segunda-feira, 1 de maio de 2017

Não chores por mim em Curitiba | Paulo Delgado

- O Globo

A vida real é mortal para o carismático. A Lava-Jato “humanizou” Lula, o sonâmbulo usuário de pedalinhos, tríplex, cachês, sítio, jatinhos, compadre

São razões arcaicas que fizeram Lula e Zé Dirceu se imporem essa forma de menos valia. Sempre ausente quando alguém é destruído, a lealdade política é baseada numa farsa: não creiam, confiem. Quando alguém bom se dispõe a errar supõe ser invisível. Esquecendo-se de que não há líder popular em sociedade politizada. Há líder respeitado.

A esquerda, espiritualmente, nunca precisou estar em guarda. Até que alguém introduza a inveja social no seu meio. Mas quando parceiros ficam submetidos ao mesmo constrangimento, não há necessidade de um acabar com o outro para definir a si mesmo. Cabe ao que circula, quando chega ao local em que outra lógica decide quem vai morrer, desfazer a inimizade nascida quando havia gente demais para aclamá-lo. Antes de depor, consulte a todos os encarcerados sobre o infortúnio de suas famílias.

A política brasileira é um multitudo que vai da amnésia à mentira, do insulto à benevolência. Lula se tornou líder por se oferecer como uma boa crise na vida do Brasil. Hoje o Brasil é que oferece uma boa crise na vida de Lula. E essa reviravolta da nação está gerando mágoa e ódio por incompreensão da profecia: não colhas tua lavoura até o limite do campo.

Os políticos brasileiros não são incompatíveis entre si. Exigem uma quantidade exagerada de atenção, estigma de maus conselheiros. Apesar das discórdias, um desejo domina tudo: manter-se à tona. De vez em quando um ou outro rouba a cena, acusado de receber, sem a responsabilidade moral de ser o dono. Muitos deles, líderes carismáticos. Os maiores perpetradores de equívocos.

Quem ascende ao poder por carisma, magnetizador, se não conseguir moderar seu narcisismo, ficará cada vez mais confinado no autoengrandecimento. E aí pode ser tudo, inclusive, abolido.

O maior risco para esse tipo de líder é ser confrontado com a rotina da vida real, que dissolve fantasias. Lula é filho do 1º de maio. Nasceu de movimentos, passeatas, greves, caravanas contra o patrão, o Estado, a instituição. Desenvolveu uma ideia de que é diferente de todo mundo e, assim, não reconhece a ninguém o direito de entendê-lo. Imaginou para si um mito sem carreira, profissão, salário, bens, rendimento, ônus reais, propriedades. Uma vida isenta e não tributável, sua subidentidade e pronto. A mais acabada missão de um missionário. Se fez um viciado contra os fatos.

Se não reconhecer seus erros, se decidir se comportar em Curitiba como provocador, confiando que Palocci abra o Livro das Revelações para ampliar o pântano e aprisionar o Brasil na desordem que o proteja, seu fim é ser mais um líder no prosaico painel do rame-rame populista latino-americano.

A vida real é mortal para o carismático. A Lava-Jato “humanizou” Lula, o sonâmbulo usuário de pedalinhos, tríplex, cachês, sítio, jatinhos, compadre. E como outros foram denunciados, perdeu a condição de injustiçado. Sobre ele desabou a pior inundação: sair do hit parade dos perseguidos.

Se conhecesse Ricardo III de Shakespeare, intoxicado pelo sucesso, não veria conforto no colo de Emílio. Saberia da lei que rege a cobiça: “A ambição será para cada um de nós o fim do outro”.

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Paulo Delgado é sociólogo.

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