terça-feira, 25 de julho de 2017

Opinião do dia - O Estado de S. Paulo

"O quadro desalentador que se apresenta diante da população fluminense está pintado com as tintas das canetas daqueles diretamente responsáveis pelos rumos do Estado: o governador Luiz Fernando Pezão e toda a linha sucessória, que parecem incapazes de fazer frente ao desafio que têm de enfrentar. Diante deste fato, não resta alternativa a não ser o apoio da União. Mas que a boa vontade do governo federal se volte apenas para a população que diariamente sofre as consequências dos desmandos de uma cúpula inepta, não para seus responsáveis diretos."

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Editorial, "Um Estado desgovernado" , O Estado de S. Paulo, 25/7/2017

Profissão: político | *Rubens Barbosa

- O Estado de S.Paulo

A profissionalização gera crescentes riscos para o exercício dos mandatos

O episódio lamentável da ocupação da Mesa Diretora do Senado – que serviu até de mesa de almoço – por senadoras que se opunham à aprovação da reforma trabalhista, contra todos os princípios de comportamento parlamentar, levou-me a reflexão sobre a atuação dos políticos na sociedade brasileira. Certamente, as nobres senadoras desconhecem uma das regras básicas na política, recomendada pelo cardeal Mazarino, homem público contemporâneo de Luís XIV, em seu Breviário dos Políticos, segundo a qual “é perigoso ser muito duro nas ações políticas”. A arte da política, como ensinou Maquiavel, consiste em organizar e superar as divergências entre partidos e pessoas, sem o que reinarão o conflito e a anarquia.

Max Weber, sociólogo alemão, assinalou que os políticos vivem “de” e “para” a política e que ela é não só uma vocação, mas também uma profissão. Uma vez entrando na política, são raros os que dela se afastam. Essa situação não existia na democracia ateniense. A regra era o sorteio, e não a eleição dos cidadãos, havia uma rotação de funções e as responsabilidades passavam de um cidadão para outro. Em alguns países essa situação ainda existe. Na Suécia, por exemplo, a renovação é de 40% e muitos dos que entram para a política depois retornam a suas atividades privadas.

A outra ameaça a Lula-18 | Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Uma das principais definições que o mundo político aguarda é se Luiz Inácio Lula da Silva poderá disputar a Presidência da República em 2018. Hoje ele aparece como favorito nas pesquisas de intenção de voto, mas, pela Lei da Ficha Limpa, perderá o direito de candidatar-se se o Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmar a condenação que já lhe foi imposta pelo juiz Sergio Moro.

Só que a Ficha Limpa não é a única ameaça à candidatura Lula. Como me fez ver o leitor Milton Córdova Júnior, advogado que milita em Brasília, a ADPF 402, aquele julgamento no Supremo em que se tentou tirar Renan Calheiros do comando do Senado no ano passado, também poderá impedir Lula de concorrer.

Esse foi um juízo particularmente confuso cujo acórdão ainda não saiu publicado. A única coisa que ficou clara por enquanto é que a maioria dos juízes entendeu que, por força do artigo 86, § 1º, I da Constituição, réus não podem assumir a Presidência da República. Os magistrados até permitiram que Calheiros continuasse comandando a Casa, desde que fosse excluído da linha sucessória.

Ecossistema das 'fake news' | Joel Pinheiro da Fonseca

- Folha de S. Paulo

A mídia perde espaço para um tipo 'jornalismo' que nem informa, cuja função é gerar 'narrativas' 

Quando a repórter da CBN noticiou, na quarta (19) de manhã, que "moradores de rua em São Paulo são acordados com jatos de água fria", a imagem na mente do público foi instantânea: prefeito higienista expulsando mendigos indefesos do centro a canhão d'água.

Mas não era bem isso. Conforme a própria matéria relatava, funcionários terceirizados da limpeza teriam sido negligentes e molhado pertences –sobretudo cobertores– de mendigos em vez de pedir que eles os retirassem antes de ligarem as mangueiras. O prefeito João Doria se prontificou a trabalhar com os funcionários da empresa para que esse tipo de descuido não mais ocorra.

Nenhuma pessoa foi alvo de jato d'água. Então a manchete mentiu? Não exatamente. Mesmo sem ter recebido o jato, pessoas foram acordadas por ele quando a água escorreu pelo chão e molhou seus pertences.

A manchete é verdadeira, mas a situação que ela descreve é diferente daquela que a maioria dos leitores imaginou quando a leu.

Presidencialismo enfraquecido | Merval Pereira

- O Globo

Não chegamos ao ponto a que chegou a Argentina no período entre 2001 e 2002, que teve cinco presidentes em 12 dias, mas que estamos num regime presidencialista em decadência, isso estamos. Na Argentina, após a queda de Fernando de la Rúa, devido a uma onda de protestos, o presidente do Senado, Federico Ramón Puerta, assumiu o governo interinamente, mas ficou apenas dois dias. O governador da província de San Luís, Adolfo Rodriguez Saá, foi eleito por 60 dias, mas, como parecesse querer um governo de vários anos, criando até uma nova moeda, acabou caindo rapidamente, oito dias depois.

Ramón Puerta assumiu novamente, mas durou apenas 15 minutos e renunciou. Eduardo Oscar Camaño, presidente da Câmara, assumiu em seu lugar e no dia seguinte a Assembleia elegeu Eduardo Duhalde, governador da província de Buenos Aires, que ficou no poder até maio de 2003, quando houve eleição presidencial para o mandato normal, vencida por Nestor Kirchner após Carlos Menem ter desistido do segundo turno.

Em causa própria | Eliane Cantanhêde

- O Estado de S.Paulo

Congresso prepara ‘surpresas’ contra a Lava Jato e a favor dos parlamentares

O Congresso Nacional já está levando palmadas da Lava Jato, broncas da opinião pública e notas baixas nas pesquisas, mas aproveita o recesso para fazer mais peraltices. Como o Estado vem antecipando, os parlamentares tentam usar a reforma política e a reforma do Código Eleitoral para favorecer os alvos da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal.

Um dos exemplos mais lustrosos é a tal “emenda Lula”, que aumenta de 15 dias para oito meses o prazo em que os candidatos às eleições já de 2018 não podem ser presos, a não ser em flagrante delito. Oito meses é uma eternidade. Principalmente para cometer crimes impunemente.

O discurso da vanguarda do atraso - João Domingos

- O Estado de S. Paulo

Mesmo desgastado pelas denúncias que o envolvem em suposto tráfico de influência e recebimento de propinas, além da condenação a 9 anos e 6 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda tem uma legião de seguidores. Essa legião costuma acreditar em tudo o que petista diz.

Sabendo-se detentor de um poder de comunicação que ainda o diferencia, Lula vem sistematicamente falando coisas que, em vez de ajudar uma parte da sociedade a evoluir, tem efeito contrário. Ao defender a criação de um fundo para o financiamento das campanhas eleitorais em entrevista à Rádio Tiradentes, Lula afirmou que foram os empresários e o Ministério Público que transformaram as doações de campanha em propina, uma forma de comprometer os políticos com o esquema de corrupção no País.

O busílis é a política | Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

As forças que hoje dão sustentação ao governo Temer não têm um discurso para enfrentar o populismo, à direita e à esquerda, porque a retórica economicista é um haraquiri eleitoral

Deve-se ao marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, a frase que virou case de marketing eleitoral: “É a economia, estúpido!”. Em 1991, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, havia vencido a Guerra do Golfo e resgatado a autoestima dos americanos após a dolorosa derrota no Vietnã. Assim, era o favorito absoluto nas eleições de 1992 ao enfrentar o então desconhecido governador de Arkansas. Clinton apostou que Bush não era invencível com o país em recessão e a frase de Carville virou a cabeça do eleitor.

Acenos ao mercado e zelo na defesa | Fernando Exman

- Valor Econômico

Temer quer apoio do Congresso para evitar riscos fiscais

O presidente Michel Temer quer chegar à semana que vem, quando o plenário da Câmara dos Deputados analisará a primeira denúncia da Procuradoria-Geral da República, com uma mensagem aos agentes econômicos e ao cidadão comum: o governo não está parado e pode fazer mais. Nos últimos dias, Temer reafirmou sua disposição em reequilibrar as contas públicas. E com uma sequência de anúncios de melhorias regulatórias em segmentos estratégicos da economia nacional, a qual será entremeada amanhã por um corte na Selic, o governo também fará acenos ao setor produtivo.

Desde que foi noticiado o conteúdo das gravação da conversa entre Temer e o empresário Joesley Batista, em meados de maio, o Palácio do Planalto viu ruir as expectativas em relação à capacidade do governo de fazer o país atravessar, com segurança e tranquilidade, uma ponte até a posse do próximo presidente da República. No entanto, na avaliação de autoridades, esse novo ambiente político não altera o fato de o atual governo ter conseguido apresentar diversas realizações em um período de tempo relativamente curto. Medidas que visam facilitar a vida do cidadão e das empresas instaladas no país.

Tempo de governo | Míriam Leitão

- O Globo

Os juros devem cair um ponto e voltarão esta semana a um dígito depois de quatro anos, o governo fará um plano de demissão voluntária, o Ministério das Minas e Energia colocou em consulta pública mudanças de regras da política energética. Tudo se passa como se não faltasse apenas uma semana para o Congresso se reunir para decidir se aceita ou não a denúncia contra o presidente da República.

Apesar da turbulência política que elevou os juros futuros e impactou a dívida pública em maio, os ativos financeiros voltaram a oscilar dentro da normalidade. O IPCA está muito baixo, os IGPs terminarão o ano em deflação, e o nível de atividade está muito reduzido. Não há razão alguma para os juros não caírem fortemente. A redução deve ser de um ponto percentual. O Banco Central tinha avisado que talvez tivesse que reduzir o ritmo da queda dos juros, mas não há razão alguma para qualquer diminuição do tamanho do corte. Por isso, os juros devem ir para 9,25%.

A sede pela preservação do poder | Maria Clara R. M. do Prado

- Valor Econômico

Provavelmente o futuro auspicioso previsto por Zweig há 76 anos não estará garantido a partir das eleições de 2018

Deslumbrado com a exuberância da floresta amazônica, com a pujança de São Paulo e com a criatividade do povo, Stefan Zweig, escritor austríaco e autor, entre outros, do livro Brasil, um País do Futuro (1941), impôs ao país a marca que ficaria para sempre registrada no imaginário popular. A sensação de um futuro que nunca chegará, de um futuro eterno e inalcançável, acabou por firmar-se, com os desmandos e a mediocridade prevalente no sistema político, como a mais realística interpretação do vaticínio de Zweig.

Já se disse que no Brasil até o passado é incerto. O futuro, então, não passaria de uma miragem recheada por um misto de devaneio, esperança e torcida. Via de regra, o futuro dificilmente se confirma no presente, o que o coloca sempre mais distante.

Um Estado desgovernado – Editorial | O Estado de S. Paulo

Uma crescente e indefinida sucessão de eventos mostra que o Rio de Janeiro está mergulhado em uma espiral de absurdos de difícil solução.

A recuperação da falência do Estado e a reversão de seus desdobramentos na prestação de serviços – notadamente nas áreas da saúde, da educação e da segurança pública – já seriam um enorme desafio para políticos administrativamente tarimbados e de imaculada reputação. Para a cúpula de poder que controla o Estado há pouco mais de uma década, passar sobre esse abismo parece ser um salto grande demais para suas limitadas competências.

Na semana passada, o governador Luiz Fernando Pezão foi a Brasília para mais uma rodada de negociações com a União, desta vez com o intuito de reforçar a segurança em seu Estado com o apoio da Força Nacional de Segurança Pública (FN) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Ao final de uma reunião com o presidente Michel Temer, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e Raul Jungmann (Defesa), Pezão anunciou com entusiasmo o envio ao Estado de 800 homens das tropas federais. Ao ser informado por um jornalista sobre o fato de grande parte deste contingente já estar em atuação no Rio desde maio, o governador, candidamente, mostrou-se surpreso: “Eu não sabia”. A nota oficial do Palácio Guanabara, que se seguiu à surpreendente declaração do governador, serviu para acentuar ainda mais a inadequação de Luiz Fernando Pezão para o importante cargo que ocupa ao dizer que o governador “não é especialista no assunto (segurança pública)”.

Sem pânico inflacionário – Editorial | O Estado de S. Paulo

A inflação continuará bem abaixo da meta de 4,5%, neste ano, mesmo com o aumento do PIS-Cofins sobre os combustíveis – pelo menos segundo economistas de instituições financeiras e consultorias consultados na pesquisa Focus do Banco Central (BC). Apesar de previsões catastróficas divulgadas por alguns meios de comunicação, os especialistas parecem ter ficado imunes ao pânico. A mediana de suas projeções para 2017 passou de 3,29% na semana anterior para 3,33% na sondagem fechada na sexta-feira passada e divulgada ontem. Já na sexta-feira, profissionais consultados pela Agência Estadohaviam antecipado uma pequena variação nos cálculos e novas estimativas nada assustadoras. A avaliação dos diretores do próprio BC deve ser conhecida amanhã à noite, quando for anunciada sua nova decisão sobre a taxa básica de juros, a Selic, atualmente fixada em 10,25%.

A proposta de uma antirreforma política – Editorial | O Globo

São inconcebíveis R$ 3,6 bilhões para campanhas e o ‘distritão’, de que se beneficiarão apenas políticos conhecidos, em prejuízo dos partidos e da renovação

A proximidade de outubro, quando se esgota o prazo para que mudanças na legislação eleitoral vigorem no pleito do ano que vem, agita um Congresso preocupado com as finanças da campanha. E como o tempo é curto, amplia-se a margem de risco da aprovação de medidas de um modo geral equivocadas, e, no caso do financiamento dos gastos eleitorais, contrárias ao interesse do contribuinte.

O perigo é real, como demonstra uma miscelânea batizada de reforma, sob relatoria do deputado Vicente Cândido (PT-SP), que ganhou notoriedade ao embutir emenda no projeto para que candidato condenado a até oito meses do pleito não seja preso. Logo recebeu o nome de “emenda Lula”, líder máximo do partido do deputado e condenado em primeira instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Abuso corrigido – Editorial | Folha de S. Paulo

Apresentando, até agora, um histórico de inegáveis sucessos, a Operação Lava Jato não deixou de conhecer, por vezes, os riscos do exagero e do descontrole.

Estão longe de comprometer o papel transformador que o combate à corrupção tem exercido sobre a política e o cotidiano brasileiros, mas sem dúvida suscitam vigilância. Numa democracia, todo poder —seja dos governantes, seja dos encarregados de investigá-los— exige contrapesos para não degenerar em arbitrariedade.

Um episódio, em particular, e um conceito, de forma geral, talvez tenham simbolizado com mais nitidez o momento em que a Lava Jato ultrapassou o limite da necessária suspeita investigativa para entrar no terreno da paranoia jacobina.

Cenário favorece o ajuste das contas externas – Editorial | Valor Econômico

As contas externas acabaram fechando o semestre melhor do que se esperava. Depois de engrossarem entre o fim de maio e começo de junho em consequência da turbulência política desencadeada pela delação dos donos da JBS, as saídas de capital estrangeiro diminuíram. O balanço de pagamentos fechou com superávit em conta corrente em junho, pelo quarto mês consecutivo. Foi o melhor resultado para junho desde 2004, e o melhor para um primeiro semestre desde 2007, último ano em que o país registrou um superávit em conta corrente.

O resultado em conta corrente de junho foi positivo em US$ 1,33 bilhão, em linha com a expectativa do mercado e uma reversão do déficit de US$ 2,5 bilhões registrado no mesmo mês de 2016. No acumulado do ano, a conta corrente passou a apresentar superávit, de US$ 715 milhões, o maior desde 2007, e o déficit acumulado em 12 meses recuou para US$ 14,328 bilhões ou 0,76% do PIB. A melhora dos números foi sustentada novamente pela balança comercial, que apresentou superávit de US$ 6,963 bilhões, acima dos US$ 3,7 bilhões do mesmo mês de 2016. No ano, o saldo comercial atingiu US$ 34,9 bilhões.

Debate: o pensamento de Gramsci 80 anos após sua morte

A Fundação Astrojildo Pereira (FAP) em parceria com a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) promovem a Mesa Redonda Um pouco de Gramsci nessa crise não faz mal a ninguém, a propósito dos 80 anos da morte do pensador italiano Antonio Gramsci.

Expositores:
Andrea Lanzi (Secretário Geral do Partido Democrático, PD, no Brasil)

Luiz Sérgio Henriques (tradutor e ensaísta)

Luiz Werneck Vianna (Sociólogo, PUC-RJ)

Coordenação:
Alberto Aggio (FAP)


Local: ABI-RJ, Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro, 7º. Andar.

Data e horário: 21 de agosto de 2017, segunda-feira, às 18h

Alckmin reúne DEM, e aliado prevê desembarque do governo

Maia e ministro jantam com governador no Palácio dos Bandeirantes e discutem assédio a deputados do PSB

Pedro Venceslau Caio Rinaldi, O Estado de S. Paulo

Principal aliado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, na Executiva do PSDB, o deputado federal Silvio Torres (SP), secretário-geral da legenda, disse ontem em entrevista à TV Estadão que depois da votação da admissibilidade da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer no plenário da Câmara dificilmente os tucanos continuarão no governo. A declaração foi feita poucas horas antes de um jantar que começou às 21h30 a pedido da cúpula do DEM na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

O encontro, que não estava na agenda oficial de Alckmin, durou uma hora e meia e reuniu o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM-PE), o líder do DEM na Casa, Efraim Filho (PA), o senador e presidente da legenda, José Agripino Maia (RN) e Rodrigo Garcia (SP).

Em jantar com Alckmin, DEM sinaliza apoio para 2018 e fala em bancada de 50 deputados

Segundo um dos presentes, a reunião, que contou com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o senador e presidente da sigla, José Agripino Maia, foi uma 'deferência' ao governador, visto como um aliado 'histórico' do partido

Pedro Venceslau e Marcelo Osakabe, O Estado de S.Paulo

Em jantar com o governador Geraldo Alckmin no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, na noite desta segunda-feira, 21, a cúpula do DEM informou ao tucano que o partido espera contar com pelo menos 50 deputados federais na janela de transferência partidária prevista para ocorrer no início de 2018. Ao menos 12 deles viriam do PSB, partido do vice-governador Márcio França, um dos principais aliados de ALckmin e que disputa a presidencia nacional do partido.

No encontro que reuniu o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), o ministro da Educação, Mendonça Filho (PE), o senador e presidente da sigla, José Agripino Maia (RN), o deputado Efraim Filho (PB), o secretário de Habitação do Estado, Rodrigo Garcia, e o prefeito de Salvador, ACM Neto, o tucano foi informado de que o DEM, que hoje tem 31 deputados, sendo 29 em exercício, calcula que vai chegar a 50 deputados, se tornando uma das maiores bancadas da Câmara e superando a do PSDB, que tem 46.

Lúcio Vieira Lima -deputado (PMDB-BA) presidente da comissão da reforma política

Lydia Medeiros, O Globo

_ Que lei eleitoral o Congresso vai aprovar para 2018?

– Financiamento público; fim das coligações, para 2018 ou 2022; e novo sistema eleitoral. 

Acha que o distritão é o melhor modelo?

Nas atuais condições, sim. O voto em lista é criticado por supostamente esconder parlamentares com imagem ruim. No distritão, o positivo é que se eliminam as coligações. Evita-se o “voto Tiririca” e barateiam-se as eleições. O ponto negativo seria prejudicar os partidos, por valorizar os candidatos. Mas estragar mais a imagem dos partidos é impossível. 

Qual a solução para o financiamento eleitoral?

A política virou a Geni. O modelo empresarial é dito como o responsável pela Lava-Jato. Se for bancado pelos próprios candidatos, só se elegem os ricos. Nem Jesus agradou a todos. O modelo será financiamento público com doações privadas de pessoas físicas, com teto. Tem que haver financiamento público, ou não tem campanha.

A lei precisa ser aprovada até setembro. Por que sempre fica para a última hora?

É como tudo naquela Casa. Acho graça. A questão não é ser de última hora. A dificuldade é haver consenso.

Ajufe defende Moro de críticas de aliados de Lula

Associação ataca políticos que usam imunidade para ofender juiz

- André de Souza, O Globo

-BRASÍLIA- A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) saiu em defesa de seu associado mais famoso: Sergio Moro. Em nota divulgada ontem, a entidade rebateu os ataques que vêm sendo feitos ao magistrado em razão da sentença em que ele condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá.

A Ajufe manifestou “veemente repúdio contra as atitudes ofensivas à honra pessoal do magistrado por estar cumprindo o seu dever, que é conduzir os processos judiciais e julgá-los”. Também criticou a atitude de políticos aliados de Lula que, ao defenderem o ex-presidente, atacaram Moro, juiz responsável pelos processos da operação Lava-Jato na primeira instância.

Alckmin recebe cúpula do DEM em encontro que pode aproximar siglas

Por Ricardo Mendonça, Fernando Taquari e Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

SÃO PAULO E BRASÍLIA - Um jantar entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), pode marcar o início de uma reaproximação entre as duas siglas com vistas às eleições de 2018. Previsto para a noite de ontem, o encontro no Palácio dos Bandeirantes tinha como convidados outros líderes do DEM, como o ministro da Educação, Mendonça Filho, e o prefeito de Salvador, ACM Neto.

"Com o jantar, Alckmin faz um gesto político para evitar o descolamento entre os partidos e pretende neutralizar um eventual desejo de Maia de fazer voo solo na disputa eleitoral pela Presidência da República em 2018. O governador enxerga no DEM um potencial aliado para a corrida presidencial do ano que vem e não quer que o partido de Maia se transforme em um potencial oponente", afirmou um interlocutor de Alckmin ao Valor PRO.

Maia foi apontado como mentor das articulações para inflar a bancada de deputados do DEM, retirando integrantes do PSB, partido que é um potencial aliado de uma candidatura presidencial de Alckmin em 2018.

França demarca distância do Planalto

Por Fernando Taquari e César Felício | Valor Econômico

SÃO PAULO - Uma solução para a crise interna no PSB, dividido em relação ao afastamento do cargo do presidente Michel Temer, teria sido uma "saída honrosa do governo", de acordo com o vice-governador paulista, Márcio França, que é dirigente da sigla e um dos possíveis sucessores de Carlos Siqueira no comando do partido a partir de outubro deste ano, quando a Executiva Nacional deve ser renovada.

Atualmente a pasta de Minas e Energia é ocupada pelo deputado federal licenciado Fernando Coelho Filho (PE), que não aceitou a recomendação da direção do partido de se afastar do governo. O ministro recebeu apoio de um grupo minoritário de deputados, que segue a orientação da líder da bancada, Tereza Cristina (MS).

Por apoio, Temer vai ligar para 80 deputados

Presidente recebeu de vice-líder do governo na Câmara lista de indecisos sobre denúncia

Tânia Monteiro e Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer passou o dia nesta segunda-feira, 24, ao telefone para tentar convencer parlamentares a votar contra o prosseguimento da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) por corrupção passiva com base na delação do Grupo J&F. Pela contabilidade do Palácio do Planalto e da base aliada na Câmara, cerca de 80 deputados são considerados indecisos.

Os parlamentares estão fora de Brasília e, na quarta-feira da próxima semana, o plenário da Casa deve começar a analisar a acusação formal contra o presidente. De posse de uma lista com números de telefones dos deputados preparada por Beto Mansur (PRB-SP), vice-líder do governo na Câmara, Temer tem ligado para cada um deles.

O cão sem plumas | João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Toquinho & Baden Powell - Choro "ODEON"

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Opinião do dia – Marco Aurélio Nogueira

Ainda dá tempo. Arquivemos o maximalismo que transfere a um presidente “mágico” o poder de reformular tudo. Pensemos no passo a passo, a ser lapidado pela política com um “p” maior, que faça os representantes pensarem mais no coletivo que em seus próprios interesses. Valorizemos a política, não só para termos eleições mais limpas e frutuosas, mas para que nos encontremos com o País em que queremos viver.

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*Professor titular de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp, “O País possível”, O Estado de S. Paulo, 22/7/2017

Os próximos passos da difícil travessia | Marcus Pestana

- O Tempo (MG)

O que é possível esperar desse segundo semestre? Há luz no final do túnel? Os diversos cenários possíveis autorizam um olhar otimista sobre o futuro?

O passado nos legou uma crise monumental de múltiplas faces. Os erros de política econômica derivaram em milhões de desempregados, déficit público pornográfico, juros estratosféricos, endividamento alto. A corrupção generalizada e institucionalizada serve um cardápio indigesto a uma sociedade perplexa e indignada. As instituições funcionam, mas nem sempre harmoniosamente. Há um evidente vácuo de liderança. E uma profunda perda de credibilidade e confiança do sistema político como um todo.

Daqui a um ano iniciaremos um novo processo eleitoral que elegerá o Presidente da República, governadores, senadores e deputados. Pode ser um reencontro do Brasil com o seu destino e futuro. Mas não está descartada a possibilidade de pegarmos um atalho errado atolado no populismo e no salvacionismo. A desesperança e a radicalização podem dificultar a reorganização do centro político e propiciar extremismos indesejáveis. Mas o importante é chegarmos vivos às eleições de 2018.

Trair e cassar, é só… | Jose Roberto de Toledo

- O Estado de S. Paulo

Temer é um incompreendido. Aumentou imposto e disse que a população compreenderia. Não compreendeu. Talvez porque no programa que lançou sua candidatura presidencial para o establishment – a “Ponte para o futuro” -, o então vice empregou 11 vezes a palavra “impostos”, no plural e no singular, e em nenhuma delas com o intuito de aumentá-los. Ao contrário, prometeu fazer de tudo para reduzi-los. Percebe-se agora que, além de superfaturada, a tal ponte era um estelionato eleitoral.

Estelionato porque levou ao lado oposto do que prometera aos patrocinadores. E eleitoral porque foram os compromissos assumidos naquele documento – espécie de “carta ao empresariado brasileiro” – que ajudaram a garantir, direta ou indiretamente, os votos parlamentares necessários para o vice destronar sua companheira de chapa. Nisso que dá confiar na Turma do Pudim.

PSDB, uma nau à deriva | Ricardo Noblat

- O Globo

“A Lava-Jato tem de ter prazo de validade. Tudo tem de terminar.” FÁBIO RAMALHO (PMDB-MG), vice-presidente da Câmara

A nove dias da sessão da Câmara que decidirá sobre o pedido de licença para que o presidente Michel Temer seja julgado por corrupção, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o terceiro maior do país em número de filiados e o segundo em número de governadores e de ministros de Estado, ainda não sabe se é a favor ou contra. Por não saber, liberou seus 46 deputados para que votem como quiser.

A UM ANO DAS CONVENÇÕES que indicarão os candidatos à próxima eleição presidencial, o PT tem candidato — Lula. O PDT, também — Ciro Gomes. A REDE tem — Marina Silva. Até o minúsculo PSC tem candidato — Jair Bolsonaro, o segundo nas pesquisas de intenção de voto. O PSDB não tem. O governador Geraldo Alckmin (SP) quer ser. O prefeito João Doria (SP), também. E até os senadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).

Estímulos contraditórios | Vinicius Mota

- Folha de S. Paulo

Os manifestantes que protestaram em 2015 e 2016 ao lado dos patos inflados na avenida Paulista tinham um encontro marcado com a frustração.

Os impostos, cedo ou tarde, teriam de ser elevados diante da equação política que fechava as portas para correções ao mesmo tempo substanciais e tempestivas no grosso das despesas orçamentárias.

Demorou, mas aconteceu. A necessidade de fechar as contas de 2017, de assegurar que o buraco depois de quitados os compromissos não financeiros da União fique "apenas" em R$ 139 bilhões, levou o Planalto a autorizar uma pequena derrama no mercado de combustíveis.

A economia tem pressa | Leandro Colon

- Folha de S. Paulo

O recesso parlamentar costuma ser um período pacato e escasso em termos de notícias políticas e econômicas. Mesmo assim, o governo de Michel Temer conseguiu a proeza de gerar uma agenda negativa para o presidente com o aumento de imposto sobre os combustíveis.

Era o que Temer menos precisava agora. Logo depois do anúncio da medida, ele declarou, em viagem a Mendoza, que a população "irá compreender" a decisão. Veio com o blá-blá-blá de que ela será fundamental para cumprir a meta fiscal.

Temer deveria ter a coragem de admitir que a crise política em que o governo se meteu tem grande parcela de culpa na redução de receita e no consequente reajuste de tributo.

Parlamentarismo e importação de ideias | Denis Lerrer Rosenfield

- O Globo

Volta e meia, imerso em crises, o país vê-se confrontado com propostas de reforma política, voltadas para a implementação do parlamentarismo no país. É como se, em um passe de mágica, todos os problemas fossem suscetíveis de um equacionamento simples, baseado em uma mera troca de sistema de governo. O problema, porém, reside em que as instituições parlamentaristas muito bem funcionam no nível dos princípios ou em seus países de origem. Nada disto, porém, corresponde ao seu funcionamento quando transplantadas a outros países de tradições e histórias distintas.

A questão, muito bem analisada na obra de Oliveira Vianna, consiste na refração das ideias e no deslocamento das instituições. Teria sentido simplesmente importar um sistema de governo? Seria ele “importável”? As ideias ganham, neste processo, outro significado a despeito de guardarem a aparência de sua significação anterior. Os “importadores” podem ter, inclusive, a melhor intenção, mas seus efeitos podem também não corresponder ao que foi projetado.

Uma reforma não tão cândida -| Fernando Limongi

- Valor Econômico

Viabilizar candidaturas alternativas em 2018 não será tarefa fácil

Finalmente, depois de longo silêncio e muitos rumores, o deputado Vicente Cândido (PT-SP) soltou a versão final do anteprojeto de reforma política. A retomada dos trabalhos está prevista para o início de agosto, marcando a largada da disputa pela cadeira presidencial.

A nova lei regulará a distribuição de recursos públicos para as campanhas. Ao contrário do que reza o mito, já faz muito tempo que esta distribuição é crucial para os resultados eleitorais. No atual contexto de vacas magras, se tornaram ainda mais importantes.

Como sempre, muito do anunciado ficou pelo caminho. Ainda assim, se aprovada, a reforma terá consequências radicais. O projeto prevê a constituição do Fundo Especial de Financiamento da Democracia (FDD), altera a distribuição do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) nas eleições majoritárias e, por último, impõe tetos de gastos às campanhas.

Agora colou? | Cida Damasco

- O Estado de S. Paulo

Mercados ainda resistem à crise política, mas área fiscal expõe governo sob pressão

Na contramão do andamento da crise até recentemente, muitos analistas passavam metade do seu tempo rastreando sinais de que a economia brasileira descolou da política. E a outra metade atribuindo ao Congresso e aos lobbies corporativos grande parte dos males que têm acentuado a fragilidade do quadro fiscal, cada vez mais visível na prestação dos serviços públicos. Na quinta-feira, um segundo após o anúncio do aumento dos impostos sobre combustíveis, já pipocavam as avaliações de que a culpa por essa decisão da equipe econômica cabia principalmente aos aumentos fora de hora concedidos a servidores públicos e à redução de receitas, com a mudança feita no Congresso no programa de refinanciamento de dívidas tributárias, o Refis. Pergunta obrigatória: se isso não configura uma relação estreita entre política e economia, o que configuraria?

Populismo à espreita | Luis Eduardo Assis

- O Estado de S. Paulo

O que ronda o País rejeita a classe política, crê no poder ilimitado do Estado e acusa os outros por suas mazelas

É preciso ver o Brasil com as lentes do Dr. Pangloss para acreditar que o debate eleitoral em 2018 não será caracterizado pela retórica populista. O texto de referência sobre o populismo econômico continua sendo o livro organizado por R. Dornbush e S. Edwards (The Macroeconomics of Populism in Latin America, 1991), para o qual o atual presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, contribuiu com um capítulo particularmente interessante (60 Years of Populism in Brazil). Na época, indagava-se por que as economias latinoamericanas repetiam ciclos que começavam com a expansão fiscal e terminavam com a desvalorização cambial e hiperinflação. As coisas mudaram muito desde então. Mas não há dúvida de que o populismo está em voga novamente, e não só na América Latina. Artigo recente do analista de investimentos Ray Dalio (Populism: The Phenomenon, Bridgewater, março de 2017) propõe um índice para medir o populismo e conclui que a adesão a este ideário é hoje a mais alta desde o tempo de Mussolini, Hitler e Franco. O economista Dani Rodrik também revisitou o tema recentemente (Populism and the Economics of Globalization, NBER, junho de 2017) e defende a tese de que o irrompimento do populismo, na sua versão corrente, tem a ver com as consequências da redução das barreiras ao comércio internacional e à livre movimentação de capitais.

Eleições podem impor retrocesso às reformas | Angela Bittencourt

Valor Econômico

PSDB é atestado de política econômica dirigido ao mercado

A eleição presidencial de 2018 poderá minar o esforço empreendido até agora para aprovar reformas estruturais com o objetivo de promover uma recuperação econômica, capaz de minimizar os efeitos inquestionáveis da Operação Lava-Jato sobre a atividade.

Para grandes investidores, é de 90% a probabilidade de o próximo governo dar continuidade às reformas estruturais e garantir ao Brasil uma política fiscal sustentável e que dará suporte para uma taxa de crescimento econômico igualmente sustentável.

Os investidores não consideram a possibilidade de a corrida eleitoral mostrar que a probabilidade do ajuste é de 50% e não de 90%. Se for configurado o cenário de 50%, os preços dos ativos financeiros sentirão o baque em função da reestimativa do sucesso já creditado não se sabe a quem.

A miséria da esquerda – Editorial | O Estado de S. Paulo

Os intelectuais petistas começam a admitir em voz alta aquilo que seus colegas militantes apenas murmuravam aqui e ali: a esquerda - como eles a entendem - é totalmente dependente de Lula da Silva para existir como força eleitoral. Sem o demiurgo petista e suas bravatas demagógicas, reconhecem esses amuados ativistas, os partidos do dito “campo popular” dificilmente serão capazes de comover os eleitores com seu discurso estatizante, baseado na puída tese marxista da luta de classes. Ou alguém acredita que Dilma Rousseff, que se julga herdeira de Leonel Brizola e seu esquerdismo terceiro-mundista, teria sido eleita e reeleita presidente da República não fosse seu padrinho?

“Impedir o PT de ter um candidato competitivo a um ano do pleito equivale a banir a esquerda da vida política”, sentenciou o professor de História da USP e autor do livro História do PT, Lincoln Secco, em recente entrevista ao Estado. Segundo Secco, “a esquerda não tem plano B sem o Lula”. Mais do que isso: o professor petista considera que, “sem apoio do Lula, nenhum candidato da esquerda se viabiliza”.

Lição da realidade – Editorial | O Globo

Estudar a economia dos últimos 14 anos é básico para se saber o rumo que o país tem de seguir

Usada em incontáveis tentativas de terapias contra inflação e recessão, a economia brasileira tem servido de laboratório para vários experimentos. O mais bem-sucedido, o Plano Real, cortou a trajetória rumo ao infinito da inércia inflacionária — pela qual, a inflação sobe hoje porque subiu ontem —, fez uma troca de moeda engenhosa e ainda pôde corrigir o erro de uma âncora cambial rígida, sem colocar tudo a perder. Foi o que aconteceu em 1999, no início do segundo mandato de FH, quando se liberou o câmbio e estabeleceu-se a política do tripé — câmbio oscilante, gastos sob controle e metas de inflação.

Tanto deu certo que tem permitido a reconstrução da economia, nesses mesmo moldes — depois da catástrofe lulopetista de uma recessão na faixa de 8%, desemprego de 14 milhões de pessoas e inflação mais uma vez em dois dígitos —, embora ainda falte a sinalização de uma saída para a crise política, a fim de haver um horizonte claro para investidores e consumidores.

Temer ruralista – Editorial | Folha de S. Paulo

Seja por afinidade ideológica, interesse econômico ou necessidade de sobrevivência política, o fato é que o presidente Michel Temer (PMDB) abraça com vigor incomum a agenda da poderosa bancada de deputados e senadores ligados ao setor agrícola.

Desde o início de sua gestão, há pouco mais de um ano, as políticas agrárias, ambientais e indigenistas do governo não raro subordinam-se à bandeira ruralista de revogar ao máximo as restrições ao uso comercial da terra.

Tal comportamento tende a se acentuar, ao que parece, com o enfraquecimento de Temer e a busca de votos para barrar na Câmara dos Deputados a acusação de corrupção apresentada pela Procuradoria-Geral da República.

Assim o indicam três medidas tomadas em intervalo de poucos dias. A primeira delas, a sanção de novas regras de regularização fundiária na Amazônia, a distribuir benesses a quem se aproveita da grilagem na região.

Governo eleva tributos e aperta contingenciamento – Editorial | Valor Econômico

Entre uma péssima medida e uma medida muito ruim, o governo optou pela segunda - aumentar impostos. Modificar a meta de ajuste fiscal, déficit de R$ 139 bilhões, no ano de estreia do teto de gastos e realizar um rombo ainda maior fulminaria as já baixas expectativas em relação ao governo de Michel Temer. O aumento do PIS-Cofins sobre combustíveis ajudará a compensar parte da frustração de receitas advindas de uma economia que se recupera muito devagar. Elevar impostos é o expediente de todos os governos desde a redemocratização do país. No entanto, sem cortar ou congelar salários, demitir, eliminar subsídios e melhorar a gestão pública, o único e óbvio caminho que resta para atingir a meta foi o aumento de tributos.

O contingenciamento de gastos foi ampliado em R$ 5,95 bilhões, para R$ 44 bilhões. Como as despesas obrigatórias são R$ 1,05 trilhão de um orçamento de R$ 1,28 trilhão, a contenção de gastos tem sido forte sobre a parcela "livre" dos recursos - a penúria recaiu especialmente sobre os investimentos, que já diminuíram quase 50% no ano até maio. As despesas discricionárias recuaram 35%.

Congresso deve aprovar reforma política esvaziada

Parlamentares têm até setembro para alterar as regras eleitorais para 2018

Ainda em discussão na Câmara, projeto quer criar fundo eleitoral com dinheiro público e barrar partidos nanicos

Talita Fernandes, Angela Boldrini, Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O Congresso deve votar em agosto um projeto esvaziado de reforma política, com foco na criação de mais um fundo público de financiamento dos candidatos.

Os parlamentares estudam retomar o modelo de doações empresariais, proibido desde 2015 pelo STF(Supremo Tribunal Federal), apesar do escândalo da Lava Jato, que atingiu em cheio empresas doadoras de campanhas.

Apesar do grande volume de propostas debatidas na Câmara e no Senado –que incluem até a volta do parlamentarismo o resultado final tende a ser esquálido.

A comissão da reforma política foi criada em março ma Câmara, mas o projeto tramita com lentidão. O assunto ficou em segundo plano em meio à crise política.

O parecer do relator Vicente Cândido (PT-SP) foi concluído há mais de três meses, mas ainda não passou por votação nem mesmo no próprio colegiado.

O debate não poderá se alongar. Congressistas têm até o fim de setembro para aprovar as regras das eleições de outubro de 2018 –a Constituição determina que só valem medidas aprovadas com pelo menos um ano de antecedência do pleito.

PSB enfrenta dificuldades em seu principal reduto

Por Marina Falcão | Valor Econômico

RECIFE - O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), deve enfrentar um duro cenário pela reeleição no ano que vem. Com a popularidade em baixa, Câmara assiste ao afastamento de antigos aliados do PSDB e do DEM, dos ministros Bruno Araújo (Cidades) e Mendonça Filho (Educação), e da ala do PSB liderada pelo também ministro Fernando Filho (Minas e Energia) e seu pai, o senador Fernando Bezerra Coelho. Um eventual apoio de Lula, que traria fôlego ao governador nas urnas, é descartada pelo PT no Estado.

Uma pesquisa do Instituto Uninassau, em abril, mostrou Câmara com apenas 6% das intenções de voto, atrás do senador Armando Monteiro (PTB), com 22%, e de Mendonça Filho (DEM), com 12%. Bruno Araújo (PSDB) apareceu em quarto, com 2%.

O levantamento, embora ainda distante da eleição, revela o desgaste da imagem da gestão de Câmara, prejudicada pelo recrudescimento da violência em Pernambuco. O primeiro semestre deste ano, com 2.876 homicídios no Estado, foi o mais violento desde a criação do Programa Pacto pela Vida pelo ex-governador Eduardo Campos, dez anos atrás.

DEM aproveita crise do PSDB e aumenta bancada

Por Cristian Klein | Valor Econômico

RIO - Com a projeção nacional do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o esforço de filiações, o DEM, antes ameaçado de extinção, está empolgado. Vê uma brecha para sair da sombra do PSDB e se firmar como o partido programático de centro-direita no Brasil. As negociações em curso já acertaram a chegada de um novo deputado, do Acre, dentro da meta de elevar a bancada federal a, pelo menos, 40 parlamentares.

O DEM que quer ser o PT do campo liberal vai reformular seu estatuto e planeja voltar a ocupar governos estaduais. Três são as apostas principais para 2018: Rodrigo Maia, no Rio; o prefeito de Salvador ACM Neto, na Bahia, atualmente as duas seções mais expressivas do partido, e o senador Ronaldo Caiado, em Goiás. Um dos três, afirma o líder da bancada federal, Efraim Filho (PB), pode eventualmente ascender à disputa nacional. "O DEM tem condição de ocupar esse espaço. O PSDB ainda passa por dúvidas, não há candidatura posta, vive divisões internas", diz.

Dividido, PSB corre o risco de se esfacelar

Quatro grupos disputam poder no partido; racha atinge até a família Campos

Sérgio Roxo, O Globo

-SÃO PAULO- Quase três anos depois da morte do então candidato a presidente da República Eduardo Campos, o seu partido, o PSB, corre o risco de se esfacelar. Dividida em quatro correntes, a legenda tenta encontrar um rumo para as eleições de 2018, em meio à disputa interna de poder.

Na última semana, o clima esquentou com a oferta do presidente Michel Temer para que um grupo de dez parlamentares descontentes, que negociava a filiação ao DEM, embarcasse no PMDB. O PSB ainda ocupa um ministério no governo, o de Minas e Energia, com Fernando Bezerra Coelho Filho, mas a cúpula partidária defende o desembarque e tem se oposto às reformas trabalhista e da Previdência.

O quadro é muito diferente do vivido entre 2012 e 2014, quando a sigla recebeu uma enxurrada de adesões, inclusive com filiações de políticos não identificados com as origens socialistas do PSB. Entraram na legenda nessa época, por exemplo, o deputado Heráclito Fortes (PI), que iniciou a carreira na Arena (partido de sustentação do regime militar), e a atual líder da bancada, Teresa Cristina (MS), representante do agronegócio. Ambos fazem parte do time que agora negocia a saída. Em 2012, a legenda foi a que mais elegeu prefeitos de capitais: cinco no total.

Reforma sob medida para os deputados

Consenso é garantir que fundo de R$ 3,6 bi privilegie os parlamentares em atividade

Jeferson Ribeiro, O Globo

Por trás da grande mobilização de deputados para votar, no retorno aos trabalhos em agosto, uma extensa lista de mudanças nas regras eleitorais, alterando até mesmo dispositivos constitucionais, há dois objetivos não declarados: manter a hegemonia dos grandes partidos (PMDB, PT e PSDB) diante do novo financiamento público de campanhas e garantir condições para reeleição dos atuais parlamentares.

Segundo políticos envolvidos na negociação, ouvidos pelo GLOBO, de tudo o que se discute, o que caminha para avançar efetivamente, com a concordância da maioria dos partidos grandes e médios, é a criação do Fundo Especial de Financiamento da Democracia (FFD), que receberá cerca de R$ 3,6 bilhões dos cofres públicos para pagar a campanha eleitoral dos candidatos em 2018. Um terço deste montante deve ser rateado entre PT, PSDB e PMDB.

Para aliados, Marina voltará a se candidatar

Por Fernando Taquari, Daniela Chiaretti e Cristiane Agostine | Valor Econômico

SÃO PAULO - A ex-senadora e ex-ministra Marina Silva (Rede) passou a dar sinais a aliados de que pretende disputar a Presidência da República em 2018, pela terceira vez consecutiva. Marina é, de largada, a principal beneficiária dos votos de Luiz Inácio Lula da Silva, no caso de um eventual impedimento da candidatura do ex-presidente. Em meio ao desgaste dos partidos e seus quadros, tem a vantagem competitiva de não ser identificada com a política tradicional.

A eventual candidatura da ex-ministra, no entanto, esbarra na estrutura precária do Rede, considerado um partido nanico, com quatro deputados federais, tempo de televisão residual, poucos recursos e capilaridade restrita. Os dirigentes da legenda, como a própria Marina e a ex-vereadora Heloísa Helena, têm se dedicado em organizar o partido nos Estados. Outra preocupação é com a saúde frágil da ex-senadora. O cenário eleitoral de 2018 indica uma campanha conturbada e uma disputa acirrada.

Marina ainda não fala em candidatura. Em entrevista ao Valor, diz que está em "fase de discernimento". "Tenho conversado com algumas pessoas muito próximas do Rede, amigos e família. Não tomei esta decisão, ainda que tenha presente a grande responsabilidade em relação ao momento que o país está vivendo".

A ex-senadora, porém, tem se articulado. Há uma semana, viajou ao Rio de Janeiro para um encontro com artistas e intelectuais, organizado pelo ator Marcos Palmeira. Após a condenação de Lula em primeira instância por corrupção e lavagem de dinheiro, no dia 12, marcou posição contra o ex-presidente ao afirmar que a sentença do juiz Sergio Moro "mostra que ninguém está acima da lei". Um dia depois, foi a Brasília e se reuniu com o senador Randolfe Rodrigues (AP) e o deputado Alessandro Molon (RJ) para debater o cenário político-eleitoral.

A floresta | Vinicius de Moraes

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos despenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gosto saboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.
Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brida.

Marisa Monte - Feitio de oração

domingo, 23 de julho de 2017

Opinião do dia - Sérgio Abranches

Aprovar, a esta altura, o chamado ‘distritão,’ como estão se preparando para fazer no Congresso, é um retrocesso radical. Este é o mais primitivo modelo de eleição, depois que se abandonou o ‘modelo censitário,’ que definia um piso de renda para que homens adultos pudessem votar. Ninguém mais. As democracias que adotaram o ‘distritão’ o abandonaram em momentos muito iniciais de seu amadurecimento, assim que surgiram os partidos políticos. É por isso que nenhuma democracia séria o utiliza hoje. Eleger os mais votados parece fazer sentido. Mas, na verdade, favorece os que têm acesso a bolsões eleitorais controlados de forma clientelista. Esse sistema sufoca a representação e reforça o poder das oligarquias. Vai aumentar o desencanto com a democracia no Brasil.

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Sérgio Abranches, cientista político, em Ancelmo Gois, O Globo, 22/7/2017

O Brasil tem jeito? | Bolívar Lamounier *

- O Estado de S.Paulo

Com os três principais partidos incapazes de se transformar, País não periga dar certo

Num texto publicado neste espaço no dia 13/7, intitulado O puma, os piratas e outros bichos, o senador José Serra (PSDB-SP) fez uma instigante análise da pulverização partidária brasileira. Misericordioso, Serra fez o possível para não melindrar seus leitores; consciente de que se trata de uma realidade trágica, optou por pintá-la no tom pastel das boas comédias.

Meticuloso, não se esqueceu de ressaltar paralelo entre o famigerado imposto sindical, a água turva na qual o peleguismo se alimenta desde a ditadura Vargas, com o atual Fundo Partidário, sem o qual a exponencial fissão partidária que conspurca nossa vida política já teria sido interrompida há muito tempo. A esse respeito, Serra escreveu: “A criação em série de partidos, no Brasil, não visa a preencher novos espaços doutrinários, trata-se de abocanhar recursos do Fundo Partidário, subvencionado pelo Orçamento federal, e, sobretudo, tirar proveito do tempo gratuito de TV”.

O chega-pra-lá da PF | Eliane Cantanhêde

- O Estado de S.Paulo

Parecer da PF sobre gravações de Machado é alerta para atuais e futuros delatores

O relatório de 70 páginas da Polícia Federal (PF) desclassificando as gravações do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com os peemedebistas José Sarney (MA), e os senadores Romero Jucá (RR) e Renan Calheiros (AL) como prova de obstrução de Justiça é um marco no festival de delações da Lava Jato. O sinal é que elas têm sido de enorme utilidade para desvendar a incrível teia de corrupção no País, mas tudo tem limite. Não é qualquer gravação, a qualquer hora, que deve ser considerada e dar benefícios generosos aos autores.

Os acordos mais criticados são justamente os de Machado, que passou dez anos desviando recursos na Transpetro, mas está numa boa com os filhos milionários, e os dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que tiraram a sorte grande várias vezes no Brasil e corromperam centenas de políticos, mas saíram ilesos e fazem a festa nos EUA.

A conclusão da PF é que as conversas de Machado com o ex-presidente da República e os dois senadores são apenas isso... Conversas. Não há provas de que as palavras foram seguidas de atos e que eles efetivamente atuaram para criar dificuldades à Lava Jato e obstruir a Justiça. Podem até ter feito, mas provas não há.

As vantagens de ser invisível | Vera Magalhães

- O Estado de S.Paulo

Desejo de não ser visto para não ser incomodado parece ser o que resta a Michel Temer no que lhe resta de seu mandato-tampão

O título desta coluna é também o de um best-seller norte-americano para o público jovem, que virou um filme muito bom. Narra as agruras de um menino de 17 anos para sobreviver sem ser incomodado no ambiente hostil do ensino médio. O desejo de não ser visto para não ser incomodado e assim ir passando os dias parece ser o que resta a Michel Temer no que lhe resta de seu mandato-tampão.

Um dos principais discursos com os quais Temer se apresentou ao mercado, à sociedade e ao Congresso como alternativa para substituir Dilma Rousseff foi o da austeridade fiscal, que permitiria ao País superar a crise econômica prolongada em que o PT o enfiou com a malfadada nova matriz econômica e retomar alguma previsibilidade.

A tal Ponte para o Futuro pregava esses princípios. A composição da equipe econômica teve esse viés. A apresentação das reformas logo de cara era coerente com esse propósito, a definição de um teto de gastos públicos foi uma sinalização de que isso ocorreria.

Uma questão delicada | Merval Pereira

- O Globo

Não é sem propósito que o presidente Michel Temer, sempre que pode, diz que a gravação que Joesley Batista fez da conversa dos dois naquela noite no Palácio Jaburu é ilegal, mesmo sabendo que existe uma jurisprudência do Supremo Tribunal Federal que considera prova válida a gravação de um dos interlocutores de uma conversa.

Se a Câmara não barrar o processo contra ele, caberá ao STF decidir se aceita a denúncia, e Temer e seus advogados jogam tudo na possibilidade de que a validade da gravação será colocada em debate no plenário.

O ministro Gilmar Mendes, por exemplo, já disse que o Supremo terá que revisitar sua decisão, “discutir isso em outro contexto”, diz o ministro. Ele avalia que inevitavelmente o tema vai ser colocado, pelo menos no próprio processo, ou mesmo antes de o caso eventualmente chegar ao STF, pois casos semelhantes podem ser analisados se forem suscitados.

O ministro levanta uma questão que, institucionalmente, é mais grave na sua avaliação, a de que a gravação foi uma operação controlada combinada com a Procuradoria-Geral da República, sem passar pela autorização judicial. Alegação que o procurador-geral Rodrigo Janot já negou com veemência: ele garante que soube da gravação, depois de ela ter sido feita. E que sentiu náuseas ao ouvi-la. Com razão.

Rio de Janeiro, Brasil | Fernando Gabeira

- O Globo

Quase todo dia somos obrigados a demonstrar em nossa vida digital que não somos um robô. Michel Temer, ao lado de Rodrigo Maia, anunciou um grande plano de segurança para o Rio. E até o meio da semana não tinha feito nada. Para milhões que não os conhecem pessoalmente agora precisam provar que não são robôs, que não passavam apenas de uma combinação de vozes gravadas e milhares de pixels. A situação tornou-se insustentável.

O próprio Maia, presidente da Câmara, reconheceu que o governo do Rio perdeu o controle. Temer e Maia estavam discutindo no princípio da semana quem ficaria com um grupo de deputados do PSB. Em suma, estavam absortos na luta pelo poder. Os tiroteios são diários, escolas são atacadas, crianças, alvejadas ou atropeladas no ventre da mãe, os policiais morrendo mais do que em qualquer época de nossa história recente.

Há outro problema: o crescimento do roubo de cargas. As estradas estão perigosas para quem chega ao Rio. O perigo assombra os motoristas de caminhão. As consequências já estão anunciadas: seguradoras não aceitam mais cobrir cargas que têm o Rio como destino, e as empresas podem parar de abastecer a cidade. Um colapso no abastecimento nos jogaria na Venezuela e seríamos forçados a emigrar para Roraima em busca de supermercados.

O erro original | Míriam Leitão

- O Globo
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O custo fiscal do BNDES, o que é pago pela sociedade, triplicou entre 2007 e 2016. Quem pegou dinheiro a TJLP, durante a alta recente da inflação, chegou a pagar juros reais negativos, de –4%. Só para Belo Monte foram dedicados R$ 22,5 bilhões, mais recursos do que para o financiamento de rodovias em 10 anos. Os dados são do Livro Verde, em que o banco se defende das críticas.

Há um erro original nesta discussão. O banco reage como se fosse ofensivo duvidar das decisões tomadas por seus gestores, como se todo funcionário estivesse sob suspeição. Numa democracia, qualquer órgão público está submetido ao escrutínio das instituições e tem que prestar contas. O presidente do BNDES diz que o livro é uma prestação de contas. Na verdade, é uma defesa da ideia de que o banco nunca errou.

O tom do livro é técnico, mas tem premissas equivocadas. O objetivo da apresentação de Paulo Rabello de Castro é o de ficar bem com os “benedenses”, o que ele conseguiu. Acusou as críticas de serem “pós-verdade” e abonou todas as ações do banco ao longo de seus 65 anos de história. Afirmou que “resta claro e inequívoco que o BNDES nunca desperdiçou recursos preciosos do povo nem jamais os aplicou de forma temerária”. Nas entrevistas, foi além e defendeu até a ditadura.

A crise do corporativismo | Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

A alta burocracia estatal, para manter os privilégios, aliou-se à elite política e fechou os olhos para o clientelismo e o patrimonialismo, quando não incorreu nas mesmas práticas

A Era Vargas sempre foi um tema controverso na história do Brasil. Nélson Werneck Sodré e Hélio Jaguaribe, por exemplo, viram a Revolução de 1930 como um movimento de classes médias, fruto das contradições econômicas entre esses setores médios da sociedade e os grandes fazendeiros que controlavam a República Velha. Wanderley Guilherme dos Santos e Ruy Mauro, em contraponto, foram os primeiros a defender a tese de que, na verdade, resultou da cisão da burguesia nacional e da ascensão da burguesia industrial ao aparelho do Estado.

Na década de 1970, Boris Fausto publicou tese sobre a Revolução de 1930, caracterizada como o resultado do conflito intraoligárquico, no qual movimentos militares dissidentes liquidaram a hegemonia da burguesia cafeeira. Em virtude da incapacidade de as demais frações de classe assumirem o poder de maneira exclusiva, e com o colapso da burguesia do café, abriu-se um espaço vazio que possibilitou o surgimento de um “Estado de compromisso”, fruto de um grande acordo entre as várias frações de classe e “aqueles que controlam as funções do governo”, sem vínculos de representação direta.

A culpa é da imprensa | Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Especialmente quando estão em apuros, políticos recorrem a supostos complôs entre a mídia e elites com interesse na manutenção do "statu quo" para explicar suas dificuldades e até o surgimento de denúncias contra sua administração. O subtexto aqui é o de que os meios de comunicação não hesitam em utilizar sua capacidade de influir para instilar as preferências ideológicas de seus controladores no restante da população.

É uma ideia verossímil, mas será que é verdadeira? Na era do "big data", dá para testar a hipótese, e foi isso que Matthew Gentzkow (Stanford) e Jesse Shapiro (Brown) fizeram num estudo de 2010. Em primeiro lugar, eles foram a uma base de 433 jornais dos EUA, que respondiam por 74% da circulação total. Em seguida, analisaram os textos noticiosos dessas publicações e os classificaram segundo um "index" ideológico baseado na frequência de expressões mais usadas por democratas ou republicanos. Por exemplo, republicanos quase sempre se referem a um tributo sobre sucessões como "death tax" (imposto sobre a morte) enquanto democratas preferem usar "estate tax" (imposto sobre patrimônio).

As peças se movem | Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

O Brasil ainda não sabe se Michel Temer terminará o ano na Presidência. Mesmo assim, os políticos já pensam no lance seguinte. Os movimentos dos últimos dias reforçam a sensação de que a eleição de 2018 está na rua.

A condenação de Lula obrigou todos os jogadores a moverem suas peças no tabuleiro da sucessão. Diante da ameaça de xeque-mate, o ex-presidente avançou os peões. Subiu num palanque na avenida Paulista e fez discurso de candidato.

Do outro lado da mesa, a jogada mais ensaiada é se apresentar como o anti-Lula. O prefeito João Doria e o deputado Jair Bolsonaro saíram na frente. Os dois usaram as redes sociais para divulgar vídeos comemorando a condenação do petista.

Mudança e desenvolvimento | José Roberto Mendonça de Barros

- O Estado de S. Paulo

A duração das crises tem a ver com a resistência de nossa sociedade a mudanças

As experiências modernas de desenvolvimento (Japão, Coreia e China, por exemplo) mostram sempre dois momentos: arranque e sustentação.

O arranque é caracterizado por um período no qual as condições são tais que a produção se eleva a taxas altas durante certo número de anos, até que algum desequilíbrio obrigue o país a um ajuste de políticas macroeconômicas. Estamos falando de movimentos endógenos, o que exclui choques decorrentes de causas naturais ou rupturas políticas. Esses desequilíbrios, no mais das vezes, tomam a forma de inflação, escassez de divisas, bolhas de crédito e crises bancárias, problemas orçamentários e crises fiscais.

O teste da verdade vem depois: feito algum programa de ajuste, o crescimento é retomado e sustentado, refletindo a recuperação da capacidade de avanço e transformação do país. Foi o que aconteceu na Coreia, que sofreu nas últimas décadas três crises profundas: o choque do petróleo de 1979/80, a crise asiática de 1997/98 e a crise financeira global de 2008/09. Em todos esses momentos, o PIB registrou evolução negativa por um ou dois anos. Entretanto, logo em seguida programas de ajuste levaram a uma recuperação do desenvolvimento, que segue até hoje.