sábado, 24 de fevereiro de 2018

*Marco Aurélio Nogueira: Centro, esse escorregadio objeto de desejo

- O Estado de S.Paulo

Ocupá-lo é uma necessidade, sem ele, nenhum sistema político ganha fluidez

Entra semana, sai semana, o centro continua em evidência. Todos querem atrair ou neutralizar suas correntes. Procuram-se também nomes que o unifiquem.

Luciano Huck mostrou a dificuldade do processo. Desejou ser o centro renovador: o novo em política. Excitou os movimentos cívicos e reiterou a ideia de que os partidos precisam reinventar-se. Criou turbulência no interior do PSDB, mexendo com os brios de Geraldo Alckmin. A operação não deu certo, mas serviu para realçar a necessidade de preencher o vazio que se reproduz na política nacional: um vazio de nomes, de ideias, de projetos que sacudam a poeira das velhas vestes que ainda recobrem a política.

O excesso de movimentação demonstra que o centro é um espaço em busca de quem o organize. Seu magnetismo se impõe porque não há vitória eleitoral ou políticas positivas que não tenham ao menos um pé centralizado.

Os dogmáticos falam que a afirmação de um centro seria uma estratégia da direita, assustada com a liderança de Lula nas pesquisas. Os liberais querem um centro que neutralize os “excessos” e proteja a liberdade. Os conservadores mais à direita, por sua vez, veem no centro um obstáculo para seus planos de conter a renovação dos costumes. Mesmo setores da esquerda, quando pensam em sua própria articulação, concebem um “centro-esquerda” que se una para enfrentar o “centro-direita”.

Os democratas entendem o centro como um fator de ultrapassagem do atual padrão de competição política, muito polarizado. O suposto é que sem o centro o sucesso será mais difícil, posto que saturado pela reposição mecânica do velho padrão. O desafio passa pela reconstrução de algo que, em boa medida, foi a força propulsora da redemocratização. Como a vida mudou e a política entrou em parafuso, reconstruir o centro tornou-se ao mesmo tempo problema e estratégia.

Ruim em termos de articulação, a situação tem como contraponto positivo a pressão social, a hostilidade popular à política praticada, a indignação contra a corrupção, os privilégios e a ineficiência dos políticos. Procura-se um nome “novo”, mais que um novo projeto. Não se conseguiu, até agora, definir que forças políticas poderão articular-se em torno de propostas claras para a questão fiscal, o formato do Estado, a agenda social, o desenvolvimento. Sem isso tanto fará se o candidato for “novo” ou “velho”.

Fernando Gabeira: Intervenção parcial

- O Globo

Para atacar o crime em seus diferentes universos, a Lava-Jato poderia avançar nos processos contra os políticos

Governo que fez intervenção é impopular, mas o Exército tem grande credibilidade. A intervenção federal no Rio foi feita por um governo impopular. E feita apenas parcialmente. Deveria ser completa.

Não creio que seja o caso de defendê-la diante das teorias conspiratórias, de esquerda ou direita, que veem nela uma espécie de ataque ao seu projeto eleitoral. É inevitável que as pessoas fixadas na luta pelo poder interpretem tudo, mesmo um fato dessa dimensão social, como simples contador de votos.

A intervenção está aí. O governo é impopular, mas o instrumento é o Exército, com grande credibilidade. Se escolher atos espetaculares para tirar Temer do sufoco vai afundar com ele.

Logo, a primeira e modesta tese: o norte é a prática militar, com preparo e meios materiais necessários, e não o oportunismo político. Se prevalecer a superficialidade do governo, a batalha será perdida.

A intervenção tem de saber o que quer, para definir a hora de acabar. Isso não se define com uma data rígida no calendário, mas com a realização da tarefa: estabilizar a situação do Rio para que a polícia tome conta depois de reestruturada. É isso que fazem as intervenções, mesmo num país como o Haiti.

Julianna Sofia: Vivinho da silva

- Folha de S. Paulo

A sinalização de Henrique Meirelles de que pode disputar a Presidência da República com Michel Temer tem o efeito de demarcar terreno. Atesta que o chefe da Fazenda está vivinho da silva na corrida eleitoral, mesmo após o presidente galgar alguns milímetros com o tiro —aparentemente certeiro— da intervenção na segurança do Rio e o ministro pender para baixo na gangorra, com a derrocada da reforma da Previdência e o arremedo de nova agenda econômica.

Meirelles vai se lançar candidato e defender o legado reformista/governista contra o próprio Temer? Em tese, poderia. Mas não é com essa estratégia que trabalham os articuladores políticos do ministro. Diante do mirrado 1% de intenção de voto que cada um dos dois registra, não faz sentido se estapearem pela mesma raia na disputa ao Palácio do Planalto, enquanto outras eventuais candidaturas correm por fora.

O ex-presidente do Banco Central tem dito que a tática viável é ter apenas um candidato com o selo de reformista. Enquanto Temer tenta se cacifar apostando na pauta da segurança, o ministro invocará a melhora da economia, com o mantra do aumento do emprego e da renda e da queda da inflação.

João Domingos: Sem um projeto de Nação

- O Estado de S.Paulo

A desesperança pode fazer com que o eleitor fique longe das urnas

Ex-presidente do TSE, o ministro Dias Toffoli aproveitou ontem um debate na Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas, para lembrar que os partidos hoje se escoram em nomes para a Presidência da República e não em um projeto para o País. “Hoje está uma tremenda dificuldade de entender quem é quem. Hoje, qual o projeto do PT, do DEM, do PSDB?”, indagou o ministro.

De fato, a sete meses e poucos dias para a eleição, não se conhece um projeto de governo de nenhum dos nomes que se apresentaram até agora como pré-candidatos. Em alguns partidos, como o PT, o projeto parece ser o próprio candidato, o ex-presidente Lula. Uma proposta defeituosa do ponto de vista legal. Por enquanto, o que ele tem dito é que não acatará a decisão judicial que o condenou a 12 anos e 1 mês de prisão e o tornou inelegível, pois cadastrado na Lei da Ficha Limpa. E, quando em algum discurso se refere a um possível quase impossível governo, limita-se a prometer que fará mais do que já fez.

Do mesmo modo, não se vê no que diz o segundo colocado nas pesquisas, o deputado Jair Bolsonaro, algo que possa ser definido como um projeto para o Brasil, que englobe educação, saúde, transportes públicos, crescimento econômico, geração de empregos. O discurso fica limitado ao combate à criminalidade, sem dizer como será, a não ser insinuações de que bandido bom é bandido morto. Não há sinais de que as raízes do problema serão atacadas. Nada. É muito pouco para quem tem conseguido avançar sobre as ideias da juventude desiludida e sem emprego.

Ricardo Noblat: Sem surpresas à vista

- Blog do Noblat

A força dos fatos passa o rodo na sucessão presidencial

Sob a suspeita de que interveio na segurança pública do Rio de Janeiro só para ser candidato à reeleição, o presidente Michel Temer voltou a repetir que não é e que não será candidato. Acredite quem quiser, mas faz todo sentido. Como o presidente mais rejeitado da história recente do país, Temer não tem mais condições de aspirar à coisa alguma.

Resta-lhe a esperança de diminuir sua impopularidade e de influenciar a escolha do seu sucessor. Quer ter ainda alguma relevância, e é natural que queira. Se a intervenção no Rio for bem-sucedida, méritos lhe serão devidos por ousar fazer o que seus adversários jamais imaginavam possível. Fora do poder, irá cuidar dos processos a que responde.

Arthur Virgílio, prefeito de Manaus, desistiu de disputar com Geraldo Alckmin a indicação do PSDB para candidato à sucessão de Temer. Era o que se esperava. Nunca teve e jamais teria condições de derrotar Alckmin nas prévias internas do partido. Sabia disso quando se lançou. Buscou 10 minutos de notoriedade fora de Manaus. Conseguiu.

Rosiska Darcy de Oliveira: Pacificação

- O Globo

Se a intervenção falhar, uma sociedade tomada pela exasperação poderia recorrer a uma candidatura truculenta

A intervenção das Forcas Armadas na segurança do Rio, bem ou mal recebida, é um fato consumado. É muito possível que a decisão sobre a intervenção tenha atendido aos baixos interesses políticos de um presidente em agonia e seus acólitos contumazes que, mais que tudo, temem a prisão. A ninguém surpreenderia uma manobra fria e manipuladora urdida nos porões do Jaburu.

Muitas das reações contrárias à intervenção obedecem à mesma lógica do interesse político, perguntando quem ganha e quem perde em seus cálculos eleitoreiros. Lula chamou a atenção para as oblíquas pretensões eleitorais do presidente. Bolsonaro bravateou que ninguém roubará sua bandeira, como se a segurança tivesse dono. O interesse político há muito se dissociou do interesse público. A população só é visível quando as pesquisas de opinião traduzem as tragédias em prováveis votos futuros.

Do ponto de vista da população desamparada por serviços públicos em frangalhos, sofrendo na carne a violência, a questão é saber se este fato consumado será o ponto de inflexão, o freio no descontrole da segurança pública sensível no aumento da violência, territórios dominados pelo tráfico e paralisia da polícia minada pela corrupção. Ou uma bala de prata que, errando o alvo, provoque o efeito contrário, a aceleração de todos esses processos nefastos.

Adriana Fernandes*: Temer quer ser pop

- O Estado de S.Paulo

O presidente vai entregar seu governo com o ajuste fiscal incompleto

O governo já trabalha internamente com a possibilidade de a economia crescer 3,4% em 2018. É bem mais do que os 2,5% previstos no final de 2017 e dos 3% estimados agora no início deste ano. Os números – mantidos ainda em caráter reservado – animaram o Palácio do Planalto.

Esse ritmo mais quente da atividade econômica deve ficar mais claro para a população justamente na véspera da eleição. É com essa melhora do crescimento, foco na agenda de segurança pública e a retirada da impopular reforma da Previdência da pauta de votação da Câmara que setores do MDB renovaram a aposta numa candidatura do presidente Michel Temer. O plano “A” do presidente desde o início do seu governo em maio de 2016.

Sem a indigesta reforma da Previdência no caminho, o sentimento foi de alívio geral. Foram meses jogando na retranca sobre os ataques dos movimentos contrários e generalizados contra a reforma que fragilizaram o presidente. Ninguém fala abertamente, mas o governo estava refém da pauta emergencial da Previdência e agora se livrou dela para focar numa agenda de apelo popular.

Hélio Schwartsman: Emprego sem futuro

- Folha de S. Paulo

Até a medicina está perdendo atribuições para algoritmos inteligentes

A relação entre tecnologia e emprego sempre foi conflituosa. Se, do ponto de vista do observador imparcial, a tecnologia enriquece a sociedade e apenas transforma o emprego (quem deixou de ser ascensorista foi fazer outra coisa), do ponto de vista do sujeito que recebia todo mês um contracheque e foi demitido porque suas funções passaram a ser executadas por um robô, ela mata mesmo.

Os primeiros prejudicados foram as bestas e os trabalhadores menos qualificados, que desempenhavam tarefas pouco criativas, pesadas e repetitivas. Entre as vítimas iniciais da máquina a vapor transformada em locomotiva estão os cavalos das diligências, charreteiros e cocheiros. Mas a coisa não parou por aí e máquinas, robôs e computadores continuaram a transformar a produção, tirando o emprego de muita gente.

Míriam Leitão: O certo do jeito errado

- O Globo

A autonomia do Banco Central é uma boa ideia que nunca prosperou no Brasil. Agora, o esforço que se faz é para estragar a boa ideia defendendo-a da forma errada. A proposta do senador Romero Jucá tem a oposição de quem sempre a defendeu, a começar do próprio Banco Central. Além de garantir a estabilidade, o órgão também teria que perseguir meta de desemprego baixo.

O Brasil acaba de viver duas experiências didáticas. O BC não teve autonomia no governo Dilma e uma das demandas da presidente era juros bem baixos. Resultado: a inflação ficou sempre alta, com brevíssimas exceções, acabou estourando o teto e chegando aos dois dígitos. Os juros, que haviam sido reduzidos, tiveram que ser elevados para evitar o descontrole. Desde a posse de Ilan Goldfajn o BC teve autonomia e conseguiu fazer seu trabalho de trazer a inflação para níveis baixos e pôde conduzir o mais longo ciclo de redução das taxas de juros. A autonomia entregou o que se pede ao Banco Central, que é a estabilidade de preços. Se ela for consagrada em lei, será mais fácil resistir às investidas de governantes intervencionistas.

E o desemprego? Ele começou a subir quando a política monetária aceitava uma inflação mais alta, no governo Dilma, e permaneceu alto no governo Temer, com uma tendência, em parte sazonal, de queda no final do ano passado. Deve continuar caindo durante este ano. O Banco Central que persegue com autonomia a estabilidade de preços faz mais pelo emprego do que o que aceita taxas mais elevadas.

‘Eu não sou candidato’: Editorial | O Estado de S. Paulo

Desde que assumiu a Presidência da República, em maio de 2016, com o afastamento de Dilma Rousseff, Michel Temer vem reiteradamente afirmando que não é e não será candidato à reeleição. Isso deveria bastar para encerrar as insistentes especulações sobre o suposto interesse eleitoral de Temer – muitas delas cultivadas pelo próprio entorno do presidente –, pois tal falatório só aproveita a quem pretende criar embaraços ao governo no momento em que este se desdobra para entregar um país minimamente governável para a próxima administração. Como o falatório continua, no entanto, o presidente Temer tornou a vir a público para dizer com todas as letras, de novo, que não é candidato à reeleição.

“Eu não sou candidato”, disse Temer em entrevista à Rádio Bandeirantes. Diante da insistência do entrevistador, que queria saber se aquela resposta era definitiva ou se poderia mudar no futuro, a depender das circunstâncias, Temer respondeu em português claro: “Eu não serei candidato”.

Não há diferença entre essas respostas e a que ele deu em maio de 2016, ainda na condição de presidente interino, quando afirmou, em entrevista à TV Globo: “Eu estou negando a possibilidade de uma eventual reeleição”. Um ano mais tarde, em entrevista coletiva, declarou que era “zero” a possibilidade de tentar a reeleição, ainda que houvesse, no futuro, clamor popular por sua candidatura.

Em nenhum momento, portanto, se ouviu da boca do presidente qualquer afirmação ou mesmo insinuação de que ele poderia ser candidato à reeleição. Essa hipótese só existe e se sustenta, a despeito das negativas do maior interessado, em razão da insistência com que os áulicos do Palácio do Planalto, cada qual com seus objetivos pessoais, fazem circular fuxicos e balões de ensaio sobre as imaginárias pretensões de Temer.

Magistratura é incompatível com sindicalismo: Editorial | O Globo

Distorções no auxílio-moradia de juízes podem ser corrigidas pelo STF, mas nada justifica que magistrados façam greve, algo incompatível com a função

A crise fiscal tem servido para que diversas corporações que usufruem privilégios na máquina pública se exponham, na defesa de benefícios inaceitáveis num país em que o Estado quebrou e onde há abissais desníveis de renda, de padrão de vida e de acesso à educação, saúde e segurança. O que faz perpetuar a desigualdade, em todos os níveis.

Os embates em torno da reforma da Previdência — que retornarão tão logo o próximo presidente seja forçado pela realidade a recolocá-la na agenda do Congresso — já ajudaram a revelar o desbalanceamento entre aposentadorias no setor privado (R$ 1.240, em média) e no setor público federal (R$ 7.583), entre outros incontáveis desníveis. Entende-se por que o servidor aposentado está na faixa do 1% mais rico da população.

Há, ainda, sérias distorções na remuneração de servidores de alto escalão, apenas formalmente enquadrados sob o teto salarial no setor público, de R$ 33,7 mil, o quanto recebem os ministros do Supremo. Adicionais diversos, não considerados para aplicação do teto, elevam o rendimento real de certas castas para muito acima disso. E até agora sempre ficou tudo por isso mesmo.

Miséria venezuelana: Editorial | Folha de S. Paulo

Pobreza se generaliza em meio à recessão catastrófica criada pelo regime chavista

Estarrecedora, ainda que não surpreendente, pesquisa recém-divulgada sobre as condições de vida na Venezuela dá novas medidas da tragédia provocada pelo regime ditatorial de Nicolás Maduro.

A investigação —a cargo da reputada Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), com uma metodologia semelhante à da amostra de domicílios do IBGE brasileiro— retrata uma população acuada pela hiperinflação, assustada com a violência e cada vez mais disposta a abandonar o país.

Quase 9 em cada 10 domicílios não dispunham, em meados do ano passado, de renda para comprar uma cesta básica (que inclui alimentos, higiene pessoal, mensalidade escolar e outros itens). A deterioração dos padrões de vida se mostra vertiginosa: em 2014, a parcela, já altíssima, de venezuelanos nessa situação era de 48%.

É um resultado do processo descontrolado de alta dos preços, a uma taxa que, segundo estimativas recentes, tende a passar dos 10.000% neste ano —em meio a uma recessão catastrófica que adentra seu quinto ano.

A segurança pública é outro flagelo. Um em cada cinco venezuelanos declarou ter sido vítima de um crime no ano anterior, mas 65% não formalizaram queixa por falta de confiança nas autoridades.

Na ressaca da bonança petroleira, a maioria das propaladas “misiones”, programas sociais do chavismo, praticamente desapareceu —caso da versão local do Mais Médicos. No seu lugar, criaram-se esquemas emergenciais de distribuição de alimentos, aviltados por corrupção e manipulação política.

4,3 milhões desistem de procurar emprego

Mão de obra subutilizada no país é de 26,4 milhões, diz IBGE

Número dos que nem sequer tentam conseguir trabalho quase triplicou em três anos; era de 1,6 milhão em 2014

O IBGE revelou que, além dos 12,3 milhões de desempregados, o país fechou 2017 com contingente de 4,3 milhões de pessoas que desistiram de procurar emprego. São os desalentados, que se acham jovens ou idosos demais, ou perderam a esperança de conseguir vaga. Eles fazem parte de um grupo maior, que o IBGE chama de subutilizados, e que reúne 26,4 milhões de brasileiros. Nesta conta estão os que trabalham menos horas do que gostariam e os que estavam disponíveis, mas não podiam trabalhar por razões particulares.


Desalento afeta 4,3 milhões

Com crise, trabalhador desiste de procurar emprego. País tem 26,4 milhões subutilizados

Marcello Corrêa | O Globo

O mercado de trabalho mostra tendência de recuperação gradual desde meados do ano passado, mas a crise que começou a ser superada deixou uma herança nos indicadores: número recorde de pessoas que, diante das dificuldades, desistiram de procurar emprego. Segundo dados divulgados ontem pela primeira vez pelo IBGE, o contingente dos chamados desalentados chegou a 4,3 milhões. Para especialistas, o desânimo dos brasileiros está relacionado à percepção de que a economia ainda está fraca. O quadro só deve melhorar quando a geração de vagas ganhar mais consistência, o que só costuma acontecer depois da retomada da atividade econômica.

Considera-se desalentada a pessoa que não procurou trabalho porque acha que é jovem demais, idosa demais ou que não conseguiria emprego porque acredita que a economia vai mal. Esses trabalhadores fazem parte de um grupo maior, formado pelos brasileiros que se encontram no que os técnicos chamam de subutilização da força de trabalho. Esta categoria inclui, além dos desalentados, os desempregados, os que trabalham menos horas do que gostariam e aqueles que estavam disponíveis para emprego, mas não podiam assumir por outros motivos, como cuidar de um parente idoso. Juntos, somavam 26,4 milhões de pessoas no quarto trimestre de 2017.

Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Trimestral, que trouxe informações sobre desalento pela primeira vez. Com base nos cálculos do IBGE, o desalento atingiu o maior patamar desde 2012.

Uma versão resumida do levantamento já havia mostrado, no mês passado, que a taxa de desemprego no Brasil fechou o ano em 11,8%, com 12,3 milhões de desempregados.

— O desalentado está ligado à desocupação. Se a desocupação está alta, o desalento também fica alto. A pessoa pensa: “tem tanta gente desempregada que não vou conseguir” — explica Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento, que destaca que esta é uma visão mais ampliada sobre a saúde do mercado de trabalho. — A política hoje tem que olhar para 26 milhões de pessoas, e não 12 milhões (de desempregados). E de forma diferenciada.

‘Balcão’ de troca partidária se intensifica na Câmara

Partidos intensificaram nesta semana as negociações para atrair novos deputados e aumentar as bancadas nas próximas eleições. O prazo legal para trocas começa no dia 7 de março e vai até 7 de abril. Nesse período, os parlamentares podem mudar de legenda sem serem punidos. Além do Fundo Partidário de R$ 888 milhões, o fundo eleitoral, estimado em R$ 1,7 bilhão, também estaria sendo usado como moeda de troca. As promessas chegariam a R$ 2,5 milhões para quem mudar de legenda. 

O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, confirma que reservou R$ 2 milhões do fundo eleitoral por deputado e o MDB divulgou que repassará R$ 1,5 milhão para deputados e R$ 2 milhões para senadores. Esta será a primeira eleição geral sem o financiamento de empresas. Com isso, candidatos terão menos recursos para gastos eleitorais, o que aumenta a disputa pelo dinheiro público.

Janela instaura ‘balcão’ de troca partidária na Câmara

. Siglas prometem até R$ 2,5 milhões para quem migrar de legenda; prazo para mudança começa em 7 de março

Isadora Peron Igor Gadelha | O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Com a proximidade do início do período permitido para a mudança de partido, em 7 de março, legendas intensificaram as negociações para atrair novos deputados e aumentar as chances de eleger uma bancada maior na Câmara em outubro. A principal moeda de troca usada pelos partidos tem sido o dinheiro público que bancará as campanhas. Além do fundo eleitoral, estimado em R$ 1,7 bilhão, mais R$ 888 milhões do Fundo Partidário poderão ser distribuídos aos candidatos.

A chamada “janela partidária” foi instituída em 2016 por meio de uma emenda constitucional que, na prática, estabelece um período de 30 dias no qual parlamentares podem mudar de partido sem que percam os seus mandatos.

Esta será a primeira eleição geral sem financiamento de empresas, proibido pelo Supremo Tribunal Federal em 2015. Com isso, candidatos terão menos recursos para bancar gastos eleitorais, o que aumenta a disputa pelo dinheiro público.

Nos últimos dias, o Estado flagrou conversas sobre o assunto dentro do plenário da Câmara. O deputado Paulinho da Força (SD-SP) tem carregado planilhas que mostram quanto cada legenda terá de recursos para “desmistificar” promessas feitas por dirigentes de outras legendas. “Tem partido falando que vai dar R$ 2 milhões para cada deputado, mas não tem condições. Mostro logo a tabela para desmentir o cara”, afirmou Paulinho.

Segundo relatos de parlamentares, legendas do Centrão como PP, PR e PTB estão oferecendo aos deputados que toparem mudar de sigla o valor máximo que poderá ser gasto numa campanha para a Câmara este ano: R$ 2,5 milhões.

Dirigentes dos partidos que compõem o bloco informal negam que as negociações estejam sendo feitas nesses termos. O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, no entanto, confirmou que reservou para cada deputado do partido cerca de R$ 2 milhões da fatia do fundo eleitoral a que o seu partido terá direito.

Escolha de Arida reaproxima Alckmin de economistas

Racha no PSDB havia distanciado da sigla nomes como Armínio Fraga e Elena Landau

Talita Fernandes | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A escolha do ex-presidente do Banco Central Pérsio Arida para coordenação econômica de sua campanha à Presidência deu ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), a esperança de trazer de volta ao seu partido nomes do meio econômico que haviam se distanciado.
O racha pelo qual os tucanos passaram no último ano, especialmente sobre o apoio ao presidente Michel Temer e as denúncias envolvendo o senador Aécio Neves (PSDB-MG), fez com que quadros que tradicionalmente estavam no espectro da legenda debandassem.

É o caso do ex-presidente do BC Armínio Fraga, que migrou para o movimento político Renova, ligado ao apresentador Luciano Huck; eda ex-diretora do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) Elena Landau, integrante do movimento Livres, que integrava o PSL, partido ao qual o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) pretende se filiar para disputar a Presidência da República.

Em passagem por Brasília na última semana, o governador paulista disse não ter conversado com Armínio, mas comemorou suas declarações de apoio. "Fiquei feliz porque li uma entrevista dele no [jornal] "Valor" dizendo que vai nos ajudar, vai nos apoiar", comentou.

A fala do economista foi citada por Alckmin em reunião com a bancada tucana dos deputados federais. Ele se mostrou otimista com o apoio e defendeu uma agenda de privatizações e parcerias público-privadas, fazendo um apelo aos parlamentares para que deem suporte para o tema.

'Não sou candidato', diz Temer

Presidente da República nega que irá concorrer à disputa presidencial de outubro e afirma que decreto de segurança foi 'jogada de mestre'

Carla Araújo | O Estado de S.Paulo

O presidente Michel Temer disse em entrevista à Rádio Bandeirantes que a intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro “é uma jogada de mestre”, mas tentou deslocar a ação de qualquer intenção de concorrer a reeleição. “Não tem nada de eleitoral”, completou na entrevista. “Sou candidato a fazer um bom governo. Tenho dito reiteradamente, em política as circunstâncias é que ditam a conduta e as circunstâncias atuais ditam a minha conduta. Eu não sou candidato”, afirmou.

Ao ser questionado se isso significaria que então ele não poderá vir a ser, o presidente ponderou: “Ah, eu não vou dizer isso porque, na verdade, a minha intenção de hoje vai alongar-se pelo tempo todo. Eu não serei candidato”, reforçou.

Temer destacou sua carreira política e disse que as circunstâncias o levaram à Presidência. “Quando cheguei na Presidência disse que 'tenho uma missão', dificílima, porque não é fácil isso daqui. É uma coisa complicadíssima”, destacou, ressaltando que já é “muito feliz” de ter exercido a Presidência nesse mandato.

A declaração sobre candidatura é feita após ter seu nome defendido por aliados como postulante à reeleição com base na expectativa de que o decreto de segurança possa atrair capital eleitoral para o presidente. "O presidente Michel Temer é uma opção do MDB para ser candidato a presidente da República, se ele assim o entender. O partido defende candidatura própria, nós temos várias opções e vamos trabalhar no sentido de termos candidatura própria", declarou Jucá após reunião da Executiva da sigla, na quarta-feira, 23.

A medida, agora classificada como "jogada de mestre", foi vista como eleitoreira por pré-candidatos ao Palácio do Planalto, como o deputado Jair Bolsonaro (PSD-RJ), e parlamentares da oposição. O presidenciável ministro Henrique Meirelles (Fazenda), por exemplo, até chegou a deixar mais claro que também está no jogo. Ele disse não ver problema em disputar com Temer a Presidência.

“Seria uma competição”, disse o ministro ao Estadão/Broadcast. “Evidentemente, com mais candidatos fora dos dois extremos, a competição seria maior”, completou ele. Para Meirelles, a participação de Temer “não invalidaria” sua candidatura, mas apenas elevaria as alternativas no centro político.

No entanto, essa possível candidatura enfrenta resistências não apenas em partidos da base aliada do governo, mas no próprio MDB pela baixa popularidade de Temer.

Lula
O presidente disse que não seria adequado se manifestar sobre o caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a possibilidade de ele ficar fora das eleições por causa da condenação em segunda instância, mas repetiu achar melhor que ele pudesse participar do pleito. “Eu acho que se ele tiver condição de disputar acaba uma coisa meio mítica, ele vai pra eleição se for eleito muito bem, se não for”, disse, reiterando que não defenderia essa posição porque o tema está no Poder Judiciário. “E seria uma intervenção em outro Poder.”

Temer afirma ter sido cogitada a retirada de Pezão do governo do RJ

Para presidente, Forças Armadas não devem ser culpadas por um eventual fracasso

Gustavo Uribe | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer afirmou nesta sexta-feira (23) que chegou a ser cogitada uma intervenção no Rio de Janeiro em todo o governo estadual, afastando inclusive o governador Luiz Fernando Pezão.

Ele afirmou, contudo, que refutou a hipótese, por considerá-la radical, mas não quis dizer de quem foi a sugestão feita ao governo federal.

Segundo ele, Pezão não será retirado do cargo mesmo que a intervenção federal seja um fracasso. "Se cogitou em tirar o Luiz Fernando Pezão, mas logo refutei, porque seria muito radical. E, quando refutei, chegou-se à conclusão de que devíamos agir na área de segurança pública", disse, em entrevista à Rádio Bandeirantes.

Segundo o emedebista, a decisão de fazer a intervenção federal foi dele e se ela não tiver êxito, quem errou foi o governo federal. Para ele, as Forças Armadas não devem ser responsabilizadas por um eventual fracasso, uma vez que o comandante supremo dos poderes militares no país é o presidente da República.

"Se não der certo foi o governo federal quem errou, não foram as Forças Armadas, porque elas estão cumprindo uma decisão governamental", disse.

Na entrevista, ele avaliou que o Rio de Janeiro serve de exemplo para o país e que se a intervenção não tiver êxito, a situação também pode piorar em outras unidades federativas. "Chegou-se a um ponto que se não tivesse a intervenção, e ela dará certo, não haveria condições de habitabilidade no Rio de Janeiro", disse.

Ele afirmou esperar que não tenham episódios de violência durante a operação federal, mas ressaltou que, se for necessário, as Forças Armadas irão "partir para o confronto". "Mas no próprio Ministério dos Direitos Humanos estamos promovendo um grupo que vai acompanhar as ações durante a intervenção federal", ponderou.

Se não der certo a intervenção, não deu certo o governo, diz Temer

Segundo o presidente, a medida 'é uma jogada de mestre', mas ele nega ser candidato

Débora Bergamasco | O Globo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer disse nesta sexta-feira em entrevista à "Rádio Bandeirantes" que a intervenção no Rio de Janeiro é " um jogo de alto risco, mas um jogo necessário". Temer disse também ter convicção que a medida dará certo.

— É um jogo de alto risco, mas um jogo necessário. E não vou ficar apenas na intervenção. Vou anunciar o Ministério Extraordinário da Segurança Pública - disse o presidente, completando:

— Se não der certo a intervenção, não deu certo o governo. Porque o comandante supremo das Forças Armadas é o presidente da República. Então o que as Foças Armadas nada mais fizeram foi responder ao comando do seu comandante supremo.

Indagado se seria candidato à reeleição, Temer negou:

— A intervenção na segurança do Rio de Janeiro é uma jogada de mestre, mas nada eleitoral. Eu sou candidato a fazer um bom governo — garantiu.

Ainda segundo o presidente, o Rio precisava da intervenção e o estado será "um exemplo para o país". Indagado se há a possibilidade de o interventor general Valter Souza Braga Netto afastar agentes de segurança pública que hoje atuam no Rio, Temer foi categórico.

— Claro que há.

Para Temer, as Forças Armadas terão a função de garantir apoio para que a Polícia Militar desempenhe suas funções.

— Não sei se vai haver confronto entre militar, isso o momento lá é que vai dizer. Mas se houver confronto entre marginal, bandido armado, que sai dando tiro em um militar, é claro que ele não vai se deixar matar, deixar a segurança ficar absolutamente impune, não vai. Nós esperamos que não aconteça. Se for necessário, é partir para o confronto.

Depois, apressou-se em se explicar.

— 'Pera' um pouquinho. É que a gente diz essas coisas e a imprensa pega uma frasesinha e diz: 'Temer agride os diretos humanos'.

E argumentou que está montando um grupo do Ministério de Direitos Humanos para acompanhar as ações, bem como conversas com grupos do Ministério Público. Ele destacou também a necessidade de engajamento do poder Judiciário para garantir agilidade no deferimento de pedidos urgentes.

Governo cogitou afastar Pezão, admite Temer a rádio

Presidente afirmou que a possibilidade de tirar atual governador do Rio surgiu pouco antes do decreto de intervenção na área de segurança

Por Reuters | Veja

Em entrevista à Rádio Bandeirantes nesta sexta-feira, o presidente Michel Temer declarou que, antes de ter sido decretada a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, chegou a ser discutida no governo federal a possibilidade de afastamento do governador fluminense, Luiz Fernando Pezão, mas que essa medida foi rechaçada por ele.

Temer também reiterou que trata-se de uma intervenção civil, apesar de o interventor ser um general do Exército. Segundo o presidente, um possível fracasso da intervenção representará o fracasso de seu próprio governo. “Se não der certo, não deu certo o governo. Porque o comandante supremo das Forças Armadas é o presidente da República. De modo que as Forças Armadas nada mais fizeram do que obedecer ao comando do seu comandante supremo”, afirmou.

Temer também antecipou que anunciará na segunda-feira o nome do novo ministro da Segurança Pública, pasta criada pelo governo logo após o decreto de intervenção federal no Rio. Segundo ele, dez nomes estão sendo cogitados para ocupar o cargo. “Neste momento, a segurança pública é a nossa pauta prioritária”, afirmou.

”Não sou e não serei candidato à reeleição”
O presidente afirmou ainda que não será candidato à reeleição, e que o decreto de intervenção no Rio não foi uma “jogada eleitoral” voltada a aumentar seu cacife para o pleito de outubro.

“Eu não sou candidato. A minha intenção de hoje vai alongar-se pelo tempo todo. Eu não serei candidato”, disse Temer. “Eu não quero. Eu sou candidato a fazer um bom governo”, complementou.

Paulinho da Viola - Timoneiro

Carlos Pena Filho: A palavra

Navegador de bruma e de incerteza,
Humilde me convoco e visto audácia
E te procuro em mares de silêncio
Onde, precisa e límpida, resides.

Frágil, sempre me perco, pois retenho
Em minhas mãos desconcertados rumos
E vagos instrumentos de procura
Que, de longínquos, pouco me auxiliam.

Por ver que és claridade e superfície,
Desprendo-me do ouro do meu sangue
E da ferrugem simples dos meus ossos,
E te aguardo com loucos estandartes
Coloridos por festas e batalhas.

Aí, reúno a argúcia dos meus dedos
E a precisão astuta dos meus olhos
E fabrico estas rosas de alumínio
Que, por serem metal, negam-se flores
Mas, por não serem rosas, são mais belas
Por conta do artifício que as inventa.

Às vezes permaneces insolúvel
Além da chuva que reveste o tempo
E que alimenta o musgo das paredes
Onde, serena e lúcida, te inscreves.

Inútil procurar-te neste instante,
Pois muito mais que um peixe és arredia
Em cardumes escapas pelos dedos
Deixando apenas uma promessa leve
De que a manhã não tarda e que na vida
Vale mais o sabor de reconquista.

Então, te vejo como sempre foste,
Além de peixe e mais que saltimbanco,
Forma imprecisa que ninguém distingue
Mas que a tudo resiste e se apresenta
Tanto mais pura quanto mais esquiva.

De longe, olho teu sonho inusitado
E dividido em faces, mais te cerco
E se não te domino então contemplo
Teus pés de visgo, tua vogal de espuma,
E sei que és mais que astúcia e movimento,
Aérea estátua de silêncio e bruma

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Opinião do dia: Roberto Freire

"O que devemos fazer todos os que temos responsabilidade com o país e, sobretudo, consciência da gravidade da situação que vive o Rio de Janeiro, é apoiar a intervenção federal no estado e acompanhar com atenção, passo a passo, o desenrolar dos acontecimentos. A batalha contra o crime não é fácil de ser vencida nem terá um desfecho rápido, muito pelo contrário. Trata-se de um enfrentamento longo e árduo, e por isso mesmo o apoio da sociedade é fundamental. Apesar do esperneio da oposição lulopetista, a aprovação do decreto presidencial no Congresso foi uma importante vitória para o Rio e o Brasil. O primeiro passo está dado e não há tempo a perder. Vamos adiante.

-----------------------------
Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS. “Segurança na ordem do dia”, Diário do Poder, 23/2/2018.

Fernando Gabeira: Fugindo do paraíso

- O Estado de S.Paulo

A esquerda não pode encarar a realidade dos venezuelanos saindo em massa de lá

No século passado, tive a oportunidade de cobrir a chegada dos refugiados do comunismo às praias de Brindisi, na Itália. Vinham da Albânia, sedentos de liberdade e de algum conforto material. E agora testemunho o movimento dos refugiados do socialismo do século 21. Como o drama se desenrola no Brasil, tive a oportunidade de seguir sua trajetória em três viagens à fronteira.

Na primeira entrei na Venezuela. Nas duas últimas concentrei-me em Boa Vista, Pacaraima e no trecho de 200 quilômetros da BR-174 que liga a fronteira à capital de Roraima.

O Brasil ainda não se deu conta desse drama na sua amplitude. Cerca de 180 crianças venezuelanas entram todos os dias no País, na maternidade Boa Vista nascem quatro por dia. E há muitas mulheres grávidas. Toda uma nova geração de brasileiros está surgindo desse drama histórico.

Índios waraos, que desceram da Bacia do Orenoco, vieram em massa para o Brasil. Estão alojados em Pacaraima e em Boa Vista. No ano passado estavam na rua. Eram um perigo para eles e também para a pequena cidade brasileira. Muitos tinham doenças de pele, pelas circunstâncias em que vivam, amontoados na rodoviária e nas cercanias. Hoje estão em abrigo, ainda em situação precária. É praticamente toda uma etnia que se mudou para cá. O que fazer diante disso?

Vladimir Palmeira: Preconceito contra a intervenção

- O Globo

Morte de inocentes, sobretudo nos bairros pobres, estava saindo dos limites

A esquerda reagiu mal à intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro, com a indicação de um general do Exército para cuidar da área. De forma preconceituosa. E partidarista.

Aqueles que tentam elevar um pouco a crítica afirmam, com razão, que a intervenção não resolverá o problema da violência no Rio de Janeiro. De fato, não resolverá.

Sabemos que a solução deste problema, sempre parcial, aliás, só virá com medidas a longo prazo. A mais importante das quais é, sem dúvida nenhuma, uma distribuição de renda mais justa em nosso país. Não me refiro somente à renda no sentido estrito. Mas também à melhoria efetiva nas áreas de transporte, educação e saúde.

Do ponto de vista policial, estamos diante de mais de uma questão. Em primeiro lugar, nossa polícia tem um grau de despreparo muito alto. Em segundo lugar, houve a preferência pela ação repressiva, e não investigativa. Em terceiro lugar, a própria polícia está em parte ligada à corrupção — basta lembrar o caso do batalhão de São Gonçalo. Em quarto lugar, houve um grande descaso depois do fracasso das UPPs — a demagogia desmascarada trouxe não novas propostas, mas uma terrível inação. Como resultado, a guerra entre quadrilhas tornou-se mais radical, e os próprios policiais começaram a ser mortos sistematicamente pelos bandidos.

Finalmente, a ação policial Cabral-Pezão desconsiderou completamente qualquer poder civil e as comunidades interessadas.

Evidentemente, a intervenção federal não vai resolver este tanto de questões. Mas a situação estava ficando insustentável. A morte de inocentes, sobretudo nos bairros pobres, estava saindo dos limites. A polícia não tinha mais rumo. Rumo nenhum.

José de Souza Martins: Última saída

- Valor Econômico | Eu & Fim de Semana

Sabemos que a crise social do mundo de hoje não se reduz ao que é o econômico e o político. Difícil é saber quais são suas consequências inesperadas. Ela cria incertezas no reconhecimento subjetivo da durabilidade da vida, das instituições, dos costumes. Uma área afetada pela expansão da modernidade, de que a crise é parte, é a da concepção de morte e da relação do homem com o sobrenatural. Aí, os que se acham donos da vida interferem, mas não mandam.

O modo de morrer, que é o do preâmbulo da morte, muda historicamente. Afeta âmbitos inesperados da vida. Um dos reflexos das mudanças no direito trabalhista e no previdenciário, antes mesmo de plenamente consumadas, é o das mudanças também em nossa cultura do morrer. Uma nova concepção de vida e de finitude está sendo gestada nas entrelinhas invisíveis da trama social.

Numa roda de amigos, em dias recentes, discutia-se a importância econômica do enxugamento dos direitos dos que vivem do trabalho, que oneram os ganhos das empresas. Permitirá a racionalização da produção. Alguém mencionou a robotização e a substituição de trabalho humano por máquinas e computadores. Hoje, o sistema produtivo pode produzir muitíssimo mais com menos gente. Mas já no século XIX se sabia que a lógica da produção moderna implica em produzir também cada vez mais seres humanos supérfluos.

Eliane Cantanhêde: Impunidade no forno

- O Estado de S.Paulo

Fim do foro e da prisão em segunda instância beneficiará centenas de réus da Lava Jato

Como o Congresso fracassou e teve de recuar em suas tentativas de “estancar a sangria” da Lava Jato, esse papel pode ser exercido, nada mais, nada menos, pelo Supremo Tribunal Federal. Basta o plenário tomar duas decisões: restringir o foro privilegiado dos políticos com mandato e acabar com a prisão após condenação em segunda instância.

Essas duas decisões, somadas, significam que muitos criminosos de colarinho branco já presos serão soltos e muitos dos que estão na bica para ser presos já não serão mais. Uma equação perfeita cujo resultado tem nome: impunidade.

Como funciona? Assim: 1) o Supremo formaliza o fim do foro privilegiado e empurra os políticos para a primeira instância, em seus redutos eleitorais; 2) o processo praticamente recomeça do zero e pode demorar anos até o acusado ser julgado e condenado pelo juiz e depois pelo TRF; 3) e, com a revisão simultânea da prisão em segunda instância, pelo próprio Supremo, não acontece nada com o réu. Ele vai continuar entrando com recurso atrás de recurso, livre, leve e solto.

Isso tudo com um efeito colateral bastante forte na Lava Jato ou em qualquer investigação, em qualquer tempo, sobre corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Sabem qual? O fim, objetivamente, das delações premiadas que foram fundamentais para desvendar esquemas complexos como o do saque na nossa Petrobrás. Qual envolvido vai fazer delação, sabendo que não corre o risco iminente de prisão?

Hélio Schwartsman: Por que prendemos criminosos?

- Folha de S. Paulo

Encarceramento está deixando de ser uma solução racional

Estamos habituados a pensar que lugar de bandido é a cadeia, mas essa é uma ideia relativamente nova. Embora gregos e romanos tenham, já na Antiguidade, feito experimentos com a prisão como castigo para certos delitos, a maior parte dos Estados que desenvolveram sistemas penais se valia de versões mais ou menos escancaradas da “lex talionis”, isto é, do “olho por olho, dente por dente”.

É só a partir do século 17 que alguns países europeus vão voltar a flertar, e muito lentamente, com a cadeia como forma de punição. Antes disso, calabouços e masmorras eram apenas lugares onde o acusado aguardava sua sentença, frequentemente a execução, por enforcamento, decapitação, ou mesmo pelo fogo, ou algum tipo de castigo físico, como mutilações, chibatadas ou a marcação a ferro quente. A prisão nos moldes de hoje só se disseminou mesmo a partir do início do século 19.

Reinaldo Azevedo: Intervenção pode revelar governo real

- Folha de S. Paulo

O medo dos adversários de Temer é que a intervenção revele o bom governo que ele faz

Michel Temer fez o certo e interveio na área de segurança pública do Rio. Os mercadores morais de cadáveres, balas perdidas e execuções sumárias logo conjuraram suas forças, gritando a uma só voz: "Ele está pensando na reeleição!" É mesmo? O presidente está no gozo pleno de seus direitos políticos, e a Constituição lhe faculta o direito de concorrer.

Se toda a ação do Planalto for vista por esse prisma, então é preciso paralisar a máquina do governo. Mais: o eventual efeito eleitoral de uma intervenção —que também pode ser negativo— não altera as causas que a motivaram. O verdadeiro temor dos detratores ainda não veio à luz. E pretendo revelá-lo aqui, depois de algumas considerações.

O coro dos contrários juntou Jair Bolsonaro, Lula, os críticos profissionais do governo e, para a minha surpresa, uma verdadeira multidão de especialistas em intervenção federal. Nem sabia que eles existiam.

Dado o ineditismo da coisa, qual é a fonte de informação dos palpiteiros? Essa gente cotejou as suas respectivas teses com que realidade fática? Não há nada. Só mesmo o ímpeto de maldizer e a picaretagem retórica.

Murillo de Aragão: Segurança Pública e Eleições

- Blog do Noblat

Intervenção dos militares na sociedade civil desperta sentimentos contraditórios

Por que a intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro gera confusão? São várias razões. Vamos a algumas delas. Parte das elites acadêmicas e midiáticas do país confundem autoridade com autoritarismo. Assim, uma intervenção dos militares na sociedade civil desperta sentimentos contraditórios que revelam a existência, ainda, de preconceito em relação às Forças Armadas. Alguns chegam a dizer que a intervenção deseja promover o genocídio de negros e pobres. Um completo despautério, já que são os negros e os pobres os que mais sofrem com a violência.

Outra camada de confusão decorre das narrativas políticas. A intervenção federal pode repercutir eleitoralmente, até mesmo pelo fato de o tema segurança pública ser imprescindível nos debates das campanhas. Assim, o eventual sucesso da iniciativa pode colocar o presidente Temer de forma positiva no processo eleitoral. Basta ganhar alguns pontos em sua aprovação pela população para o seu cacife aumentar, tanto para uma eventual candidatura à Presidência da República quanto para o apoio a algum candidato de seu interesse.

Dora Kramer: Começar é preciso

Revista VEJA

Sob o eco da repressão militar, o poder civil se retrai na luta contra o crime

É fato testado, comprovado (e lamentado) que nenhum dos governos desde a reinstituição do poder civil no país enfrentou a questão da segurança pública. Por motivos variados: covardia, indiferença, cálculo político e, no caso das autoridades oriundas da esquerda, constrangimento para o exercício do uso da força do Estado contra o crime. Princípio equivocado de rejeição a qualquer tipo de repressão.

Uma visão herdada da ditadura. Obviamente torta, pois não leva em conta que a defesa da liberdade e dos direitos do cidadão implica a preservação da ordem como fator essencial da garantia de ir e vir sem o risco permanente e iminente de morrer. Tal inépcia nos levou ao descalabro atual.

O caos é nacional, mas o Rio de Janeiro viveu peculiaridades. Entre elas, a mais grave foi o acolhimento da bandidagem como parte do cenário de glamour e maravilha da cidade. Conto duas histórias que vi de perto: uma na década dos 90, a outra anos antes de consolidada a redemocratização no Brasil, em 1985. Nenhuma delas de violência pessoal, embora ambas conceitualmente violentas do ponto de vista geral.