segunda-feira, 6 de abril de 2009

Crise devolve 563 mil às classes D e E

Fernando Dantas
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO (ontem)

Dados das seis maiores regiões metropolitanas mostram reversão no crescimento da classe C

O Brasil registrou em janeiro reversão abrupta no crescimento da classe C, formada por quem tem renda familiar entre R$ 1.100 a R$ 4.800 por mês. Só no primeiro mês do ano a retração econômica fez um total de 563 mil pessoas cair para as classes D e E em seis regiões metropolitanas (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife). De janeiro de 2003 a dezembro de 2008, a participação da classe C na população total dessas seis regiões, onde mora um quarto dos brasileiros, tinham crescido de 43% para 53,8%. Em janeiro, recuou para 52,6%. Os cálculos são do pesquisador Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas. Com base em dados preliminares ainda não consolidados, ele avalia que em fevereiro a situação ficou estável, sem uma recuperação expressiva das perdas do mês anterior, mas tampouco sem agravamento da deterioração. “Foi só em janeiro que soou o alarme de que, na área social, a crise não era apenas uma marolinha, embora ainda não esteja caracterizado que seja um tsunami”, afirma Néri. (págs. 1, B1 e B3)

Crise devolve 563 mil à baixa renda

O ano de 2009 começou com uma reversão abrupta no crescimento da classe média - incluindo a classe C, a classe média popular - que caracterizou boa parte do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Somente em janeiro, a classe C nas seis maiores regiões metropolitanas do País perdeu 11% do seu crescimento no governo Lula. No mês, um total de 563 mil pessoas caiu da classe C para as classes D e E nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.

Somando-se as classes A e B à C, a redução nas regiões metropolitanas chega a 765 mil, e é exatamente igual ao aumento das classes pobres, a D e a E. O crescimento da classe C é uma marca do governo Lula e também um fenômeno global causado pelo boom econômico encerrado em setembro do ano passado, especialmente em países como a China e a Índia. As classes A e B, por sua vez, incluem o que normalmente se considera como classes média e média alta no Brasil.

As seis regiões metropolitanas representam apenas um quarto da população, e, portanto, o recuo da classe média em janeiro deve ter sido muito maior do que as 765 mil pessoas. Porém, segundo Marcelo Neri, do Centro de Política Social (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que fez os cálculos, não é possível extrapolar os números para a população como um todo.

A ameaça ao crescimento da classe média é reforçada por cálculos do pesquisador Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que indicam que a crise tende a atingir principalmente as pessoas mais educadas no Brasil, o que, dada a baixa média educacional do País, inclui a classe C, além da A e B.

O recuo em janeiro na participação da classe C no total das seis regiões metropolitanas foi de 1,2 ponto porcentual, saindo de 53,8% em dezembro de 2008 para 52,6%. De janeiro de 2003, início do governo Lula, até dezembro de 2008, a parcela da classe C cresceu 10,8 pontos porcentuais, de 43% para 53,8% na população total das regiões metropolitanas.

As classes A e B, por sua vez, cresceram de 11,2% da população nas regiões metropolitanas para 15,3%, de janeiro de 2003 a dezembro de 2008, e recuaram para 14,9% em janeiro. Já as classes pobres, D e E, diminuíram de 45,8%, no início do governo Lula, para 30,9% em dezembro de 2008. Em janeiro, elas subiram a 32,4% - um avanço de 1,6 ponto porcentual, que desfaz, em um mês, um naco de 11% da redução das classes pobres desde 2003.

Segundo Neri, a reversão de janeiro é "muito preocupante", embora fevereiro indique alguma melhora.

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