sexta-feira, 1 de abril de 2011

Palocci diverge de Mantega

Os dois principais ministros discordam da fórmula de combater a inflação: Palocci quer retomada da política de alta de juros e Mantega insiste no corte de crédito.

Política monetária já opõe Palocci a Mantega

Os dois principais ministros discordam de fórmula de combater inflação: Palocci quer uma paulada nos juros e Mantega insiste no corte de crédito

Beatriz Abreu, Marcelo de Moraes, Andrea Jubé Vianna e Renato Andrade

Brasília - Três meses depois da posse da presidente Dilma Rousseff, o governo tem hoje uma disputa interna entre dois dos principais integrantes do primeiro escalão.

De um lado, o ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, defendendo a retomada da política de alta de juros como fórmula para reduzir a inflação e dosar o crescimento do País. Do outro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que sucedeu a Palocci ainda no governo Lula, resiste ao receituário dos últimos 16 anos e defende a eficácia das medidas de contenção de empréstimos bancários voltados para o consumo.

Na prática, Mantega e Palocci são hoje os dois ministros mais poderosos e influentes do governo Dilma e as diferenças entre os dois também envolvem a disputa pela indicação do rumo que a presidente deverá seguir na condução da economia de sua administração. Mantega comanda a equipe econômica, mas Palocci é o gerente do governo.

Com visões diferentes, já não é segredo os bombardeios mútuos nos bastidores.

Hoje, apesar de toda a influência de Palocci, que se aproximou muito de Dilma durante a campanha presidencial, Mantega leva vantagem nessa queda de braço, inclusive na opção dos instrumentos para conter a elevada valorização do real, que está contabilizada em 32%, nos últimos dois anos. Essa vantagem é atribuída ao sucesso da atuação conjunta de Fazenda e Banco Central durante a crise financeira de 2008 e das "medidas macroprudenciais", o novo receituário aplicado a partir de dezembro passado.

O BC reforçou o uso dessas medidas no Relatório de Inflação e estabeleceu uma comunicação direta com o mercado: 2011 será um ano "de um pouquinho mais de inflação". O BC não vai patrocinar um choque nos juros para jogar o País numa recessão e dar como prêmio o retorno da inflação ao centro da meta de 4,5%.

O horizonte é uma inflação menor somente em 2012. Porém, o BC deixou engatada uma marcha à ré ao afirmar que "a estratégia de política monetária pode eventualmente ser reavaliada, em termos de sua intensidade, de sua distribuição temporal ou de ambos".

Resultado rápido. O fator que pode desequilibrar essa discussão a favor do receituário de Palocci é o risco de aumento da inflação. Dilma já avisou que não admite a perda do controle desse fundamento, justamente no início de seu mandato e com sua popularidade apresentando números favoráveis expressivos. Mas ela quer resultado e rápido.

Politicamente, Palocci transita melhor do que Mantega em vários setores. A atuação como deputado federal garantiu ao ministro da Casa Civil espaço nas conversas com os representantes do Congresso.

Mas ele prefere operar politicamente nos bastidores. O ministro da Fazenda negocia menos com deputados e senadores, mas expressa em público suas opiniões e posições, ocupando com isso um espaço estratégico nas discussões centrais do governo.

Essas diferenças não chegaram ao ponto de prejudicar o governo e de exigir uma intervenção de Dilma. No entanto, podem estar se aproximando de um limite, especialmente se a economia ampliar seus problemas. A situação brasileira é semelhante à de outros países. A inflação na zona do euro foi de 2,6% em março, o maior nível em 29 meses, o que reforçou a aposta de que, na próxima semana, o Banco Central Europeu (BCE) vai elevar as taxas de juros pela primeira vez em quase três anos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

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