domingo, 20 de setembro de 2009

Vice argentino surge como favorito à Presidência

Janaína Figueiredo
DEU EM O GLOBO


Na curiosa posição de principal opositor do governo, Cobos é o líder com melhor imagem e já vive rotina de candidato


BUENOS AIRES. Desde que votou contra o governo da presidente Cristina Kirchner no Congresso, no ano passado, o vice-presidente e presidente do Senado, Julio Cobos, transformou-se no principal líder opositor do país. Hoje, importantes analistas políticos asseguram que Cobos é o dirigente com melhor imagem da Argentina e, portanto, com mais chances de disputar e vencer as próximas eleições presidenciais, em outubro de 2011.

Em sua sala no primeiro andar do Senado, Cobos, segundo admitiram colaboradores, vive uma típica rotina de candidato. A agenda do vice, de 54 anos, está carregada de reuniões com outros dirigentes opositores, empresários, embaixadores e representantes de setores importantes da sociedade argentina, por exemplo, Igreja e produtores rurais. Dias antes da votação do projeto de lei sobre serviços audiovisuais, Cobos, que manifestou fortes divergências com a proposta kirchnerista, convocou um encontro com outros opositores, entre eles o deputado do peronismo dissidente Francisco De Narváez (com quem conversa frequentemente por telefone), e o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. A reunião provocou a ira da Casa Rosada e levou o chefe de gabinete, Aníbal Fernández, a pedir a renúncia do vice-presidente.

Presidente e vice não se falam há um ano

Quando o governo ataca, Cobos evita reagir. Mas desta vez, o vice, que em 2007 foi expulso da União Cívica Radical (UCR) por sua aliança com o casal K, decidiu romper o silêncio.

- O vice-presidente não pode buscar o consenso, fazer propostas. Todos têm direito de se reunir e dialogar, mas quando se trata do vice-presidente ele se transforma em conspirador - declarou Cobos.

Ele disse não "estar condenado a calar-se" e, apesar das pressões de funcionários como Fernández, confirmou sua decisão de permanecer no cargo.

- Pelo fato de não ter compartilhado um critério em julho de 2008 (quando o governo foi derrotado no Senado, na votação sobre um projeto que modificava os tributos a exportadores de grãos), alguns dirigentes e funcionários consideram que o único papel do vice-presidente, que foi marginalizado de atos de governo, da agenda política e humilhado, é se calar ou renunciar - reclamou Cobos.

Este engenheiro, que entre 2003 e 2007 foi governador da província de Mendoza, jamais imaginou que seria um dos favoritos às eleições presidenciais de 2011. Após ter aceitado a proposta de Néstor Kirchner para integrar a chapa, que obteve 45,2% dos votos em 2007, Cobos tentou participar da gestão de Cristina. A guerra entre a presidente e seu vice, que há mais de um ano não se falam, começou em meados de 2008. Segundo analistas, nunca antes um presidente havia convivido com um vice tão abertamente opositor.

- Desde a redemocratização, em 83, observamos alguns relacionamentos mais complicados que outros. Mas nunca tivemos um vice que fosse líder da oposição - contou Carlos Fara.

Para ele, Cobos "reúne os principais atributos que a sociedade demanda à classe política: moderação, defesa do diálogo e da necessidade de consenso e respeito pelas instituições".

- Cobos deverá ter muito cuidado porque ainda faltam dois anos para as eleições e sua imagem poderia sofrer um desgaste - alertou o analista.

Fantasma de De La Rúa é obstáculo para Cobos

O vice tem uma equipe reduzida de colaboradores. Um dos homens de confiança é o ex-senador radical Raúl Baglini. Outro frequentador da sala de Cobos é o deputado Oscar Aguad, também da UCR.

Nas últimas semanas, Cobos, que no ano passado criou a Fundação Consenso para o Desenvolvimento Argentino, participou de eventos com representantes da União Industrial Argentina (UIA), da Associação de Bancos da Argentina (ABA) e da Câmara Argentina de Comércio. Os homens de negócios querem saber o que pensa o homem que se atreveu a desafiar o poder do casal K e desde então se transformou no principal fenômeno político do país. Detalhe: muitos pedem que os encontros sejam mantidos em segredo, para não irritar o casal presidencial.

Cobos imagina que seu rival na disputa pela Presidência poderia ser o próprio Kirchner, que já admitiu a colaboradores a possibilidade de buscar um segundo mandato. Na visão da analista Graciela Romer, a candidatura de Kirchner dependerá, entre outros fatores, da decisão do senador eleito pelo Partido Justicialista Carlos Reutemann. O ex-piloto de Fórmula 1 acaba de vencer as eleições legislativas na província de Santa Fé e, ao contrário de Kirchner, tem amplo respaldo popular.

- Hoje Kirchner aparece como o candidato mais forte do peronismo, mas uma eventual candidatura de Reutemann poderia alterar o cenário - explicou Romer.

Apesar de ser o pré-candidato mais forte, Cobos ainda tem um longo caminho. O vice deverá negociar alianças, recompor plenamente seu relacionamento com a UCR e convencer os argentinos a elegerem presidente radical. O fantasma do dramático fracasso do ex-presidente radical Fernando de La Rúa, que abandonou o poder em dezembro de 2001 em meio à mais grave crise política, econômica e social das últimas décadas, é um dos principais obstáculos que Cobos deverá superar.

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