits: Editorial/O Estado de S. Paulo

A profunda crise em que o País foi lançado pela irresponsável política econômica e fiscal do governo Dilma Rousseff corroeu as receitas tributárias, mas a perda de arrecadação é apenas um dos fatores que levaram as contas dos Estados a passar de superávits nominais de R$ 16 bilhões em 2015 para um rombo de R$ 60 bilhões no ano passado. O que se conclui do levantamento feito a pedido do Estado pelo economista Raul Velloso, um dos mais respeitados especialistas em finanças do setor público, é que, em tempos de crise, as garantias e vantagens salariais e previdenciárias do funcionalismo público tornam impossível o ajuste das despesas à rápida queda das receitas.

Os gastos com o sistema previdenciário dos Estados, as despesas obrigatórias definidas pela legislação e os custos da folha de pessoal tornam o atual regime fiscal insustentável ao longo do tempo. Nesse regime, os gastos crescem sempre, independentemente da situação econômica do País, enquanto a receita – quando não há aumento deliberado da carga tributária – está condicionada à evolução da produção, da renda e do consumo.

Para mostrar o que aconteceu nos Estados, Velloso se baseou em dados do Tesouro Nacional. De 22 unidades da Federação cujas contas puderam ser comparadas, apenas 5 melhoraram seus resultados fiscais desde 2015. São os Estados de Alagoas, Paraná, Ceará, Maranhão e Piauí. A situação de São Paulo manteve-se praticamente a mesma no período. Em todos os demais Estados o desequilíbrio financeiro se acentuou.

Políticos resistem a se afastar da Caixa: Editorial/O Globo

A alegação de que há diretores que são funcionários de carreira é relativa, pois basta lembrar a folha corrida dos dirigentes da Petrobras apanhados pela Lava-Jato

Com a assumida experiência de 30 anos de vida pública e constante atuação em esquemas de corrupção e de compra de votos, o ex-deputado Pedro Corrêa, ex-presidente do PP, e ainda cumprindo prisão domiciliar devido à Lava-Jato, deu entrevista ao GLOBO em que explicou a importância para o político de indicar diretores de estatais. De forma clara: fazer com que o nomeado leve a empresa privada com que negocia contratos a contribuir para a campanha do padrinho e, é certo, de seu partido. Sem dúvida, com dinheiro proveniente do superfaturamento das operações. Ou seja, no fim das contas, tudo é pago pelo Tesouro, em que a estatal se socorrerá em algum momento. Quer dizer, pelo contribuinte.

Foi o que se viu nas revelações que a Lava-Jato propiciou ao investigar a atuação incestuosa de diretores da Petrobras com o PT, o ainda PMDB, o PP e seus políticos. Devido ao tamanho mastodôntico dos contratos fechados pela estatal do petróleo, houve muito dinheiro também para melhorar o padrão de vida de políticos. Vide o tríplex do Lula no Guarujá, caso em julgamento, e seu sítio em Atibaia.

Safra melhora, mas ainda está longe do recorde de 2017: Editorial/Valor Econômico

A safra agrícola deste ano vai ser melhor do que se esperava inicialmente. O clima mais favorável em dezembro e o aumento da produtividade levaram tanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) quanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a elevarem suas estimativas. Os números ainda estão longe do recorde da safra passada, que ninguém aposta que será superado. Mas a distância vai sendo encurtada, com impacto positivo nas previsões para a inflação, emprego, balança comercial e resultado do Produto Interno Bruto (PIB).

O quarto levantamento de safra 2017/18 da Conab apresentou números ligeiramente mais altos para as principais culturas, que estão atualmente em fase de desenvolvimento. Como o relatório também prevê a relativa manutenção da área plantada em relação à estimativa anterior - 61,5 milhões de hectares, 1,1% a mais do que na safra anterior -, o aumento da produtividade explica a esperada expansão da produção. De acordo com o balanço, a produção de grãos e fibras vai atingir 227,9 milhões de toneladas. O número 0,62% acima dos 225,5 milhões de toneladas estimadas no relatório de dezembro. Ainda assim, se for confirmada, a produção será 4,1% inferior às 237,67 milhões de toneladas colhidas no ciclo passado (2016/17). Mas desde já é a segunda maior colheita da história.

Carlos Drummond de Andrade: Poesia

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Beth Carvalho - Marchinhas de Carnaval

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Opinião do dia: Edward Hallett Carr

O historiador é necessariamente seletivo. A crença num núcleo puro de fatos históricos que existam de forma objetiva e independente do historiador é uma próspera falácia, mas uma falácia muito difícil de erradicar. ...Dizia-se que os fatos falam por si mesmos. Isso é falso, claro. Os fatos só falam quando os historiadores os invocam: é {o historiador} quem escolhe a que fatos dar a palavra e em que ordem de contexto.

-----------------
Edward Hallett Carr (1892-1982) foi um historiador, jornalista e teórico das relações internacionais britânico, e um opositor ao empirismo na historiografia. “O que é história?”

Roberto Freire: Lula e a lei

- Diário do Poder

Enquanto o Brasil aguarda pelo julgamento do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, que analisará o recurso apresentado pelos advogados do petista contra a condenação a 9 anos e 6 meses de prisão, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, proferida pelo juiz Sergio Moro em primeira instância no processo referente ao rumoroso caso do triplex no Guarujá (SP), ficam cada vez mais evidentes o desespero do lulopetismo em relação ao futuro de seu principal líder e as constantes e desmedidas agressões do PT ao Poder Judiciário brasileiro e às instituições democráticas do país.

Nas últimas semanas, à medida que se aproxima o julgamento marcado para o dia 24 de janeiro, não foram poucos os próceres lulopetistas que se manifestaram abertamente contra o que vêm chamando de “rito de exceção” contra Lula, como se houvesse um complô com o objetivo de afastar o ex-presidente das eleições e consumar um “golpe” – mesmo termo utilizado de forma desavergonhada no período em que Dilma Rousseff foi afastada por meio do impeachment. São inúmeros os relatos de ameaças e tentativas de intimidação contra os desembargadores do TRF-4, além de palavras de ordem e gritos de guerra que indicam a possibilidade de haver quebra-quebra e atos de vandalismo caso o recurso de Lula seja rechaçado. Os bate-paus do lulopetismo não têm limites, demonstrando uma vez mais total descompromisso com as instituições republicanas e a própria democracia.

Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma inútil e patética tentativa de mobilizar a militância do PT e seus simpatizantes, desqualificando o processo na hipótese de uma eventual condenação do ex-presidente também em segunda instância – o que parece cada vez mais provável diante da amplitude de seus crimes e das provas apresentadas pelo Ministério Público e corroboradas pelo juiz Moro na sentença. Até parece que Lula é inimputável ou está acima da lei. Nada mais autoritário ou antidemocrático do que essa interpretação.

Em alguns casos, é perceptível que se trata de certo desespero de áulicos do lulopetismo em relação à iminente condenação do grande símbolo do partido. Em outros, no entanto, talvez a grande maioria das lideranças do PT, o que se vê é claramente a intenção de solapar e até mesmo derrubar a ordem democrática vigente no país, o que nos faz recordar do período de tão triste memória da ditadura militar. É uma postura totalmente irresponsável, para dizer o mínimo.